Atirou-se do 11° andar 24 horas depois do ano novo — LEANDRO PAUL
(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997-2007; imagem ilustrativa)
Durante quatro anos, o médico russo Ivan U. ajudou a salvar vidas em Moçambique. Trabalhava, na altura, no Hospital Central de Maputo e passara também pela província do Niassa.
Os colegas conheciam-no como um homem aplicado, daqueles que entram numa sala de operações e parecem deixar do lado de fora todos os problemas do mundo.
Mas havia uma vida que Ivan não conseguiu salvar.
A sua. Aos 46 anos de idade.
Na tarde daquele dia, pouco mais de vinte e quatro horas depois das celebrações do ano novo, o médico subiu até ao 11.º andar do prédio onde vivia, na avenida 24 de Julho, em Maputo.
Dali, a cidade parecia outra. Os carros lá em baixo pareciam brinquedos. As pessoas eram pontos em movimento. O barulho da avenida chegava enfraquecido pela altura.
Ninguém sabe quanto tempo ali ficou. Nem o que pensou.
Sabe-se apenas que, por volta das 14 horas, estava sozinho em casa. A mulher e os dois filhos estavam ausentes.
Pouco depois, o médico caiu das traseiras do edifício.
Quando algumas pessoas correram para o local, já não havia nada a fazer.
O homem que tantas vezes estivera do outro lado da morte, tentando afastá-la dos seus pacientes, encontrara-a naquele princípio de ano.
Nada fazia prever.
No Hospital Central de Maputo, a notícia chegou como chegam as notícias que ninguém quer acreditar. Primeiro em murmúrios. Depois em perguntas. Finalmente em silêncio.

Durante algum tempo, alguns colegas recusaram-se a aceitar. Ainda poucos dias antes o tinham visto nos corredores.
Vestira a bata. Falara com enfermeiros. Atendera doentes. Entrara e saíra das salas como fazia habitualmente.
Uma enfermeira que trabalhava com ele havia mais de seis meses recordava-se bem do último dia. Não tinha notado nenhuma discussão. Nenhum conflito. Nenhuma despedida estranha.
– Ele não mostrou problemas connosco. Nem consigo próprio. Nem com outra pessoa aqui no serviço – confessou a enfermeira.
Era isso que mais perturbava.
Às vezes imaginamos que o sofrimento faz barulho. Que uma pessoa desesperada há-de, necessariamente, chorar, gritar, pedir ajuda ou anunciar que já não consegue continuar.
Nem sempre. Há dores que aprendem a trabalhar em silêncio. Vestem-se de manhã. Cumprimentam os colegas. Fazem o seu trabalho. E regressam para casa sem que ninguém perceba o peso que levam consigo.
Na véspera do dia fatal, Ivan saíra do hospital e regressara ao prédio onde morava.
Na portaria, foi visto a entrar. O guarda recordaria depois aquele momento. Nada lhe parecera extraordinário.
Ivan estaria um pouco alterado, talvez por ter bebido, coisa que, segundo quem o conhecia, acontecia algumas vezes. Mas caminhava normalmente. Reconheceu o porteiro. Cumprimentou-o. Depois seguiu para as escadas.
– Não falou comigo. Só cumprimentou e subiu, disse o porteiro.
Foi a última vez que o porteiro o viu vivo.
No dia seguinte, quando soube da morte, tentou reconstruir mentalmente aquele encontro.
O modo como Ivan caminhava. O olhar. A voz. O cumprimento. Procurava algum sinal que pudesse ter ignorado. Não encontrou. E talvez isso o tenha perturbado ainda mais.
Porque há acontecimentos que, depois de acontecerem, obrigam todos a regressar ao passado à procura de sinais. Uma palavra diferente. Uma hesitação. Um olhar mais demorado. Qualquer coisa. Mas, muitas vezes, não havia nada para ver. Ou havia e ninguém sabia como interpretar.
