O texto que muitos vão preferir que não seja lido — REFINALDO CHILENGUE

Sim, porque em Moçambique, para muitos espertinhos, frustrados e preguiçosos, a política virou rampa de lançamento para fuga à pobreza, um verdadeiro cavalo de batalha na luta pelo “tacho”.

Num país como o nosso, onde os meios de subsistência são escassos e a economia informal sustenta grande parte das famílias, a política converteu-se para muitos numa espécie de rota de fuga às dificuldades do quotidiano. Em vez de ser espaço de serviço público, ela tende a funcionar como via rápida para ascensão social.

Nos dias que correm, poucos se preocupam em estudar de forma séria e consistente — obter diploma não é, por si só, sinónimo de formação sólida — e o engajamento político partidário acaba visto como rampa de lançamento para benefícios pessoais. O exercício do poder, entendido como governar, para muitos nem sempre é a verdadeira ambição; grosso modo, basta garantir presença nos órgãos partidários, na Assembleia da República, nas assembleias provinciais ou nos órgãos das autarquias. Para a realidade de Moçambique, essas posições asseguram salários relativamente elevados, temperados por regalias que em muitos casos roçam o obsceno, quase sempre sem que haja exigência proporcional de mérito, competência ou esforço.

Não surpreende, por isso, que tantos prefiram envolver-se na vida político-partidária, em detrimento de estudar, trabalhar ou empreender. O aparente “empenho” político, que não raro é feito com base no populismo puro, na violência, na intolerância e na baixeza, encontra explicação num dado simples: a luta pelo “tacho”.

A maioria dos cíclicos conflitos pós-eleitorais, em vez de serem disputas de ideologias políticas e/ou visões de país, revelam-se batalhas pelo controlo de recursos, privilégios e posições de conforto.

Ciente da minha pequenez em termos de expressão nesta praça chamada Moçambique, a tese que aqui gostaria de propor é directa: e se o país invertêssemos as prioridades? Ao invés de privilegiar deputados e dirigentes político-partidários, porquê não estimular, com seriedade, quem trabalha a terra e garante alimentos nas mesas; remunerar com dignidade os professores, os profissionais de saúde, os agentes das Forças de Defesa e Segurança? Em suma, por que não colocar no centro da política pública aqueles que pela natureza da sua função sustentam a economia real, protegem a vida e formam gerações?

Se os incentivos fossem canalizados para o trabalho produtivo, para a docência, para o serviço público essencial, talvez muitos se vissem mais motivados a estudar, a qualificar-se e a trabalhar a terra, em vez de fingirem preocupação com o povo, enquanto na prática defendem apenas os seus próprios umbigos.

Redefinir quem valorizamos — e como remuneramos — é, em última análise, redefinir o tipo de política e de políticas que queremos. Caso contrário, ainda assistiremos novos episódios de “organizar o país”, tal como vimos entre Outubro de 2024 e Abril de 2025.

Basta de acarinhar e estimular espertinhos, frustrados e preguiçosos, muitos deles avessos à caneta e ao livro!

A MINTHIRU IVULA VULA KUTLHULA MARITO! Os actos valem mais que as palavras! Digo/escrevo isto porque ainda creio que, como em anteriores desafios, Moçambique triunfará e permanecerá, eternamente.

©REFINALDO CHILENGUE

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 14 de Agosto de 2026, na rubrica TIKU 15.

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