Maqueia: ritual tradicional divide fé e prática religiosa em Nampula
Na província de Nampula, o ritual tradicional conhecido como Maqueia continua a suscitar debate entre a preservação cultural e os princípios da fé islâmica, predominante na região. Para o académico, jurista e docente universitário Abu Mário (na foto de destaque), também analista político e religioso da comunidade islâmica local, a prática é incompatível com os fundamentos do Islão.
Em entrevista ao jornal Redactor, Abu Mário afirmou que, do ponto de vista da doutrina islâmica, qualquer acto de adoração, súplica ou bênção deve ser dirigido exclusivamente a Allah. Rituais que envolvam oferendas, invocações ou pedidos dirigidos a palhotas, antepassados ou outras entidades são, segundo explicou, contrários à Sharia, o conjunto de normas que orienta a vida dos muçulmanos.
De acordo com o académico, a fé islâmica assenta no princípio da unicidade de Deus (Tawhid), pelo que a atribuição de poderes sobrenaturais a pessoas, objectos ou espíritos constitui uma violação dos seus fundamentos.
“A prática da Maqueia não é admissível na religião islâmica. Tudo aquilo que implica invocar outra entidade além de Deus, ou dirigir pedidos a falecidos, contraria a Sharia, que corresponde às normas estabelecidas por Allah. Não posso defender uma prática diferente daquela que Deus preconiza, tendo em conta a gravidade desse tipo de pecado”, afirmou.
Para Abu Mário, bênçãos, protecção, saúde e prosperidade devem ser solicitadas exclusivamente a Allah, sem qualquer tipo de intermediação.
O jurista considera que muitos dos rituais praticados em diversas comunidades resultam da preservação de costumes ancestrais, transmitidos ao longo de gerações. No entanto, ressalva que a antiguidade de uma tradição não constitui, por si só, critério de legitimidade religiosa.
Na sua análise, a continuidade dessas práticas deve-se, em grande medida, à força da tradição e à influência cultural, levando alguns crentes a reproduzi-las sem um conhecimento aprofundado dos princípios da fé que professam.
“Esta prática não é adequada para quem é muçulmano e acredita na unicidade de Deus. É obrigação de cada fiel compreender que existe um único Deus. Embora em África seja uma prática tradicional, não pode sobrepor-se aos mandamentos divinos”, referiu.
Abu Mário sublinha que o Islão estabelece uma distinção clara entre a valorização da identidade cultural e a observância dos preceitos religiosos. A cultura, defende, pode e deve ser preservada, desde que não entre em contradição com os fundamentos da fé.
O docente observa ainda que muitos conflitos entre religião e tradição emergem quando determinadas práticas culturais assumem um carácter espiritual, levando as pessoas a procurar protecção, bênçãos ou soluções para os seus problemas através de meios que, na perspectiva islâmica, não possuem legitimidade.

Para o académico, a educação religiosa desempenha um papel determinante na orientação das comunidades, sobretudo entre os jovens, permitindo-lhes distinguir entre práticas culturais e actos de adoração que devem ser reservados exclusivamente a Deus.
Questionado sobre a eventual abertura do Islão para acomodar este tipo de rituais, Abu Mário foi categórico ao rejeitar qualquer margem de flexibilização quando estão em causa os princípios da fé.
“Se alguém pratica estes actos, fá-lo por vontade própria ou convicção pessoal. No entanto, os princípios islâmicos não permitem esse tipo de prática. Ao fazê-lo, está-se a contrariar os ensinamentos de Deus. As questões culturais não devem sobrepor-se às ordens divinas. Nenhuma cultura está acima de Deus”, sublinhou.
O académico apela aos crentes para aprofundarem o conhecimento da religião que professam e orientarem a sua vida de acordo com os ensinamentos de Allah, defendendo que a verdadeira devoção se expressa através da oração, da obediência aos mandamentos divinos e da rejeição de práticas que, na perspectiva islâmica, comprometem o princípio da unicidade de Deus.
A Maqueia é um ritual tradicional praticado em algumas comunidades macuas, geralmente realizado numa palhota ou junto de uma árvore. A cerimónia envolve, em muitos casos, o uso de farinha branca, oferendas alimentares e peditórios, sendo considerada por alguns como uma manifestação de forte carga simbólica e cultural.
©ELINA ECIATE (texto e fotos)
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 06 de Agosto de 2026.
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