O pastor que perdeu o rebanho— LEANDRO PAUL
Na pequena igreja do bairro, ninguém duvidava da entrega do pastor Fenias aos desígnios de Deus.
Conhecia a Bíblia quase de cor e passava horas a visitar doentes, a rezar pelos aflitos e a aconselhar casais em crise.
A esposa, Mariana, sentia orgulho do seu marido.
Casados havia mais de uma década, tinham dois filhos e uma vida modesta, mas tranquila. Nunca lhes sobrara dinheiro, porém nunca lhes faltara esperança.
Tudo começou a mudar quando uma jovem entrou para a igreja.
Chamava-se Ester.
Era casada, mas ainda muito nova. Tímida, tornara-se afilhada espiritual de Fenias, que assumiu a missão de a orientar na fé.
No princípio, ninguém viu mal nisso. Era natural que um pastor acompanhasse os membros da sua congregação.
Mas as conversas prolongavam-se. Ester dizia ter sérios problemas conjugais. E o pastor aconselhava-a.
As visitas tornavam-se cada vez mais frequentes.
Os telefonemas e as trocas de mensagens multiplicavam-se.
E Fenias começou a chegar cada vez mais tarde a casa.
Mariana percebeu primeiro as pequenas mudanças.
O marido já não sorria como antes.
As refeições eram feitas em silêncio.
As noites tornaram-se longas e frias.
Quando lhe perguntava o que se passava, ele respondia sempre da mesma forma.
– São apenas assuntos da igreja.
Ela quis acreditar.
Até que um dia, dentro da Bíblia, encontrou uma carta. Não era uma carta de amor. Era pior.
Falava de sonhos partilhados, de uma vida nova e de um futuro onde já não havia espaço para a família que Fenias construíra.
Nessa noite, Mariana esperou-o acordada.
– Diz-me apenas a verdade.
O pastor baixou os olhos.
Demorou muito tempo até conseguir falar.
– Apaixonei-me. Sinto-me jovem como antes.
As palavras caíram dentro da casa como uma pedra lançada contra um vidro.
Mariana não gritou. Não chorou. Limitou-se apenas a olhar para o homem que um dia prometera conduzir outros pelo caminho da fé.
– E nós? A tua família? Os teus filhos?
Fenias permaneceu calado.
Dias depois, abandonou a casa. Foi viver com a afilhada.
A notícia espalhou-se rapidamente pela congregação.
Os bancos da igreja, antes ocupados por famílias inteiras, passaram a encher-se de murmúrios.
Uns defendiam o pastor. Outros exigiam que fosse afastado.
Houve quem dissesse que um homem continua a ser homem, mesmo usando a Bíblia debaixo do braço.
Outros lembravam que quem conduz, espiritualmente, os outros tem uma responsabilidade maior.
Enquanto a igreja discutia, Mariana enfrentava outra batalha.
Dois filhos pequenos. Contas por pagar. E perguntas para as quais não tinha resposta.
O marido da jovem também não suportou a humilhação.
Deixou de ir aos cultos.
Abandonou a própria casa e refugiou-se durante algum tempo na garagem de um amigo.
Perdera a esposa.
Mariana perdera o marido.
Duas famílias tinham sido destruídas pela mesma paixão.
Meses depois, alguém perguntou a um velho ancião da igreja o que mais o entristecia naquela história.
O homem olhou demoradamente para o altar vazio antes de responder.
– Não foi um pastor que abandonou apenas a mulher. Foi um pastor que abandonou o rebanho.
Porque um casamento pode terminar. Muitos terminam. Mas quando a confiança de uma comunidade inteira se parte, demora muitos anos até voltar a reconstruir-se.
E, naquela igreja, durante muito tempo, sempre que um novo pastor subia ao púlpito, havia quem o escutasse com atenção redobrada.
Não por falta de fé em Deus.
Mas porque aprenderam, da forma mais dolorosa, que até aqueles que pregam a Palavra continuam vulneráveis às fraquezas do coração humano.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 10 de Agosto de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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