A casa de oração e o covil moderno: A distorção do propósito da Igreja — JOÃO RIBEIRO
Recentemente, num culto dominical, escutei uma pregação focada num tema tão desconfortável quanto actual: “A tendência do homem de transformar tudo”. O propósito daquela mensagem era claro; convocar os ouvintes a uma postura contrastante com a do mundo contemporâneo, que insiste em chamar ao mal bem e ao bem mal. Infelizmente, essa distorção não se limita à sociedade secular; ela infiltrou-se, de forma subtil e profunda, no próprio espaço onde menos se esperava: a Igreja.
A célebre passagem bíblica sobre a purificação do Templo por Jesus Cristo (Mateus 21:12-14) expõe com precisão cirúrgica uma crise que permanece viva. Ao entrar no Templo, Jesus deparou-se com uma cena que reflecte grande parte da prática religiosa actual: pessoas a comprar e a vender num local reservado exclusivamente à oração, ao ensino e à comunhão com Deus. Conhecendo a verdadeira essência da casa do Seu Pai, Cristo não se remeteu ao silêncio nem normalizou o desvio. Expulsou os que haviam corrompido o propósito sagrado e lembrou-lhes o imperativo profético: “A minha casa será chamada Casa de Oração”.
Ao meditar nesta passagem, é impossível não confrontar a realidade hodierna com uma inquietação legítima: estarão as igrejas de hoje a funcionar verdadeiramente como casas de oração, louvor genuíno e edificação do corpo de Cristo? Ou converteram-se em balcões de comércio espiritual? Com frequência, assiste-se à transação de bênçãos, à mercantilização de sacramentos, ao culto da personalidade e à redução da fé a estratégias de entretenimento e socialização; mais preocupadas em encher auditórios em dias de festa do que em transformar corações.
É doloroso constatar que mesmo comunidades que nasceram com a intenção nobre de pregar o Evangelho da salvação acabaram por ceder a agendas alheias às Escrituras. Mais grave ainda é ver novas igrejas a surgir; que poderiam, pela graça divina, resgatar a simplicidade e a pureza perdidas ao longo da história: a replicar os mesmos modelos utilitaristas e focados no lucro ou no prestígio humano.
Perante este cenário, o cristão contemporâneo não pode remeter-se à passividade. Temos o dever moral e espiritual de não aceitar a normalização do sagrado como produto. Agir como Cristo agiu não significa adotar uma atitude de revolta destrutiva, mas sim demonstrar um zelo intransigente pela verdade.
Cabe-nos resgatar a essência do Evangelho, rejeitar a lógica do lucro espiritual e restaurar o altar da adoração sincera. Afinal, a Igreja só cumpre a sua missão quando deixa de ser um negócio de homens e volta a ser, sem reservas, a Casa de Oração para todos os povos.
©JOÃO RIBEIRO *
* Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 02 de Setembro de 2026.
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