Pequenos grandes prazeres — STÉLVIO MARTINS

Já tinha ouvido dizer que há coisas que só se tornam valiosas quando se fazem ausentes, e que tais coisas nem precisam de ser grandes, contudo fazem parte do nosso ser, de maneira que, a partir delas é possível explicar um pouco de quem somos.

Henry Thoreau já vinha dizendo: “A nossa vida é desperdiçada pelos detalhes… Simplifique, simplifique, simplifique!

Eram seis da manhã quando fomos convocados para o habitual ritual de contagem e de limpeza. Garrafas preenchidas de urina noturna foram retiradas do aposento, encostados à parede, estávamos nós, homens inocentes, que foram parar a àquele lugar por infortúnio e armadilhas do destino.

Invariavelmente éramos encarados por agentes armados, que olhavam para nós com desconfiança, não cuspiam por questões de decorro, mas estava claro que vontade não lhes faltava.

Falavam connosco como quem presenciou um acto macabro da nossa autoria.

Tirem daí os “dodomas” [alusão a uma marca de colchão muito comercializado em Moçambique], peguem na vassoura!

Rasta! Esta é a tua nova casa.

Hei, punheteiro, não demores aí dentro!

Esse é ladrão! Diziam, enquanto apontavam para o homem da pá.

O quarto, ou seria terceiro dia? Era um dia diferente para mim, no dia anterior tinha recebido uma visita difícil, da minha mãe e com ela, havia trazido um objecto precioso e que há muito ansiava por ver. Tinha roupas para trocar, de facto, os dias passavam e eu ia me fazendo mais em casa.

Morria de ansiedade para que chegasse a minha vez, trocava de olhares com uma das agentes que tinha a arma apontada para o nosso lado, eu sorria, disfarçadamente, naquele dia nada me abalava o espírito.

Depois de muitas varreduras e urina despejada na sanita, chegou a minha vez de ir ao banho, finalmente!

Tirei das calças, o objecto, peguei na roupa limpa e pendurei-a sobre a porta, despi-me e dei o mesmo destino à roupa suja. Abri a torneira e deixei jorrar a água no balde, peguei nos bocados de sabão que pululavam por ali, juntei-os formando uma bola e pousei sobre o lavatório enquanto esperava que o recipiente se enchesse, não havia espelho, mas eu via reflexo, de facto. Naquela manhã eu era um homem feliz.

Agachei-me, fiz concha com as mãos e joguei sobre o corpo a água fria, um banho fresco sempre sabia bem. O banho matinal era dos melhores momentos que se podia viver naquele lugar. Usei o sabão para me lavar e quando tive a certeza de que estava o mais limpo o quanto conseguiria naquelas condições, levantei-me e agarrei no objecto. Humedeci-o, lubrifiquei-o e levei-o para dentro da boca, fiz girar por todos os cantos, passei na língua e céu, fechei os olhos e chupei um pouco, senti o seu gosto melado, macio e cremoso, cuspi uma vez, e voltei a mete-lo na boca, repeti o exercício, e quando estava quase a acabar, uma voz gritou lá de fora:

Hei, Rasta! Não estás na tua casa!

Interrompi o momento, e fiz o acabamento. Vesti a roupa limpa, que tinha sabor de roupa nova, depois de três dias a vestir a mesma roupa, sabia bem, enfiei os pés nas sapatilhas, lavei o objecto e o devolvi ao bolso, agarrei na roupa suja e me pus para fora do aposento.

Encostado à parede, para mais uma contagem, não pude deixar de pensar no quanto era bom poder voltar a escovar os dentes!

©STÉLVIO MARTINS *

* Um humilde silencista

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 24 de Julho de 2026, na rubrica OPINIÃO.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *