ANDITUR: entre a esperança e o cepticismo — RAFAEL NAMBALE

O turismo moçambicano precisa de mais do que mudanças de siglas. A recente criação da Agência Nacional para o Desenvolvimento e Investimento Turístico (ANDITUR) abriu um novo ciclo de debates no sector do turismo em Moçambique.

Para muitos profissionais da área, a decisão do Governo representa esperança de revitalização de um sector com enorme potencial económico, cultural e estratégico para o país. Para outros, levanta dúvidas legítimas sobre até que ponto estamos perante uma verdadeira reforma estrutural ou apenas mais uma reorganização institucional.

Falo destas questões não apenas como observador, mas também como alguém que trabalhou no sector do turismo, particularmente na área da comunicação institucional e marketing, acompanhando de perto as dinâmicas, limitações, potencialidades e contradições que marcaram o funcionamento do INATUR ao longo dos anos.

E talvez seja exactamente por conhecer parte dessa realidade interna que olho para esta nova fase com expectativa, mas também com prudente cepticismo.

É inegável que o turismo moçambicano precisava de uma nova dinâmica. O país possui condições extraordinárias para afirmar-se como um dos grandes destinos turísticos da região africana. Temos património histórico, diversidade cultural, reservas naturais, ilhas paradisíacas, gastronomia, música, litoral extenso e uma localização geoestratégica privilegiada na África Austral.

O problema nunca esteve na ausência de potencial.

O verdadeiro desafio sempre residiu na capacidade institucional de transformar esse potencial em desenvolvimento económico concreto, sustentável e estruturado.

Ao longo dos anos, o INATUR foi progressivamente perdendo capacidade de intervenção estratégica. A instituição acabou excessivamente absorvida por funções administrativas, limitações orçamentais, influência política e dificuldades operacionais que reduziram significativamente a sua margem de actuação.

Muitas vezes, os orçamentos disponíveis não correspondiam minimamente às actividades planificadas. Em determinados momentos, a instituição parecia mais orientada para responder a agendas políticas conjunturais do que para executar uma estratégia consistente de desenvolvimento turístico de longo prazo.

A isso juntaram-se problemas de continuidade institucional, fragilidade técnica em algumas áreas e perda gradual de capacidade operacional.

Mas seria um erro simplificar o debate e concluir que todos os problemas do turismo moçambicano se resumiam ao INATUR.

Não se trata apenas de mudar nomes, siglas ou estruturas administrativas.

O turismo é um sector profundamente transversal. Depende de estradas, transportes, conectividade aérea, segurança, energia, ambiente urbano, políticas fiscais, estabilidade regulatória, qualificação profissional e visão estratégica integrada.

Nenhuma agência, por mais moderna que seja, conseguirá produzir milagres num ecossistema institucional e económico que continue marcado pelos mesmos bloqueios estruturais.

É precisamente aqui que surge a grande questão: a ANDITUR terá liberdade real para funcionar de forma diferente?

Porque se persistirem: as interferências políticas; o subfinanciamento; a excessiva burocracia; a descontinuidade estratégica; e a ausência de autonomia técnica e financeira, então corre-se o risco de assistir apenas à substituição de uma sigla por outra.

Naturalmente, seria injusto negar a importância da criação da ANDITUR. O discurso oficial aponta para uma instituição mais ágil, orientada para investimento, desenvolvimento económico e valorização do património turístico nacional. Isso é positivo.

Aliás, a própria ideia de transformar o turismo em instrumento de desenvolvimento económico é não apenas correcta, mas necessária para um país que procura diversificar a sua economia e criar novas oportunidades para a juventude.

Contudo, a verdadeira reforma do turismo moçambicano não dependerá apenas do decreto que criou a ANDITUR.

Dependerá, sobretudo: da qualidade da liderança; da autonomia institucional; da capacidade técnica; da estabilidade das políticas públicas; da protecção contra instrumentalização política; e da coragem de transformar o turismo numa prioridade económica real e não apenas discursiva.

O turismo moçambicano não precisa apenas de novas instituições. Precisa de uma nova cultura de governação.

E talvez seja exactamente aí que começa o verdadeiro teste da ANDITUR.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 13 de Julho de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

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