O pragmatismo de a diplomacia de resultados — TELMA BENJAMIM TAERO
O início do mandato do Presidente Daniel Chapo, em Janeiro de 2025, mostra uma mudança radical na forma como Moçambique se posiciona no plano externo. Sob o lema “o comboio não para”, o Chefe de Estado tem mantido uma agenda diplomática intensa, com sucessivas viagens e presença constante em cenários onde decisões importantes são tomadas.
Esta postura tem sido criticada vivamente, cépticos desse pragmatismo apontam para os dispêndios. É verdade, mas também há que relevar esta escolha consciente: colocar Moçambique em movimento, num mundo onde quem fica parado acaba por ficar para trás.
Estas viagens não podem ser vistas apenas como deslocações formais. São, no fundo, tentativas de colocar o país noutra linha da geopolítica global (sair da plateia e entrar no palco. Num cenário internacional competitivo, onde os países disputam investimento, influência e parcerias, manter se neutro revela que não passamos de espectadores das mudanças globais. Isto pesa muito. Não aparecer também é uma mensagem. E, muitas vezes, é uma mensagem de fraqueza. Portanto, é viável que “o segundo país mais pobre do mundo” mantenha-se neutro? Não me parece.
Ainda assim, nem todos embarcam neste comboio com a mesma excitação. Há quem questione o ritmo, os custos e até o destino desta viagem. Num país com desafios internos evidentes, falar de viagens constantes levanta dúvidas legítimas. Fala-se do custo das deslocações, das aeronaves fretadas, do tamanho das comitivas. E há uma pergunta que fica no ar: até que ponto este movimento todo se alinha com o discurso de contenção de despesas do presidente Daniel Chapo no início de seu mandato?
Essa preocupação faz sentido. Não deve ser ignorada. Pelo contrário, deve fazer parte do debate interno de nosso Estado. Um Estado responsável precisa de prestar contas. Questionar não é travar o comboio, é garantir que ele não descarrila.
Mas também é preciso olhar por outros prismas. Na arena internacional, relações não se constroem à distância. O contacto directo continua a contar. O “olho no olho” ainda abre portas, encurta caminhos e acelera decisões. Neste sentido, a postura de Daniel Chapo mostra pragmatismo: quem quer chegar mais longe, não pode ficar na estação.
As primeiras visitas de Estado ajudam a perceber essa lógica. A visita à Tanzânia, em Maio de 2025, lançou os alicerces para reforçar relações na região, com acordos em áreas concretas como medicamentos, cultura e gestão de fronteiras. Ainda no mesmo mês, a ida a Angola resultou na assinatura de memorandos de entendimento nos sectores da educação, transportes, energia e cultura.
Depois vieram Malawi, Espanha, Estados Unidos, Suíça e Portugal. Cada paragem com a sua agenda, cada encontro com o seu peso. Uns mais simbólicos, outros mais práticos, mas todos inseridos numa tentativa de diversificar caminhos e abrir novas rotas.
Em 2026, o ritmo não abrandou. Abu Dhabi surge como paragem estratégica para captar investimento. Outrossim, a paragem no Quénia reforça ligações no continente. Na China encontramos um parceiro estratégico em infra-estruturas e financiamento, prova disso, não é a Estrada circular e a maior ponte suspensa de África (ponte Maputo KaTembe)! Ademais, a paragem na Etiópia, que mantém Moçambique ligado ao centro das decisões africanas.
Diante disto, a pergunta que não quer calar e não deixo de repetir é: pode Moçambique dar-se ao luxo de ficar parado? Num mundo em constante movimento, ficar na estação não é estratégico é ficar para trás. Não obstante, estar em Marcha não garante que o comboio chegue ao destino, mas não estar presente é quase garantir que nunca se chega. Por que não ariscar?
É aqui que entra a ideia de diplomacia de resultados. Não basta viajar, não basta assinar, não basta aparecer e ser visto nas televisões. É preciso trazer algo na bagagem: Investimento, projectos, oportunidades, soluções. E mais, se o memorando não sai do papel para um projecto concreto, ainda faz sentido o “Vamos trabalhar”? Queremos resultado, caso contrário, o risco é ter muito movimento e pouco impacto.