Alguns moradores do prédio tinham reparado que, nos últimos dias, o médico parecia diferente. Andava mais calado. Por vezes, cabisbaixo. Parecia carregar alguma preocupação que não partilhava.
Ninguém sabia exactamente o que se passava. Uns pensavam em problemas familiares. Outros falavam de trabalho.
Havia quem reparasse que, algumas vezes, aparecia embriagado. Mas ninguém conseguia ligar aqueles pequenos sinais ao que viria a acontecer.
Afinal, quantas pessoas atravessam dias maus? Quantos homens chegam a casa calados? Quantas pessoas bebem para esquecer um problema e, no dia seguinte, voltam normalmente ao trabalho?
Ninguém imaginava que Ivan estivesse tão perto do limite. Não era a primeira vez
Depois da morte surgiu uma informação que tornou tudo ainda mais doloroso.
Ivan já tinha tentado pôr fim à própria vida. Aconteceu quando trabalhava no Niassa.
As razões nunca ficaram completamente esclarecidas. Naquela ocasião, porém, alguém chegou a tempo. Houve intervenção. Ivan sobreviveu.
Depois disso, a vida continuou. Voltou ao trabalho. Voltou aos hospitais. Voltou aos doentes.
Talvez todos tenham pensado que o pior já tinha passado. Ele próprio talvez tenha pensado assim.
Mas certas dores não desaparecem apenas porque deixamos de falar delas. Às vezes recuam. Ficam escondidas. Esperam.
Imaginar Ivan naquela última manhã é entrar num território que ninguém conhece.
Não sabemos se tomou o pequeno-almoço. Não sabemos se olhou demoradamente para os retratos da mulher e dos filhos. Não sabemos se pensou em telefonar a alguém. Não sabemos se chorou. Nem sequer sabemos se a decisão que tomou naquela tarde já vinha preparada ou nasceu num instante de desespero.
A reportagem deixou essas perguntas sem resposta. Talvez devam permanecer assim.
Porque tentar inventar razões seria injusto para um homem que já não podia explicá-las. O que sabemos é que, naquele princípio de Janeiro, ficou sozinho em casa.
E que, pouco depois das 14 horas, tudo terminou.
Nas traseiras do edifício, algumas pessoas aproximaram-se. Alguém chamou ajuda. Outros ficaram simplesmente parados.
Era difícil conciliar aquele corpo com a imagem do médico que, durante anos, tinha usado as mãos para impedir exactamente aquilo. A morte.
No hospital, ficou um lugar vazio. Um médico a menos. Um colega a menos.
Para a mulher, ficou um marido ausente. Para duas crianças, ficou um pai que não regressaria.
E para aqueles que trabalharam com Ivan ficou uma pergunta particularmente difícil:
– Como pode alguém passar tantas horas rodeado de pessoas e, ainda assim, sofrer sozinho?
Ninguém se apercebeu que, por trás da bata branca, havia também um homem que precisava de ajuda.
Não apenas o cirurgião. Não apenas o cidadão estrangeiro. Não apenas o colega.
Um homem. Com medos. Com dores. Com uma família. E com qualquer coisa dentro de si que se tornara pesada demais.
Pouco mais de vinte e quatro horas antes, Maputo celebrara a chegada de um novo ano. Havia música. Abraços. Promessas. Gente desejando vida longa uns aos outros.
Para Ivan, porém, o ano novo durou apenas meio dia. E talvez seja essa a parte mais triste da sua história.
Um médico pode saber reconhecer uma ferida. Pode saber estancar uma hemorragia. Pode saber abrir um corpo e tentar reparar aquilo que está destruído por dentro.
Mas existem feridas que não aparecem nas radiografias. Não sangram. Não deixam cicatriz visível.
E, muitas vezes, são precisamente essas que mais precisam que alguém repare nelas antes que seja tarde demais.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 14 de Setembro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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