Polícia notifica malogrado para prestar declarações na esquadra — LEANDRO PAUL
Naquela noite, Elísio regressou a casa sem imaginar que estava a entrar, pela última vez, no lugar onde julgava estar mais seguro.
Tinha 31 anos, era electricista de profissão, marido e pai de cinco filhos. Morava no bairro George Dimitrov, na Cidade de Maputo. Uma vida simples, construída entre o trabalho, a mulher, os filhos e as dificuldades de todos os dias.
Nada fazia prever que a morte já o esperasse à porta da sua casa.
Dias antes, Elísio fora chamado à esquadra da Polícia. Um agente queria falar com ele.
Chamava-se Zeferino, tinha 44 anos e era natural da Zambézia. Segundo a família, Elísio não contou em casa o que se passara entre os dois. Disse apenas que havia sido chamado pela Polícia.
Voltou para casa. Aparentemente, o assunto terminara ali.
Mas não terminara.
Na noite de sábado, Elísio estava em casa quando alguém apareceu.
Era Zeferino.
O polícia vinha armado.
Não se sabe exactamente o que foi dito entre os dois antes do disparo.
A família nunca conseguiu reconstruir completamente aqueles últimos instantes. Sabe apenas que, em determinado momento, Elísio percebeu que o homem que estava diante dele não viera conversar.
Viera acertar contas. De quê? Nunca se soube.
Dinheiro não podia ser. O electricista não era homem de pedir dinheiro emprestado a ninguém. Muito menos a um polícia. Vivia com o que tinha.
Mulheres? Também não. Elísio vivia segundo os mandamentos de Deus: “Não cobiçarás a mulher do próximo”. Todos os domingos, ele e a mulher iam orar na igreja onde purificavam as suas almas.
Nessa noite, Elísio tentou escapar. Correu para casa. Mas Zeferino perseguiu-o.
Quando Elísio alcançou a porta, procurando entrar, ouviu-se o disparo.
Um único tiro. A bala atingiu-o no coração.
Elísio caiu.
O sangue começou a espalhar-se pelo chão enquanto, dentro de casa, a mulher tentava compreender o que acabara de acontecer.
Ainda houve palavras. Houve súplicas. Pedido de misericórdia.
Segundo o relato que a família faria depois, a mulher aproximou-se do agente, aterrorizada.
Pediu-lhe que parasse.
Disse-lhe que aquele homem era pai de cinco filhos.
Mas o polícia ainda a terá intimidado, apontando-lhe a arma à cabeça.
Ela recuou.
O marido estava no chão. Os filhos estavam ali.
E o homem que acabara de disparar continuava armado.
Quando finalmente pôde aproximar-se, já pouco havia a fazer.
Elísio estava morto. O sangue no chão.
Na manhã seguinte, a casa parecia ter parado no tempo.
Familiares, vizinhos e amigos começaram a chegar.
No lugar onde Elísio tombara permaneciam sinais da tragédia.
A família foi preparar o funeral enquanto tentava encontrar resposta para uma pergunta que ninguém conseguia esclarecer:
Porquê?
Carlos, irmão mais velho da vítima, estava entre os mais revoltados.
Não compreendia como um agente da Polícia podia ter ido à casa do irmão e matá-lo daquela maneira.
A família sabia que haveria algum problema entre os dois.
Mas qual?
Ninguém conseguia explicar.
Dias antes, alguns amigos tinham alertado Elísio de que estaria a ser procurado.
Ele, porém, não parecia acreditar que corresse perigo.
Talvez pensasse que tudo pudesse ser resolvido com uma conversa.
Talvez acreditasse que, sendo o outro homem um agente da autoridade, jamais ultrapassaria determinados limites.
Enganou-se.
Depois do crime surgiu uma versão ainda mais desconcertante.
Segundo familiares, o agente teria explicado que não disparara sobre Elísio com intenção de o matar.
Quando os colegas lhe perguntaram por que razão tinha as mãos manchadas, teria respondido que era sangue de carne de vaca que trazia consigo.
Mas havia um homem morto.
Havia uma bala.
E havia cinco crianças que acabavam de perder o pai.
Para a família, nenhuma explicação apagava aquilo.
Carlos não conseguia aceitar que a morte do irmão pudesse ser reduzida a um acidente ou a um simples desentendimento.
Queria saber por que razão o agente fora até àquela casa armado.
Queria saber por que perseguira Elísio.
Queria saber por que disparara.
E, sobretudo, queria justiça.
Cinco filhos sem pai.
No meio da revolta dos adultos, havia cinco crianças para quem todas aquelas perguntas talvez fossem grandes demais.
Elas sabiam apenas uma coisa: o pai não voltaria mais.
Na fotografia de família, tirada semanas antes da tragédia, aparecem todos juntos, ainda protegidos pela normalidade dos dias em que ninguém imaginava o que estava para acontecer.
Depois daquele sábado, tudo mudou.
A casa continuaria no mesmo lugar.
As paredes seriam as mesmas.
A porta diante da qual Elísio tombara continuaria a abrir e a fechar.
Mas faltaria para sempre alguém.
O homem que saía para trabalhar.
O marido. O irmão. O pai.
A Polícia anunciou que havia indícios de homicídio voluntário e que o agente seria responsabilizado.
Para a família, porém, a justiça poderia prender o homem que disparara.
Poderia julgá-lo. Poderia condená-lo. Mas havia uma sentença que ninguém conseguiria revogar.
Naquela casa do George Dimitrov, cinco crianças tinham sido condenadas a crescer sem o pai.
E tudo por causa de um único tiro.
Um tiro certeiro.
Directamente no coração.
Sem se saber porquê.
O mais chocante?
Duas semanas após o baleamento mortal, um agente da esquadra bateu à porta da família do malogrado.
Entregou à viúva uma notificação, para Elísio se apresentar na esquadra, a fim de prestar declarações, sobre “assuntos do seu interesse”.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 24 de Agosto de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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