Sector privado vive um dos melhores momentos

O indicador Purchasing Managers’ Index (PMI) de Moçambique registou em Julho uma subida para 51,4 pontos, o nível mais elevado dos últimos três anos, sinalizando uma melhoria das condições de negócio no sector privado, segundo dados do Standard Bank compilados pela S&P Global.

Após ter permanecido em território de contração nos meses de Abril e Maio, e em linha neutra em Junho, o índice, consultado pelo jornal Redactor, volta agora a apontar para expansão da actividade económica.

A evolução do PMI, que resulta de um inquérito a cerca de 400 empresas de diversos sectores — incluindo agricultura, indústria, construção, comércio e serviços —, reflecte, sobretudo, o dinamismo das novas encomendas e o aumento da produção.

Em particular, as novas encomendas cresceram ao ritmo mais acelerado dos últimos oito meses, sugerindo uma recuperação gradual da procura interna e, potencialmente, externa.

Este desempenho é acompanhado por um reforço significativo da confiança empresarial, com o subíndice de expectativas a atingir máximos de vários anos.

A maioria das empresas inquiridas antecipa um crescimento da actividade nos próximos 12 meses, numa perspectiva que poderá estar associada ao avanço de grandes projectos estruturantes, nomeadamente no sector do gás natural liquefeito (GNL).

Ainda assim, os dados revelam fragilidades estruturais que continuam a limitar a robustez da recuperação. O subíndice do emprego caiu para valores inferiores a 50 pela primeira vez desde Maio de 2025, indicando uma contração no mercado de trabalho formal do sector privado. Este dado sugere que a retoma permanece desigual e ainda insuficiente para gerar criação sustentada de emprego.

Por outro lado, as pressões inflacionistas continuam a intensificar-se. Os custos dos meios de produção registaram uma subida acentuada, reflectindo tanto factores internos como externos. As empresas responderam a este aumento com ajustamentos nos preços de venda, contribuindo para uma aceleração dos encargos para os consumidores.

O que diz Fáusio Mussá

No entender de Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank Moçambique, “o PMI do Standard Bank para Moçambique subiu para 51,4 em Julho, o valor mais elevado dos últimos três anos, indicando uma melhoria mensal consecutiva das condições das empresas do setor privado”. No entanto, alerta que “o subíndice do emprego desceu para valores inferiores a 50, o que sugere que o crescimento económico continua a ser frágil”.

O expert sublinha ainda que o aumento dos preços praticados pelas empresas confirma a trajectória ascendente da inflação. “Os dados do PMI indicam que as empresas aumentaram os preços de venda e melhoraram as suas margens de lucro, o que confirma as nossas previsões de que a inflação deverá continuar a subir”, afirma. Em Junho, a inflação homóloga situava-se em 7,5%.

Entre os factores externos que pressionam os preços, destaca-se a evolução recente da economia sul-africana, principal parceiro comercial de Moçambique. A inflação na África do Sul atingiu 5% em Junho, o valor mais elevado dos últimos dois anos, impulsionada por tensões geopolíticas, incluindo o impacto da guerra no Irão nos mercados energéticos. Este cenário tende a agravar a inflação importada em Moçambique, sobretudo através dos preços dos combustíveis e bens essenciais.

Internamente, persistem constrangimentos associados à fragilidade fiscal e à limitada liquidez no mercado cambial, fatores que continuam a afetar o ambiente de negócios. Apesar disso, o reforço das expectativas empresariais sugere uma percepção de melhoria gradual das condições macroeconómicas.

Fáusio Mussá destaca que “o PMI continua a registar uma melhoria nas perspectivas empresariais, reflectindo provavelmente as expectativas de que os progressos nos projectos de GNL venham a impulsionar a procura agregada nos próximos 12 meses”. Ainda assim, mantém uma visão cautelosa quanto ao ritmo de crescimento económico.

“No entanto, continuamos a prever um crescimento do PIB lento e pressões inflacionárias, especialmente no contexto de um fenómeno El Niño de grande intensidade, que deverá trazer precipitação abaixo da média a partir do quarto trimestre de 2026”, alerta o economista.

A conjugação de sinais positivos — como o aumento da actividade e da confiança — com riscos persistentes — nomeadamente inflação, emprego e choques climáticos — evidencia que a economia moçambicana se encontra numa fase de recuperação incipiente, ainda dependente de factores externos e de reformas estruturais internas.

Num contexto regional marcado por incertezas e pressões inflacionistas, o desempenho do PMI posiciona Moçambique num percurso de retoma moderada, mas sublinha a necessidade de políticas macroeconómicas prudentes e de estímulos ao investimento produtivo para consolidar um crescimento sustentável.

©Redactor

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 07 de Agosto de 2026.

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