Como distinguir aquilo em que acreditamos daquilo que é verdadeiro? — RAFAEL NAMBALE

Já aconteceu consisgo?

Alguém lhe envia uma mensagem pelo WhatsApp. Você lê, acha estranho, mas acaba por acreditar. Talvez porque veio de alguém em quem confia. Talvez porque confirma uma coisa que já pensava. Ou simplesmente porque, depois de receber a mesma história de várias pessoas, começa a pensar: não pode ser tudo mentira.

E então alguém pergunta:

Mas isso é mesmo verdade?

Por vezes, basta essa pergunta para introduzir uma pequena dúvida onde, segundos antes, havia uma certeza.

Talvez seja verdade. Talvez não seja.

E, se calhar, devíamos confirmar antes de continuar a conversa.

Parece uma coisa pequena. Acontece todos os dias. Mas talvez seja justamente nestes pequenos momentos que começa uma questão muito maior.

Porque há uma diferença entre acreditar numa coisa e saber que ela é verdadeira.

Nem sempre percebemos quando passamos de uma coisa para a outra.

Acontece com notícias. Com histórias que ouvimos. Com opiniões sobre pessoas que nunca conhecemos. Com acontecimentos que alguém nos contou de uma determinada maneira. E até com algumas convicções que carregamos há tantos anos que já nem nos lembramos de perguntar de onde vieram.

A repetição ajuda. A confiança também. E quando uma informação confirma aquilo que já pensamos, talvez sejamos ainda menos exigentes com ela.

É aí que começa a nossa primeira pergunta:

Como nascem as nossas certezas?

A certeza

Há uma coisa curiosa nas certezas: depois de as termos, quase nunca sentimos necessidade de voltar atrás para saber como chegaram até nós.

Acreditamos que determinada pessoa é assim. Que determinado político fez isto. Que determinada notícia aconteceu daquela maneira. Que aquele amigo não nos faria uma coisa dessas.

E seguimos em frente.

A certeza poupa-nos trabalho. Dá-nos uma resposta antes de termos de fazer muitas perguntas. Talvez seja por isso que gostamos tanto dela.

O problema é que nem todas as nossas certezas nasceram da mesma maneira.

Algumas foram construídas ao longo dos anos, com experiências, factos e conhecimento. Outras chegaram até nós numa conversa, numa notícia, numa publicação ou numa mensagem que alguém partilhou.

Mas, depois de algum tempo, todas podem acabar no mesmo lugar dentro de nós:

“Eu sei que é assim.”

E é aqui que talvez devêssemos parar um pouco.

Como é que sabemos?

Não é uma pergunta fácil.

Quando alguém nos diz uma coisa que já pensávamos, aceitamos com facilidade. Quando a mesma história aparece várias vezes, ganha familiaridade. Quando vem de alguém em quem confiamos, questionamos menos.

E, quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, podemos nem perceber que deixámos de estar diante de uma informação.

Já estamos diante de uma certeza.

Isso não significa que a certeza seja falsa. Significa apenas que acreditar numa coisa não é, por si só, prova suficiente de que ela seja verdadeira.

Esta distinção parece óbvia quando falamos dos outros.

Mas fica muito menos confortável quando a pergunta é dirigida a nós.

Todos gostamos de pensar que somos capazes de reconhecer uma mentira. Gostamos de acreditar que não somos facilmente manipulados. E, provavelmente, nenhum de nós acorda de manhã a pensar: “Hoje vou acreditar numa coisa falsa.”

Acontece de outra maneira.

Uma informação chega. Nós interpretamo-la. Ela encaixa-se em alguma coisa que já trazíamos dentro de nós. E acreditamos.

Às vezes, sem sequer percebermos o momento exacto em que isso aconteceu.

Talvez, por isso, a primeira coisa que precisamos de aprender não seja a desconfiar dos outros.

Se calhar é aprender a fazer uma pausa diante das nossas próprias certezas e perguntar, com alguma humildade:

De onde veio aquilo em que acredito?

Talvez esta pergunta não destrua as nossas certezas.

Talvez apenas nos obrigue a olhar melhor para elas.

