A feiticeira— LEANDRO PAUL

Quando os cães começaram a uivar naquela noite, sem ainda se saber porquê, muita gente em Xinavane fechou as portas mais cedo.

O calor era pesado.

O vento quase não soprava.

E a lua aparecia escondida por trás de nuvens escuras que pareciam carregar maus presságios.

Na casa de Adelina C., porém, ninguém prestava atenção ao céu.

Era dia de visita.

O sobrinho regressava da África do Sul, depois de mais de um ano ausente.

Quem de lá chega sempre traz coisas boas.

Daí a notícia se espalhar rapidamente entre os familiares.

Apesar dos conflitos antigos, a tia Adelina ficou feliz. Sempre gostara daquele rapaz.

Tinha-o visto crescer. Tinha-lhe dado comida quando era criança.

Tinha-lhe comprado roupa quando a mãe dele não tinha dinheiro.

Por isso, quando o viu entrar no quintal naquela tarde, levantou-se imediatamente para o receber.

Meu filho, finalmente apareceste! – Exclamou.

Mas o rapaz não respondeu.

Limitou-se a observá-la. Os olhos pareciam diferentes.

Mais frios. Mais duros.

Como se tivesse percorrido a EN4 carregando algo pesado dentro de si.

Ninguém percebeu. Nem Adelina. Nem a filha, Sara.

Nem os outros familiares que jantavam debaixo do alpendre.

Durante o seu mais de um ano de ausência, a sua família vivera mergulhada numa tristeza profunda.

Primeiro morrera uma criança. Pouco tempo depois, outra.

Em seguida, o irmão mais velho do jovem adoecera de forma repentina e acabara também por morrer.

As explicações médicas nunca convenceram toda a gente.

E onde faltam respostas, surgem histórias. Foi assim que começaram os boatos.

Diziam que alguém estava a lançar desgraças sobre a família. Diziam que havia feitiço.

Diziam que existia uma pessoa responsável por todas as mortes.

Com o passar do tempo, os rumores ganharam um nome.

Adelina. A própria tia.

Uma mulher de idade muito avançada que vivia praticamente sozinha.

Uma mulher que nunca tinha sido rica. Nem poderosa.

Mas que carregava o peso de ser diferente. Nunca adoecia.

Os outros é que morriam de doença. Ela não. Bastou isso.

Na mente do sobrinho, a suspeita transformou-se em certeza.

E a certeza transformou-se em ódio.

Naquela noite, enquanto a família terminava o jantar, o jovem permaneceu calado.

Observava. Esperava. Parecia contar os minutos.

Sara recordaria mais tarde que houve qualquer coisa estranha no silêncio dele.

Mas ninguém imaginava o que estava prestes a acontecer.

Adelina estava a levantar-se da mesa, para se ir deitar.

Foi então que tudo mudou.

Num movimento rápido, o rapaz puxou de uma catana que trazia escondida.

Durante um segundo, ninguém compreendeu.

O brilho da lâmina atravessou a luz amarela do candeeiro.

Depois veio o primeiro grito. Sara viu a mãe levar as mãos ao rosto.

Viu a cadeira cair. Viu os familiares levantarem-se em pânico.

Mas, acima de tudo, viu nos olhos do agressor uma determinação assustadora.

Como se estivesse convencido de que cumpria uma missão.

Hoje acaba o mal desta família! – gritou.

O quintal mergulhou no caos. As crianças correram. As mulheres choravam.

Os homens tentavam aproximar-se sem saber como.

Tudo aconteceu em poucos instantes.

Quando finalmente conseguiram afastá-lo, Adelina estava caída. Imóvel.

Coberta de sangue. Sara ajoelhou-se ao lado da mãe. Pensou que estava morta.

Na verdade, todos pensaram. O agressor também. Por isso fugiu.

Correu para a escuridão acreditando ter terminado aquilo que começara.

Mas Adelina continuava viva. Mal respirava. Mal se movia. Porém, continuava viva.

A viagem para o centro de saúde pareceu interminável.

A caixa aberta do vizinho avançava pela estrada empoeirada enquanto Sara segurava a mão da mãe.

Em certos momentos tinha a sensação de que aquela mão ficava mais fria.

Que ela estava morta. Mas Adelina parecia estar protegida pelos avôs.

Ela sobreviveu. Contra todas as previsões. Contra todos os medos.

Contra toda a violência daquela noite.

Dias depois, com o rosto marcado pelas costuras, pediu para ver a filha.

Sara aproximou-se da cama. Esperava encontrar uma mulher consumida pela raiva.

Mas encontrou apenas cansaço.

Encontraram-no? – perguntou Adelina.

Ainda não.

A mãe permaneceu em silêncio. Depois fechou os olhos.

Tenho pena dele.

Sara julgou ter ouvido mal.

Pena?

Sim.

A filha não compreendia.

Como podia sentir pena de quem quase lhe tirara a vida?

Adelina respirou fundo.

Quando uma pessoa acredita que o sofrimento tem um rosto, deixa de procurar a verdade.

Sara ficou sem palavras. Aquelas palavras acompanharam-na durante muitos anos.

Porque eram verdade. O sobrinho não atacara apenas uma mulher. Atacara o medo.

A dor. O desespero.

A necessidade humana de encontrar um culpado quando a vida deixa de fazer sentido.

Meses mais tarde acabaria por ser localizado.

Durante o interrogatório na Polícia, repetiu várias vezes a mesma explicação.

Estava convencido de que a tia era responsável pelas mortes daqueles familiares todos.

E de todos os outros que ainda haveriam de morrer.

Estava convencido de que eliminá-la salvaria a família.

Estava convencido de que fazia justiça.

Mas justiça e vingança raramente caminham juntas.

Em Xinavane, alguns condenaram o rapaz.

Outros continuaram a acreditar nas histórias de feitiçaria.

Porque certas crenças sobrevivem aos factos.

Sobrevivem às provas. Sobrevivem até à própria realidade.

Adelina regressou a casa semanas depois. Caminhava devagar.

As cicatrizes permaneceram. Algumas visíveis. Outras escondidas.

Mas nunca mais voltou a ser a mesma.

Às vezes sentava-se no quintal ao cair da tarde.

Observava o sol desaparecer atrás das árvores.

E ficava ali, em silêncio. Os vizinhos passavam. Cumprimentavam-na.

Alguns ainda a olhavam com desconfiança. Outros com respeito.

Ela não respondia às acusações. Nunca respondeu.

Talvez porque tivesse compreendido algo que poucos entendem.

Que o verdadeiro perigo não estava nos feitiços. Estava no medo.

Porque, quando o medo entra numa família, pode transformar uma tia numa feiticeira.

E um sobrinho num carrasco.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 15 de Junho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.

Gratos pela preferência Para ver a revista Prestígio de Março/Abril de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *