Crise na RENAMO em fase decisiva
A crise interna da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) entrou numa fase decisiva, combinando contestação política, pressão judicial e constrangimentos financeiros que colocam em causa a própria viabilidade da maior força histórica da oposição em Moçambique.
O recente frisar da posição de António Pedro Muchanga, antigo deputado na Assembleia da República e figura histórica da “perdiz”, ao defender a “retirada imediata” de Ossufo Momade, reflecte o agravamento de uma dissidência que se arrasta desde a morte do lendário Afonso Macacho Marceta Dhlakama, em 2018. Muchanga acusa Momade de incumprir o compromisso de abandonar a liderança e de conduzir a Renamo a um declínio político profundo, sintetizado na expressão de que estaria a “matar a relíquia” deixada por André Matadi Matsangaíssa e continuada com mestria por Dhlakama.
Esta contestação ganhou densidade institucional. Ex-guerrilheiros e alguns quadros do partido submeteram participações à Procuradoria-Geral da República, exigindo esclarecimentos sobre alegadas irregularidades na gestão financeira, incluindo ausência de relatórios de/e contas e auditorias independentes. Ao mesmo tempo, os dissidentes insistem numa estratégia não violenta, privilegiando os tribunais como via de resolução do conflito interno.
Declínio eleitoral e perda de centralidade
Os resultados eleitorais de 2024 consolidaram a percepção de declínio. Momade obteve apenas 6% nas presidenciais — o pior desempenho da história da Renamo — enquanto o partido caiu de 60 para 28 deputados, perdendo o estatuto de principal força da oposição. A emergência de novas dinâmicas políticas agravou esta marginalização: Venâncio António Bila Mondlane, ex-Frelimo e ex-Renamo, capitalizou o descontentamento e contribuiu para a ascensão do PODEMOS, enquanto o projecto ANAMOLA procura consolidar esse espaço alternativo.
A perda de influência é particularmente significativa no norte do país, região tradicionalmente estratégica para a Renamo. A escolha de Momade, em parte justificada pela sua origem macua e ligação ao Norte, não evitou a transferência de apoios para novas formações políticas.
Suspeitas políticas e dependência do Estado
No plano político-estratégico, circulam suspeitas internas de que a liderança de Momade mantém uma relação de proximidade com o poder, traduzida em benefícios materiais e institucionais. Entre estes, destaca-se a alegada manutenção de regalias estatais — como residência oficial, viatura e um subsídio significativo — apesar da perda do estatuto formal de líder da oposição.
Essas percepções alimentam a narrativa de que a Renamo terá reduzido a sua capacidade de oposição efectiva ao partido Frelimo, contribuindo para um ambiente de quase hegemonia política. A permanência de Momade no Conselho de Estado, contrariando indicações internas do partido, reforça essa leitura entre os críticos.
Fragmentação interna e impasse organizacional
A contestação não se limita ao plano discursivo. A chamada “ala militar” — composta por ex-guerrilheiros — tem desempenhado um papel activo, incluindo o encerramento de delegações provinciais desde 2025 e a criação de uma “comissão de gestão” liderada por Edgar Silva, figura próxima de Dhlakama. Este grupo exige a “realização urgente” de um Conselho Nacional que conduza à convocação de um Congresso eleitivo.
Contudo, o processo enfrenta alegados obstáculos logísticos e financeiros significativos. A realização de um Conselho Nacional poderá custar mais de 3.6 milhões de meticais, enquanto um Congresso poderá andar nos dez milhões de meticais — valores difíceis de mobilizar num contexto de retração do financiamento externo.
O Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), tradicional financiador em iniciativas político-partidárias em Moçambique, reduziu substancialmente o seu apoio, reflectindo a falta de resultados concretos das reuniões anteriores da RENAMO e de outras formacoes activas no país.
Sem esses recursos, a substituição de liderança torna-se jurídica e estatutariamente inviável, prolongando o impasse. Mesmo num cenário de saída voluntária de Momade, os estatutos obrigariam à realização de um Congresso em três meses, recolocando o mesmo problema financeiro.
Perspectivas e implicações estratégicas
A conjugação de factores — liderança contestada, crise financeira, fragmentação interna e perda de relevância eleitoral — coloca a Renamo perante um risco existencial. A ascensão de novos actores políticos, com maior capacidade de mobilização e financiamento, sugere uma reconfiguração do espaço da oposição em Moçambique.
Neste contexto, a pressão liderada por António Muchanga e pelos ex-guerrilheiros pode acelerar mudanças, mas dificilmente produzirá resultados imediatos sem resolver o bloqueio financeiro e organizacional.
A curto prazo, a permanência de Ossufo Momade, quem ao que consta tem andado enfermo, parece provável; a médio prazo, porém, a sustentabilidade política da Renamo dependerá da sua capacidade de regeneração interna e de redefinição estratégica.
O desfecho desta crise terá implicações que ultrapassam o partido: poderá redefinir o equilíbrio do sistema multipartidário moçambicano, num momento em que a oposição se encontra fragmentada e a Frelimo mantém uma posição dominante.
©REFINALDO CHILENGUE
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 10 de Junho de 2026.
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