Os “princesos” — JOÃO RIBEIRO

Por vezes luto contra a vontade de escrever sobre certos temas que marcam a actualidade. Não porque sejam irrelevantes, mas precisamente porque tocam feridas abertas. Ainda assim, chega um momento em que percebo que esse esforço é vão e que o silêncio pode significar recusar-me a contribuir para a reflexão de muitos que carecem de clareza sobre determinadas matérias.

Não me considero dono da verdade, mas dou graças a Deus por não viver refém da ignorância. E, para evitar o erro de expor ideias mal fundamentadas, recorro frequentemente ao diálogo com amigos, escuto perspectivas diferentes e procuro informar-me melhor. Foi esse o cuidado que tive antes de escrever sobre este tema: recolhi matéria suficiente e deixei-a passar pelo meu “laboratório psíquico”, para que o que aqui apresento seja, pelo menos, uma abordagem coerente e ponderada.

Importa começar por compreender quem são aqueles a quem se chama “princesos”. A minha constatação é que, em certos contextos sociais e relacionais, este termo é utilizado por algumas mulheres para designar homens que não correspondem a expectativas idealizadas de força, domínio emocional e desempenho constante. Expectativas essas que, muitas vezes, ultrapassam os limites do razoável e do humano.

Em vários casos, estas mulheres adoptam posturas marcadas por excessiva autoafirmação, dificuldade em reconhecer fragilidades próprias e uma forte exigência em relação ao outro. Esperam que o homem com quem se relacionam seja capaz de suprir não apenas as necessidades do vínculo, mas também frustrações acumuladas, inseguranças passadas e carências emocionais profundas.

É fundamental reconhecer que tais atitudes nem sempre nascem de malícia. Muitas vezes resultam de experiências anteriores dolorosas, de modelos relacionais disfuncionais e de uma cultura que ensinou, de forma distorcida, que amar é competir, controlar ou testar constantemente o outro.

Ainda assim, há uma verdade que não pode ser ignorada: o homem é um ser humano com limitações. Sente cansaço, dor, medo e fragilidade. É sensível na sua humanidade. Exigir que esteja sempre emocionalmente inabalável, disponível, resoluto e forte é negar-lhe essa mesma humanidade.

Grande parte deste problema nasce de uma crença cultural errónea acerca dos papéis atribuídos ao homem: a ideia de que deve ser sempre o mais forte, o solucionador de todos os problemas, aquele que não falha, não chora e não sente como a mulher sente. Esta visão não apenas oprime o homem, como também compromete a autenticidade das relações.

Não nego que existam homens que precisam de se esforçar mais para assumir com responsabilidade a sua masculinidade. Muitos refugiam-se numa postura passiva, confundindo maturidade emocional com ausência de iniciativa, o que acaba por reforçar estereótipos e gerar frustrações legítimas. Contudo, é igualmente verdade que há mulheres que, no esforço de se afirmarem, acabaram por se afastar da sua própria feminilidade, passando a exigir dos homens o impossível dentro da sua condição normal.

Quando falo de uma postura “masculinizada”, não me refiro à perda de identidade feminina, mas à adopção de padrões de dureza emocional constante, competição relacional e negação da vulnerabilidade características que, levadas ao extremo, inviabilizam a construção de vínculos saudáveis.

Vivemos tempos de clara inversão de papéis, e o erro reside em ambas as partes. A única saída plausível é que cada um reconheça o seu lugar enquanto ser humano não como estereótipo e se empenhe em ocupar esse lugar com equilíbrio, responsabilidade e maturidade emocional.

No campo sentimental, por exemplo, muitos dos chamados “princesos” são, na verdade, homens que compreendem que um relacionamento saudável não é um jogo de gato e rato, onde alguém precisa perseguir o outro para provar valor, interesse ou masculinidade. Relações construídas sobre testes constantes e jogos de poder tendem a gerar desgaste, não intimidade.

Talvez, em alguns casos, fosse mais honesto questionar não a suposta fraqueza desses homens, mas a imaturidade relacional que transforma o amor num campo de prova. Afinal, não se constrói um vínculo saudável exigindo performances, mas cultivando presença, verdade emocional e reciprocidade.

No fim, relações saudáveis não se edificam sobre rótulos, jogos ou provas de força, mas sobre respeito mútuo, responsabilidade afectiva e reconhecimento da humanidade do outro.

Fica então a reflexão: estamos realmente a lidar com “princesos” ou com uma dificuldade colectiva de compreender o que é maturidade emocional e equilíbrio nas relações?

©JOÃO RIBEIRO *

*   Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias

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