Moçambique não precisa apenas de empregos. Precisa de propósito — RAFAEL NAMBALE
Há uma palavra que raramente aparece nos debates políticos, nos relatórios económicos ou nos discursos sobre desenvolvimento. No entanto, talvez seja uma das palavras mais importantes para compreender os desafios do nosso tempo: propósito.
Em Moçambique, fala-se muito de emprego. E com razão. O desemprego continua a ser uma das maiores preocupações nacionais. Milhares de jovens concluem os seus estudos todos os anos e encontram pela frente um mercado incapaz de absorver os seus sonhos, as suas competências e as suas expectativas.
Mas talvez exista uma questão ainda mais profunda que estamos a ignorar.
O problema de Moçambique não é apenas a falta de empregos. É também a falta de propósito.
Porque um país pode criar postos de trabalho e, ainda assim, produzir cidadãos desmotivados, frustrados e sem esperança. Pode formar milhares de jovens e, mesmo assim, assistir à fuga dos seus melhores talentos. Pode crescer economicamente e continuar emocionalmente empobrecido.
O ser humano não vive apenas de salário. Vive também de significado.
Vive da sensação de que o seu esforço contribui para algo maior. Vive da convicção de que o amanhã pode ser melhor do que o presente. Vive da certeza de que pertence a uma comunidade que valoriza os seus sonhos e reconhece a sua dignidade.
Infelizmente, muitos jovens moçambicanos começam a perder essa convicção.
Não porque lhes falte inteligência. Não porque lhes falte capacidade. Nem porque lhes falte vontade de trabalhar.
Falta-lhes, muitas vezes, uma razão para acreditar.
Vivemos numa sociedade onde se multiplicam os discursos sobre oportunidades, mas onde muitos jovens observam diariamente a distância entre as promessas e a realidade. Ouvem falar de crescimento económico, mas enfrentam dificuldades para construir uma vida estável. Escutam discursos sobre o futuro, mas têm dificuldade em visualizar o seu próprio lugar dentro dele.
E quando uma geração deixa de acreditar no futuro, instala-se uma crise silenciosa.
Uma crise que não aparece nos indicadores macroeconómicos.
Uma crise que não é medida em percentagens.
Uma crise que se manifesta na apatia, no desencanto, na fuga de talentos, no abandono dos sonhos e, por vezes, na perigosa ideia de que o sucesso só é possível longe da própria pátria.
Nenhum país pode prosperar sustentavelmente quando os seus jovens deixam de acreditar nele.
É precisamente por isso que o desenvolvimento não pode ser reduzido a números, infraestruturas ou estatísticas de crescimento. O desenvolvimento também é um fenómeno humano. É a capacidade de inspirar esperança. É a construção de um ambiente onde o mérito seja recompensado, onde o talento encontre espaço para florescer e onde os cidadãos sintam que fazem parte de um projecto colectivo.
Moçambique precisa de empregos.
Mas precisa igualmente de educação transformadora.
Precisa de cultura.
Precisa de ciência.
Precisa de empreendedorismo.
Precisa de instituições credíveis.
Precisa de lideranças inspiradoras.
Precisa de exemplos que mostrem às novas gerações que vale a pena sonhar, trabalhar e construir o futuro dentro do próprio país.
Porque uma nação não se mede apenas pela riqueza que produz.
Mede-se também pela esperança que consegue despertar.
Talvez o maior desafio de Moçambique não seja apenas criar empregos para a sua juventude.
Talvez seja devolver-lhe um motivo para acreditar.
Porque quando um povo perde os seus empregos, enfrenta dificuldades.
Mas quando perde o seu propósito, corre o risco de perder o seu futuro.
E nenhuma riqueza natural do mundo consegue substituir a força de uma geração que acredita em si própria e no país que chama de lar.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 11 de Junho de 2026, na rubrica de opinião.
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