As duas metades da laranja do Nandinho — LEANDRO PAUL
Ao conhecer Sílvia, Nandinho jurou logo que ela seria a mulher da sua vida.
Levava-a a passear aos domingos, acompanhava-a até à paragem do chapa e passava horas a dizer-lhe que um dia haveriam de se casar.
O que Sílvia não sabia era que, noutra ponta da cidade, o mesmo homem repetia exactamente as mesmas promessas a uma outra, a Rosa.
Também ela acreditava que era a única.
Nandinho tinha aprendido a viver entre mentiras.
Às segundas, dizia que trabalhava até tarde.
Às quartas, inventava reuniões no serviço.
Aos sábados, dividia o dia em dois, como quem reparte um pão, convencido de que nunca seria descoberto.
Durante quase um ano, o plano resultou.
Até ao dia em que o destino resolveu brincar com ele.
Sílvia e Rosa encontraram-se, por acaso, na Baixa de Maputo. Esperavam pelo mesmo chapa.
Curiosamente, tinham um chapéu igual. Elas acharam graça e, por causa disso, começaram a conversar.
Enquanto matavam o tempo à espera do chapa, descobriram um primeiro detalhe curioso.
Sílvia disse que tinha sido o namorado, Fernando, quem havia oferecido o chapéu.
Rosa riu-se da coincidência, porque também ela tinha um namorado, com o mesmo nome, e que também lhe havia oferecido o chapéu, exactamente igual ao da nova amiga.
Segunda coincidência. Aí acharam menos graça.
O Fernando, de cada uma, era estafeta num escritório.
Tinha vinte e cinco anos.
Morava no mesmo bairro.
Gostava da mesma cerveja.
Usava a mesma camisa às sextas-feiras.
A cada uma ele havia prometido casamento há mais de um ano.
Já sem rir, começaram a comparar datas dos encontros.
Os dias em que ele desaparecia. E os que ele aparecia.
As desculpas.
As promessas.
As palavras de amor.
Não demorou muito até perceberem que não existiam dois Fernandos.
Existia apenas um Nandinho.
E esse homem estava a brincar com as duas.
Em vez de se insultarem, e arrancarem o cabelo uma da outra, como talvez Nandinho esperasse, fizeram exactamente o contrário.
Já não esperaram mais pelo chapa. Foram beber umas Brutais.
Conversaram durante horas.
No fim da tarde já pareciam amigas de infância.
– Se ele gosta de brincar assim, vamos lhe fazer a cama – disse Rosa, com um sorriso que assustou Sílvia.
Durante dias prepararam tudo.
Foi então que Sílvia convidou Nandinho para um encontro, à noite.
Ele apareceu impecavelmente penteado, perfumado e convencido de que nesse dia iria comer a fruta da namorada.
Quando entrou no quintal, encontrou as duas.
Sentadas lado a lado.
À espera dele.
Ainda tentou sorrir.
Ainda procurou uma explicação.
Mas nenhuma palavra lhes saiu da boca.
As duas levantaram-se ao mesmo tempo.
A primeira bofetada apanhou-o desprevenido.
A segunda fez-lhe perder o equilíbrio.
Depois vieram murros, pontapés e chapadas, enquanto as duas lhe perguntavam quantas mulheres mais andava ele a enganar.
Os vizinhos acorreram ao ouvir os gritos do Nandinho.
Mas ninguém se apressou a separá-las.
Pelo contrário.
Alguns diziam que aquela era uma lição que o rapaz não esqueceria tão cedo.
Só quando o viram encolhido no chão, a proteger a cabeça com os braços, é que decidiram intervir.
As duas mulheres afastaram-se, respirando com dificuldade.
Já não estavam zangadas uma com a outra.
Estavam em paz.
Tinham descoberto que o verdadeiro inimigo nunca fora a mulher que estava do outro lado.
Era o homem que vivera da mentira, convencido de que a rivalidade feminina lhe garantiria sempre impunidade.
Nandinho levantou-se devagar, coberto de pó e de vergonha.
Naquele dia, aprendeu uma lição que nenhum amigo lhe ensinara.
Quem brinca, com dois corações ao mesmo tempo, arrisca-se a perder os dois.
E, às vezes, perde também o respeito de toda a vizinhança.
O que ninguém adivinhou, na altura, é que Rosa o procuraria mais tarde.
Confessou que fez aquilo tudo por causa Sílvia, que a obrigara a isso.
E ficou com ele, novamente.
Sílvia também lhe deu consolo, apontando o dedo a Rosa.
Ambas continuam a namorar com Nandinho, agora às escondidas uma da outra.
A fazer de conta que cada uma é única.
Aos amigos, Nandinho diz que não consegue viver sem as duas.
Cada uma é uma metade da sua laranja.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 17 de Agosto de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz
Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.
Gratos pela preferência
Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2026 clique AQUI