Até quando as comunidades hospedeiras serão estrangeiras na sua própria terra? — ELINA ECIATE
No distrito de Moma operam duas grandes empresas da indústria extractiva — a Haiyu Mining Mozambique e a Kenmare — cuja presença tem sido, ao longo dos anos, associada a promessas de desenvolvimento económico e melhoria das condições de vida das comunidades locais.
No entanto, a realidade vivida pelas populações contrasta de forma evidente com o discurso institucional, revelando um cenário marcado por expectativas frustradas, desafios persistentes e uma crescente sensação de exclusão daqueles que deveriam ser os principais beneficiários destes investimentos.
Num passado recente, no âmbito da minha participação no projecto “Empoderamento de Mulheres e Jovens nas Zonas da Indústria Extractiva”, integrei diversas consultas comunitárias. Nessas ocasiões, tornou-se claro que os mesmos problemas continuam a ser reiteradamente apresentados pelas populações, sobretudo no que diz respeito à responsabilidade social das empresas. Repete-se um ciclo de promessas não cumpridas e respostas adiadas, que fragiliza a confiança entre as partes e compromete a credibilidade dos processos de desenvolvimento.
É paradoxal que, enquanto as empresas solicitam novas propostas de desenvolvimento às comunidades, estas insistam, com razão, na resolução de compromissos antigos ainda por cumprir. Como falar de novos projectos quando os problemas do passado permanecem sem solução?
Outro ponto que suscita profunda inquietação está relacionado com a compensação económica às comunidades afectadas pela actividade mineira. Este tema tornou-se um verdadeiro calcanhar de Aquiles, envolto em incertezas e falta de transparência, alimentando dúvidas legítimas sobre os critérios adoptados, os valores atribuídos e o impacto real destas compensações na melhoria das condições de vida. A compensação não pode continuar a ser um assunto indefinido; exige respostas claras, justas e transparentes, proporcionais ao impacto da exploração dos recursos nas vidas das populações.
A empregabilidade local surge igualmente como uma das questões mais críticas. As oportunidades para os residentes das comunidades hospedeiras continuam limitadas, enquanto trabalhadores provenientes de outras regiões são frequentemente privilegiados, sob o argumento recorrente da falta de experiência local. Trata-se de uma justificativa frágil, facilmente contrariada por experiências concretas de capacitação. Se há capacidade para formar trabalhadores, por que persiste a narrativa de que os residentes locais não estão preparados?
A minha própria experiência reforça esta evidência. Em 2018, trabalhei em Topuito, numa empresa subcontratada pela Kenmare — a Rehab — responsável pelo reflorestamento das áreas exploradas. Todos os trabalhadores receberam formação adequada antes do início das actividades, demonstrando claramente que existe potencial local sempre que há vontade de investir na formação e inclusão. A exclusão, portanto, não pode ser justificada por argumentos que a realidade já desmente.
Importa ainda questionar o destino dos 2,75% das receitas da exploração mineira destinados às comunidades locais. Persistem dúvidas sobre a gestão, aplicação e impacto destes recursos, sendo ainda pouco visíveis projectos estruturantes capazes de transformar, de forma concreta, a vida das populações de Moma. Onde estão os resultados destes fundos? Que mudanças tangíveis produziram nas comunidades? São perguntas que não podem continuar sem resposta.
Acrescem preocupações relacionadas com o acesso ao território, sobretudo nas zonas de dunas primárias e secundárias, reconhecidas pela sua sensibilidade ambiental. Apesar da existência de estudos de impacto ambiental e planos de gestão, persistem relatos de exploração contínua e de restrições impostas às comunidades, incluindo a instalação de cancelas que limitam actividades tradicionais de subsistência. Cria-se, assim, uma preocupante sensação de perda de controlo sobre espaços historicamente pertencentes às populações.
Não se pode aceitar que comunidades que sempre viveram nestes territórios sejam impedidas de aceder aos seus próprios recursos, enquanto a exploração prossegue. O desenvolvimento não pode significar exclusão.
Perante este cenário, impõe-se uma reflexão urgente: até quando as comunidades hospedeiras continuarão a sentir-se estrangeiras na sua própria terra?
O desenvolvimento económico só faz sentido quando alinhado com a justiça social, o respeito pelos direitos das comunidades e a protecção do ambiente. Caso contrário, arrisca-se a perpetuar desigualdades e a alimentar tensões sociais. A exploração mineira deve ser encarada como uma oportunidade real de desenvolvimento inclusivo, capaz de gerar benefícios tangíveis para as populações locais, garantindo que estas sejam efectivamente ouvidas, respeitadas e integradas nos processos de decisão.
Este posicionamento pretende chamar a atenção das autoridades, das empresas e da sociedade para a necessidade urgente de um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, transparente e responsável — um modelo que coloque as comunidades no centro das decisões e assegure que a riqueza extraída da terra contribua, de forma efectiva, para o bem-estar de quem nela vive.
©ELINA ECIATE *
* Jornalista e activista social, natural do distrito de Moma, Nampula
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 06 de Agosto de 2026.
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