A cultura do medo — RAFAEL NAMBALE

    –  Quando pensar diferente começa a ser perigoso

Há momentos em que um país precisa de parar.

Não para escolher lados. Não para repetir discursos partidários. Não para transformar uma tragédia em arma política. Precisa de parar para se olhar ao espelho e perguntar: em que país estamos a transformar-nos?

A pergunta volta a impor-se depois do rapto e morte de Ilídio Facitela Gustavo, mobilizador distrital do ANAMOLA em Morrumbene, Inhambane. Segundo Venâncio Mondlane, Gustavo seria também uma das testemunhas no processo que se aproxima no Tribunal Supremo. O ANAMOLA exige uma investigação independente.

Não sabemos quem o matou. Não sabemos porquê. E é precisamente por isso que precisamos de saber.

Porque, quando uma vida é brutalmente interrompida, a primeira obrigação do Estado não é explicar ao cidadão o que deve pensar sobre o crime.

É descobrir quem matou.

Há meses que o país ouve denúncias de mortes, agressões, raptos e perseguições contra membros e apoiantes do ANAMOLA. O partido fala em dezenas de mortos e centenas de episódios de violência. São números e acusações que precisam de investigação e confirmação independente.

Mas mesmo retirando da equação tudo aquilo que ainda não foi judicialmente comprovado, permanece uma pergunta incontornável: quantas mortes são necessárias para que deixemos de falar de casos isolados e comecemos a discutir o ambiente político que estamos a criar?

Porque já não basta dizer: “vamos investigar”.

O Governo já condenou assassinatos de membros do ANAMOLA e apelou à investigação e responsabilização dos autores.

Muito bem.

Então investigue-se.

E depois diga-se ao país o que foi descoberto.

Quem matou? Quem mandou? Qual foi a motivação? Que processos foram instaurados? Quem foi responsabilizado?

Porque uma investigação sem resultados conhecidos transforma-se numa promessa. E uma promessa repetida depois de cada morte começa a produzir um efeito perverso: a normalização da impunidade.

É aqui que nasce o medo.

O medo não chega sempre acompanhado de sirenes. Às vezes entra silenciosamente numa casa, senta-se à mesa e acompanha uma conversa.

É o funcionário que evita falar. O jovem que hesita em participar. O cidadão que esconde a sua preferência política. A família que aconselha: “não te metas nisso.

Quando uma sociedade começa a educar os seus cidadãos para o silêncio, alguma coisa muito séria está a acontecer.

Chamemos-lhe pelo nome: cultura do medo.

E a cultura do medo é inimiga da democracia.

Democracia não é apenas colocar uma cruz num boletim de voto. É poder discordar, organizar-se, criticar, pertencer a um partido, deixar de pertencer, defender uma ideia que o outro considera absurda.

É poder perder uma eleição sem perder o direito de existir.

O adversário político não pode transformar-se em inimigo. Muito menos num inimigo cuja vida possa ser posta em causa.

O Estado não precisa de gostar do ANAMOLA. Não precisa de concordar com Venâncio Mondlane. Não precisa sequer de aceitar a narrativa política da oposição.

Mas precisa de garantir uma coisa elementar: a vida de um cidadão não pode valer menos porque ele escolheu um partido diferente.

É aqui que a questão deixa de ser partidária. É aqui que começa a ser nacional.

Porque hoje o alvo pode ser o militante de um partido. Amanhã pode ser o jornalista. Depois o activista. Depois o funcionário que falou. Depois o cidadão que publicou.

E, finalmente, qualquer pessoa que tenha cometido o “crime” de pensar diferente.

As sociedades não perdem a liberdade necessariamente de uma vez. Perdem-na pedaço a pedaço, medo a medo, silêncio a silêncio.

E há uma consequência ainda mais perigosa.

Quando o cidadão deixa de acreditar que a justiça consegue resolver as diferenças, começa a procurar outras formas de justiça.

Primeiro vem o silêncio. Depois a revolta. Depois a radicalização.

E, finalmente, pode surgir a vingança.

É por isso que falar de guerra civil não deve servir para alimentar o pânico. Mas seria igualmente irresponsável ignorar os sinais que, se não forem travados, podem criar condições para uma violência cada vez mais profunda.

Uma guerra civil não começa necessariamente quando duas forças armadas se encontram.

Pode começar muito antes, quando uma sociedade perde a confiança na possibilidade de resolver as suas diferenças pela política, pelo diálogo e pela justiça.

É por isso que cada morte não esclarecida é mais do que uma tragédia familiar.

É uma ferida na confiança nacional.

Moçambique já conheceu demasiado sofrimento para voltar a brincar com os fantasmas da violência política.

Não precisamos de mais mortos para perceber o perigo.

Precisamos de investigação. De respostas. De justiça. De instituições que não criem cidadãos de primeira e de segunda categoria perante a lei.

Porque quando o Estado não esclarece, o vazio é preenchido pela suspeita. Quando a suspeita permanece, cresce a desconfiança. E quando a desconfiança se torna colectiva, a paz começa a ficar frágil.

Por isso, perante cada assassinato, a pergunta não pode ser apenas: “Quem foi morto?”

Precisamos de perguntar: “Quem matou?”

E depois: “Por que razão ainda não sabemos?”

Moçambique não pode transformar o silêncio em política pública. Não pode transformar a impunidade em rotina. Não pode ensinar os seus filhos que a melhor maneira de sobreviver é não pensar, não falar e não discordar.

Pensar diferente não é crime. Pertencer a um partido diferente não é crime.

Discordar do poder não é crime. Ser oposição não é crime.

E nenhum cidadão deveria precisar de coragem extraordinária para exercer direitos que a própria Constituição lhe garante.

Podemos discordar. Podemos votar em partidos diferentes. Podemos defender projectos diferentes para o país. Podemos até estar profundamente errados uns sobre os outros.

Mas há uma linha que nenhuma disputa política pode atravessar: a diferença política nunca pode valer uma vida.

Porque um país não perde a paz apenas quando começam os tiros.

Às vezes começa a perdê-la antes — quando o cidadão olha para o vizinho e já não vê um compatriota, mas um inimigo; quando deixa de falar porque tem medo; quando a justiça deixa de ser esperança e passa a ser apenas uma palavra nos discursos.

E talvez seja esse o momento mais perigoso de todos: quando o medo deixa de ser aquilo que sentimos e passa a ser aquilo que nos ensinam a aceitar.

Um país assim ainda pode ter eleições.

Pode ter partidos.

Pode ter discursos.

Pode ter bandeiras.

Mas, se os seus cidadãos já não se sentem livres para pensar, falar e existir politicamente, o que resta da democracia?

Esta é a pergunta que Moçambique precisa de responder enquanto ainda estamos a tempo.

©RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 16 de Setembro de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Correio da manhã favor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Setembro/Outubro de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *