Escondeu o amante dentro do congelador — LEANDRO PAUL
Naquela casa, os segredos tinham aprendido a respirar em silêncio.
Durante o dia, Maria era a nora exemplar.
Acordava antes de todos, varria o quintal, enchia baldes de água no fontanário e preparava o almoço para a sogra e para os cunhados.
Quando o marido, agente da Polícia, era transferido em serviço para as províncias, dizia aos vizinhos que sentia saudades dele e esperava ansiosamente pelo seu regresso.
Ninguém desconfiava de que, todas as noites, ela esperava por outro homem.
Chamava-se Ernesto.
Era deficiente físico desde criança. As pernas recusavam-se a obedecer-lhe, mas os braços ganharam grande força.
Deslocava-se arrastando o corpo, com ajuda de muletas, numa luta diária que transformava cada metro percorrido numa pequena vitória.
Talvez por isso tivesse encontrado em Maria alguém que olhava para ele como homem, e não como um pobre coitado.
Conheceram-se no mercado. Primeiro trocaram sorrisos. Depois palavras.
Mais tarde promessas.
Quando deram por isso, já não conseguiam passar muitos dias sem se encontrarem. O problema era onde.
Ernesto vivia de favor, num canto em casa de familiares. Nem sequer um quarto para si tinha.
Por isso, com o marido muitas vezes longe, Maria aproveitava as noites para receber Ernesto.
Entrava sempre pela janela dos fundos.
Ela colocava um pequeno banco de madeira junto ao muro, ajudava-o a subir e puxava-o para dentro do quarto.
Era um ritual cuidadosamente ensaiado. Mas as paredes têm ouvidos.
A sogra começou a estranhar. Havia ruídos de madrugada.
Passos. Móveis a ranger. Sussurros.
Quando perguntava, Maria sorria.
– São ratos, mamã.
A velha fingia acreditar. Mas, cada noite, os “ratos” pareciam ficar maiores.
Os vizinhos também começaram a comentar.
Diziam que viam um vulto entrar pelo quintal quando já toda a gente dormia.
Maria respondia sempre com a mesma serenidade.
– Devem ter visto um gato a passar.
Até que a filha mais velha da família anunciou uma visita inesperada.
Passaria o fim de semana em casa dos pais. Maria gelou.
O quarto onde costumava receber Ernesto deixaria de ser apenas deles.
Mesmo assim, não cancelou o encontro. O desejo falou mais alto do que a prudência.
Quando ouviu a pancada combinada na janela, abriu-a.
Ernesto entrou, respirando com dificuldade pelo esforço.
Mal tiveram tempo para se abraçar. Lá fora ouviu-se o portão a abrir.
A família regressara muito antes da hora. Maria perdeu a cor do rosto.
– Meu Deus…
As vozes aproximavam-se. A sogra chamava por ela. A cunhada já abria a porta da casa.
Não havia tempo. Olhou desesperadamente à sua volta.
Foi então que viu o velho congelador, sem uso, encostado à parede. Era grande.
Cabia um homem.
– Entra aí!
Ernesto olhou para o congelador.
– Vou sufocar…
– É só por um bocadinho.
Com um esforço enorme, ajudou-o a dobrar o corpo.
As pernas ficaram apertadas contra o peito.
Maria fechou a tampa.
No instante seguinte, a porta do quarto abriu-se.
– Estavas a dormir?
– Sim…
A visita prolongou-se. Conversa atrás de conversa. Um chá. Depois o jantar.
Mais conversa.
Dentro do congelador, Ernesto tentava respirar. O ar tornava-se cada vez mais pesado.
O suor escorria-lhe pelo rosto. Cada minuto parecia uma eternidade.
Lá fora, Maria fazia um esforço sobre-humano para parecer calma.
Sorria quando lhe apetecia chorar.
Respondia às perguntas enquanto o coração lhe batia tão forte que julgava que toda a gente o conseguia ouvir.
De vez em quando, lançava um olhar rápido para o canto do quarto. Onde estava o congelador.
Até que, já perto das duas da madrugada, ouviu-se um ruído. Muito baixo.
Como se alguém raspasse as unhas por dentro daquele desgastado electrodoméstico que, muito tempo antes, congelara moelas e carapau.
A sogra interrompeu a conversa.
– Ouviste?
Maria sorriu.
– São ratos.
Ninguém respondeu. Passados alguns segundos, o som repetiu-se. Desta vez mais forte.
A velha levantou-se.
Caminhou lentamente até ao congelador que agora servia para guardar roupa íntima da nora.
Maria sentiu as pernas tremerem.
– Não abra…
Mas a sogra já segurava a tampa.
Nesse instante, ouviu-se uma pancada seca vinda do interior.
A família inteira ficou imóvel. O silêncio durou apenas um segundo. A tampa abriu-se.
Lá dentro, encolhido como uma criança abandonada, estava Ernesto, o deficiente do bairro que todo o mundo conhecia.
O rosto encharcado em suor. Os olhos arregalados. Respirava com enorme dificuldade.
Por instantes, ninguém conseguiu dizer uma palavra.
Foi a sogra quem quebrou o silêncio.
– Meu Deus…
Maria começou a chorar. Não tentou fugir. Nem inventou desculpas.
Sabia que tudo terminara.
A notícia espalhou-se pelo bairro antes do nascer do sol.
Uns condenavam a traição.
Outros comentavam apenas a crueldade daquele congelador.
Houve quem dissesse que o homem quase morrera asfixiado.
Houve quem culpasse Maria.
Outros apontaram o dedo ao marido, por estar tanto tempo ausente, deixando sozinha uma mulher tão jovem e bonita.
E houve quem tivesse pena do Ernesto.
Porque, no meio de toda aquela vergonha, era impossível não reparar na humilhação que aquele homem carregava.
Não bastava viver preso a um corpo que o limitava todos os dias.
Naquela noite, escondera-se dentro de um congelador, à espera que o amor encontrasse uma saída.
Mas o amor, às vezes, escolhe esconderijos demasiado pequenos.
Dias depois, o marido regressou a casa.
Não gritou. Não bateu em ninguém.
Sentou-se no quintal durante muito tempo, em silêncio.
Quando finalmente entrou em casa, encontrou Maria de cabeça baixa.
Ela pediu perdão. Disse que tinha destruído a própria vida.
Ele ouviu tudo sem interromper. Mas permaneceu em silêncio.
Na semana seguinte, Maria abandonou aquela casa.
Ernesto nunca mais voltou a passar por aquela rua.
Mas durante muito tempo, sempre que alguém via o velho congelador abandonado no quintal, lembrava-se da história.
E comentava, em voz baixa, que naquela casa os ratos nunca fizeram barulho.
Quem fazia barulho era a culpa, quando já não cabia escondida dentro de um congelador desusado.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 13 de Julho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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