A casa habitada pelo xipoco — LEANDRO PAUL
Durante vinte e cinco anos, a velha casa do Chamanculo ficou entregue ao silêncio.
As chapas de zinco enferrujaram, as paredes perderam a cor e o mato tomou conta do quintal.
As crianças passavam depressa diante do portão e os adultos evitavam olhar para as janelas escuras. Dizia-se que ali ninguém permanecia muito tempo.
Porque a casa tinha dono.
Não era um homem.
Nem uma família.
Era um xipoco.
A história começara logo depois da Independência. A família de origem indiana que ali vivia abandonara a residência de um dia para o outro.
Alguns diziam que tinham fugido durante a noite, deixando para trás móveis, roupas e panelas.
Ninguém soube ao certo.
O que ficou foi o boato.
E, em bairros antigos, os boatos envelhecem melhor do que as paredes.
Os primeiros curiosos tentaram ocupar o imóvel.
Duraram poucos dias.
Contavam que ouviam passos quando não havia ninguém, portas a bater sem vento e uma voz estranha, numa língua que nenhum vizinho compreendia.
Depois iam embora.
Sempre sem olhar para trás.
Com o passar dos anos, a casa tornou-se parte da paisagem.
As crianças cresceram a ouvir dos pais:
– Não brinquem perto daquela casa.
Os mais velhos limitavam-se a dizer:
– Há coisas que é melhor não mexer.
Foi então que apareceu um jovem casal.
Alcinda e Mateus precisavam de um lugar barato para viver. Tinham pouco dinheiro, um colchão velho, uma panela de alumínio, duas cadeiras e uma coragem que lhes parecia suficiente para enfrentar qualquer superstição.
Quando lhes falaram do xipoco, riram.
– Fantasmas não pagam renda – disse Mateus, um jovem estudante de engenharia.
No primeiro dia, limparam o quintal.
No segundo, abriram as janelas.
No terceiro, pintaram a porta.
Os vizinhos observavam tudo à distância.
Alguns abanavam a cabeça.
Outros apostavam que não ficariam ali uma semana.
Na primeira noite nada aconteceu.
Na segunda também não.
O casal começou a acreditar que todas aquelas histórias eram apenas invenções de gente antiga.
Alcinda já falava em comprar cortinas. Mateus, mais confiante, dizia que a casa só precisava de tinta, martelo e paciência.
Até que chegou o sábado.
Já passava da meia-noite quando Alcinda acordou.
Não sabia porquê.
Sentia apenas um frio estranho.
Empurrou o marido.
– Estás a ouvir?
Mateus permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Depois ouviu também.
Uma voz.
Não vinha da rua.
Não vinha do quintal.
Parecia caminhar lentamente dentro da própria casa.
Falava numa língua desconhecida. As palavras tinham um ritmo quase cantado. Parecia chamamento para a oração nas mesquitas. Noutras pareciam apenas sons sem significado, arrastados pelo escuro.
Alcinda puxou o lençol até ao peito.
– Quem está aí? – perguntou Mateus, tentando parecer firme.
A voz calou-se.
Por instantes, a casa ficou tão silenciosa que se podia ouvir o bater do coração dos dois.
Depois, os passos recomeçaram.
Lentos.
Pesados.
Do corredor para a sala.
Da sala para a porta do quarto.
Mateus levantou-se devagar. Procurou a lanterna debaixo da cama. As mãos tremiam-lhe, embora ele não quisesse admitir.
Quando apontou a luz para a porta, viu a maçaneta mexer.
Primeiro devagar.
Depois com mais força.
Alcinda tapou a boca para não gritar.
Mateus avançou dois passos.
A maçaneta parou.
E, de repente, as luzes do candeeiro apagaram-se. A lanterna caiu ao chão.
A casa mergulhou numa escuridão completa.
Ouviu-se um estalido.
Depois outro.
As chapas do tecto estremeceram, como se alguém caminhasse por cima delas.
A porta da sala bateu com violência.
Uma janela abriu-se sozinha e fechou-se logo a seguir.
Mateus quis correr.
Mas não conseguiu.
Foi então que o viram.
No corredor, diante da porta do quarto, havia uma figura alta, vestida de branco.
Não se via o rosto.
Apenas o vulto.
Imóvel.
Silencioso.
Alcinda começou a rezar em voz baixa.
Mateus sentiu as pernas falharem.
A figura permaneceu ali durante alguns segundos.
Depois levantou lentamente uma mão, como se apontasse para a saída.
Nenhum dos dois esperou explicação.
Mateus agarrou Alcinda pelo braço, abriu a janela do quarto e os dois saíram para o quintal, tropeçando no capim, sem chinelos, sem coragem para olhar para trás.
Dormiram sentados no passeio, junto à casa de uma vizinha.
Na manhã seguinte, os moradores encontraram-nos ainda pálidos, embrulhados numa capulana emprestada.
– Então? – perguntou um velho, sem surpresa.
Mateus demorou a responder.
– Vimos uma coisa.
Ninguém riu.
Ninguém perguntou detalhes.
Os mais velhos apenas olharam para a casa.
Como quem confirma uma verdade antiga.
A muito custo, com ajuda de alguns vizinhos menos amedrontados, o casal ainda voltou à casa nessa manhã para recolher os seus poucos pertences.
Depois disso, nunca mais lá puseram os pés.
Mas também nunca mais ninguém conseguiu viver naquela casa.
Talvez porque o verdadeiro fantasma nunca tenha morado entre aquelas paredes.
Morava dentro das pessoas.
Do medo que as pessoas sentiam.
E há medos que não precisam de corpo para abrir portas, apagar luzes ou expulsar moradores.
Basta que alguém acredite neles.
Foi assim que a velha casa do Chamanculo continuou abandonada. Até hoje.
Não porque um xipoco impedisse os vivos de ali morar.
Mas porque, às vezes, uma lenda consegue construir paredes muito mais altas do que o cimento.
E essas, ao contrário das casas, são muito difíceis de demolir.
Ou porque, de vez em quando, parece que o próprio xipoco também faz questão de lembrar que ainda vive ali. E não gosta de companhia.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 06 de Junhlo de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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