E é neste ponto que a crítica ganha força. Não por rejeitar a diplomacia, mas por exigir mais dela. Há discrepância notória entre o ritmo lá fora e as dificuldades cá dentro. Outrossim, se vamos visitar os nossos amigos transportados por limusinas, é suposto que façamos queixas de carência, é suposto que estes acreditem na nossa necessidade real de apoio, é suposto que queiram fazer mais do que promessas ao ar!? Não, não é bem assim, coloquemos, pois, sobre a balança: manter a imagem de não pobre, sendo pobre, ou balancear aos dispêndios e as prioridades.
Outro aspecto que não passa despercebido é o tamanho das comitivas. Num momento em que se pede contenção, grandes delegações podem dar a sensação de excesso. E, na política, a percepção também conta. Não basta fazer, é preciso parecer coerente.
Trocando em quinhentas, o problema não é o comboio andar. O problema é saber se está a levar passageiros ou apenas a fazer ruído nos carris. A questão não é quantas viagens são feitas, mas o que se ganha com cada uma. Ganhos concretos.
Enquanto observadora, vejo relevância neste pragmatismo. Num mundo exigente, não há espaço para imobilismo. Mas também é preciso dizer com clareza: movimento sem direcção não resolve. Velocidade sem resultado cansa.
Se até aqui o foco foi arrancar e ganhar velocidade, o próximo passo deve ser outro: garantir que o comboio chega a algum lado e que não deixa os passageiros para trás.
Isso começa por ligar melhor o que se faz lá fora com o que acontece cá dentro. Acordos não podem ficar no papel. Precisam de prazos, responsáveis e acompanhamento. Caso contrário, tornam-se promessa em trânsito permanente. Isto dará a sensação de que precisamos de transbordo.
Também é altura de escolher melhor as próximas paragens. Nem todos os destinos têm a mesma relevância. Então, que tal, ao invés de deixar isso parecer passeios para conhecer o mundo, reduzir a quantidade e focar no retorno. Ir onde faz sentido, e não apenas ir por ir. Focar na busca por investimento real (Estados capazes de fornecer apoio financeiro) e know how em áreas base para o nosso desenvolvimento, energia, agricultura, infra-estruturas, logística, tecnologia. Pois sem foco, a diplomacia dispersa-se, mas com foco, começa a produzir.
Outro ponto, são as comitivas que também devem acompanhar essa lógica. Equipas mais técnicas, mais focadas e menos pesadas podem tornar cada viagem mais produtiva. Às vezes, menos gente no comboio significa mais espaço para resultados.
E talvez o mais importante, medir resultados. Quantos investimentos chegaram? Quantos projectos saíram do papel? Quantos empregos foram criados? Sem respostas a estas perguntas, a diplomacia de resultados corre o risco de ser apenas uma boa expressão.
Agora, olhando para as próximas viagens, incluindo países como a Rússia, é fundamental saber exactamente o que se vai procurar. No caso russo, há espaço para cooperação em energia, agricultura mecanizada, fertilizantes e formação técnica. O foco deve estar aí, em coisas concretas, não em agendas amplas demais.
Mantendo a lógica, na Ásia, procurar tecnologia e indústria; no Médio Oriente, financiamento; na Europa, energia e digitalização; em África, comércio e integração. Cada paragem deve ter um propósito claro.
Moçambique já entrou em movimento. Isso é inegável. O desafio agora não é acelerar ainda mais, mas garantir que vale a pena continuar.
“O comboio não para” é uma metáfora forte. Mas um comboio não existe só para andar, mas sim para levar pessoas a algum destino. Se não houver destino claro, nem resultados visíveis, corre-se o risco de andar em círculos.
Em sumula, a questão é simples o comboio está a avançar, mas está a levar o país consigo?
©TELMA BENJAMIM TAERO *
*Licenciada em Relações Internacionais e Diplomacia pela Universidade Joaquim Chissano
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 03 de Junho de 2026.
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