E é precisamente aí que a certeza encontra o seu primeiro teste: o que fazemos quando aparece diante de nós alguma coisa que a contradiz?

A dúvida

Imagine que amanhã alguém lhe mostra uma informação que contraria aquilo em que acredita há muito tempo.

Qual será a sua primeira reacção?

Parar para perceber se aquilo é verdade?

Ou procurar imediatamente uma razão para mostrar que não pode ser?

Talvez nem precisemos de pensar muito para responder.

Quando uma informação confirma aquilo que pensamos, tendemos a recebê-la com alguma facilidade. Quando nos contraria, ficamos mais exigentes.

Queremos saber quem disse, de onde veio, qual é a intenção, que provas existem.

E não há nada de errado em questionar.

O problema começa quando questionamos apenas aquilo que nos incomoda.

Porque, nesse caso, já não estamos necessariamente à procura da verdade. Estamos a tentar proteger uma certeza.

É uma coisa muito humana.

Acontece numa conversa entre amigos, numa discussão política, numa família ou nas redes sociais. Alguém apresenta um argumento e, antes mesmo de terminarmos de o ouvir, já estamos a preparar a resposta.

Não estamos a escutar para compreender.

Estamos a escutar para responder.

E talvez seja aqui que a dúvida possa desempenhar um papel diferente.

A dúvida não precisa de ser uma fraqueza. Nem significa que deixámos de acreditar em alguma coisa.

Às vezes, duvidar é apenas ter a honestidade de dizer:

Espera. Talvez eu precise de olhar para isto outra vez”.

É uma frase simples.

Mas nem sempre é fácil dizê-la.

Porque mudar de opinião significa, muitas vezes, reconhecer que estivemos enganados. E ninguém gosta muito dessa sensação.

Preferimos defender uma posição a admitir que talvez tenhamos chegado a ela depressa demais.

É por isso que, diante de uma informação que contraria aquilo em que acreditamos, existe uma escolha silenciosa que quase nunca percebemos que estamos a fazer:

procuramos a verdade ou procuramos argumentos para continuar certos?

Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes do nosso tempo.

Não porque devamos desconfiar de tudo, mas porque uma sociedade que já não consegue admitir a possibilidade de estar enganada começa, pouco a pouco, a perder a capacidade de conversar.

E talvez seja aqui que a dúvida deixe de ser apenas uma questão pessoal. Ela pode ser também uma forma de proteger aquilo que ainda temos em comum: a possibilidade de procurar a verdade, mesmo quando ela não confirma aquilo em que gostaríamos de acreditar.

Quando a certeza já não basta

Talvez, no fim, a questão não seja saber se somos capazes de reconhecer todas as mentiras que circulam à nossa volta.

Isso seria impossível.

A questão é outra:

Somos capazes de reconhecer quando uma certeza nossa merece ser questionada?

Porque todos podemos enganar-nos. Podemos acreditar numa história que não era verdadeira, interpretar mal um acontecimento ou defender uma ideia que, depois de melhor examinada, percebemos que precisava de ser revista.

Isso não nos torna menos inteligentes.

Talvez nos torne apenas humanos.

O perigo começa quando deixamos de admitir essa possibilidade. Quando a nossa certeza passa a valer mais do que os factos. Quando deixamos de ouvir porque já decidimos que o outro está errado.

Nesse momento, deixamos de procurar a verdade.

Começamos apenas a procurar confirmação.

Construir uma sociedade mais consciente não significa, por isso, ensinar as pessoas a desconfiar de tudo. Significa ensiná-las a fazer uma pergunta simples, mas difícil:

Por que acredito nisto?

Essa pergunta pode nãwho nos dar imediatamente a verdade.

Mas pode impedir que confundamos a nossa convicção com ela.

E, se tivermos a humildade de fazê-la, surge inevitavelmente um outra pergunta:

Se posso estar enganado, onde devo procurar aquilo que me ajude a saber?

É aí que começa a próxima conversa.

Porque depois de aprendermos a questionar as nossas certezas, precisamos de descobrir em quem — e em quê — podemos confiar.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 24 de Agosto de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

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