Para ler com depressão – STÉLVIO MARTINS
E eu que só queria ser do mundo, queria ser igual às flores que nascem para ser felizes e bonitas. Queria conhecer a alma do mundo como conhecem as árvores. Queria ser forte como a água que tudo contorna. Queria tanta paz como o vento que conhece todos os lugares e que já viu todos os sorrisos do mundo.
Só queria pertencer. Queria compreender como compreende a poesia que desenha todos os mundos que me são incompreendidos.
Cada vez mais velho, vou me vendo mais pequeno em meio a tão imenso mundo. É tanta coisa para pouca cabeça, se eu soubesse que isto e que era crescer não o teria desejado tanto, não teria abandonado os braços da minha mãe tão prematuramente, não teria fugido de tal proteção daquele mundo infinito que me parecia tão pequeno, não percebia o quanto era feliz…
Hoje, vivo para as coisas da carne e não encontro o lugar onde respira a alma, vivo amaldiçoado pelo meu desejo de ter infinitas coisas, uma mania de perseguição de quereres e de ser perseguido por desejos que jamais serão satisfeitos.
Já não encontro sentido no dormir que não me dá descanso, nem no acordar que há muito deixou de ser viver, o amanhecer deixa de ser um dia novo quando a carne anseia pelo ontem feliz…
Quando já não se encontra a beleza num raio de sol, começa a não ter sentido o viver…
* Um humilde silencista
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 07 de Agosto de 2026, na rubrica OPINIÃO.
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