O que Moçambique pode aprender com as Seychelles — RAFAEL NAMBALE

Há lugares onde a natureza parece ter decidido revelar o melhor de si. O Oceano Índico é um deles.

Nas suas águas de um azul quase impossível repousam duas nações irmãs. Uma pequena, formada por ilhas dispersas que aprenderam a transformar a beleza em prosperidade: Seychelles. Outra vasta, abençoada com cerca de 2.700 quilómetros de costa, arquipélagos paradisíacos, praias de classe mundial, parques nacionais, reservas, coutadas, rios, lagos, uma cultura vibrante e um povo cuja hospitalidade é reconhecida muito para além das suas fronteiras: Moçambique.

A natureza foi extraordinariamente generosa com ambas.

Mas a História ensina-nos uma verdade que nenhuma nação pode ignorar:

A riqueza natural, por si só, nunca garantiu desenvolvimento. O que transforma uma dádiva em prosperidade é a visão de um povo, a qualidade das suas instituições e a inteligência das suas escolhas.

Recentemente tive o privilégio de visitar as Seychelles em missão de trabalho. Foram poucos dias, insuficientes para conhecer toda a riqueza daquele arquipélago, mas suficientes para compreender uma realidade que merece reflexão.

Enquanto percorria aquelas ilhas cuidadosamente preservadas, uma pergunta acompanhava cada passo: como pode um pequeno arquipélago ter construído uma das marcas turísticas mais respeitadas do mundo, enquanto um gigante do Índico continua muito abaixo da dimensão do seu extraordinário potencial?

Não escrevo estas linhas para estabelecer comparações estéreis.

Muito menos para colocar um país acima do outro.

Escrevo porque Moçambique e Seychelles são países amigos. Partilham o mesmo oceano, mantêm excelentes relações de cooperação e enfrentam desafios comuns. E entre amigos, aprender nunca é sinal de inferioridade. É uma demonstração de inteligência e maturidade.

As Seychelles compreenderam, há muito tempo, que o turismo não é apenas um sector económico.

É uma estratégia nacional. É diplomacia. É conservação ambiental. É identidade.

É emprego. É investimento. É reputação internacional. É orgulho nacional.

Cada praia preservada, cada jardim cuidado, cada estrada limpa, cada profissional bem preparado e cada visitante bem recebido representam um compromisso colectivo com a imagem do país.

Foi essa visão que permitiu transformar um pequeno território insular numa referência mundial do turismo.

Moçambique, por sua vez, continua a ser um dos maiores paradoxos turísticos de África. Poucos países receberam tanto da natureza.

Temos cerca de 2.700 quilómetros de costa banhada pelo Oceano Índico.

Temos praias de beleza incomparável.

Temos os arquipélagos de Bazaruto e das Quirimbas, verdadeiros paraísos tropicais.

Temos a Ilha de Moçambique, guardiã de séculos de História.

Temos o Lago Niassa, um dos maiores lagos de água doce do continente.

Temos a majestosa Gorongosa, hoje reconhecida internacionalmente como um exemplo de recuperação da biodiversidade.

Temos reservas naturais, coutadas, mangais, recifes de coral, montanhas, rios e uma riqueza faunística extraordinária.

Temos uma gastronomia singular. Temos música. Temos dança. Temos artesanato.

Temos culturas e tradições que fazem de Moçambique um mosaico humano de rara beleza.

E temos um povo cuja simpatia continua a ser um dos maiores patrimónios nacionais.

Temos, em suma, praticamente tudo aquilo que o turista contemporâneo procura.

Então, porque continuamos tão distantes do lugar que poderíamos ocupar no mapa mundial do turismo?

Porque o turismo não vive apenas da beleza. Vive da organização.

Da continuidade das políticas públicas. Da conservação do património.

Da promoção internacional. Da formação permanente dos profissionais.

Da qualidade dos serviços. Da segurança. Da confiança.

Da capacidade de transformar recursos naturais em oportunidades para as comunidades e em riqueza para o país.

As Seychelles compreenderam isso.

Transformaram limitações geográficas numa vantagem competitiva.

Construíram uma marca. Valorizaram o seu património.

Fizeram do turismo uma prioridade nacional.

Moçambique não precisa copiar as Seychelles. Precisa aprender com elas.

Aliás, aprender é uma das maiores demonstrações de maturidade de uma nação.

Os países que mais evoluem não são aqueles que acreditam saber tudo.

São aqueles que nunca deixam de aprender.

O turismo não é um luxo. É soberania económica. É diversificação da economia.

É criação de emprego para a juventude. É valorização da cultura.

É desenvolvimento das comunidades.

É oportunidade para pescadores, artesãos, guias turísticos, operadores, hotéis, restaurantes, transportadores e milhares de pequenos empreendedores.

Quando o turismo cresce de forma sustentável, cresce também a esperança de milhares de famílias.

Chegados aqui, talvez a pergunta mais importante já não seja o que as Seychelles fizeram.

A verdadeira pergunta é outra: O que estamos dispostos a fazer por Moçambique?

Porque nenhum investidor acreditará primeiro no nosso país se nós próprios não acreditarmos nele.

Nenhum turista valorizará aquilo que nós próprios negligenciamos.

Nenhuma campanha internacional conseguirá vender um destino que internamente ainda não assumiu o turismo como uma verdadeira prioridade nacional.

As Seychelles demonstraram que um território pequeno pode pensar grande.

Moçambique já nasceu grande.

Falta-lhe apenas decidir pensar à altura da grandeza que recebeu.

Um dia, o petróleo poderá acabar. O gás poderá esgotar-se.

Os minérios deixarão de existir.

Mas o nascer do sol continuará a dourar as praias de Inhambane.

As águas cristalinas das Quirimbas continuarão a reflectir o azul infinito do Índico.

A Ilha de Moçambique continuará a guardar séculos de História.

A Gorongosa continuará a lembrar ao mundo que a natureza também sabe renascer.

E o sorriso do povo moçambicano continuará a ser o primeiro e o último cartão de visita de quem escolhe conhecer esta terra.

É por isso que o turismo não é apenas uma actividade económica.

É uma afirmação de identidade. É um compromisso com as gerações futuras. É a arte de transformar aquilo que Deus nos deu na prosperidade que ainda devemos construir.

E talvez seja essa a maior lição que este pedaço de Oceano Índico nos oferece:

Os países não se tornam grandes apenas porque a natureza os abençoou. Tornam-se grandes quando encontram a visão, a coragem e a determinação para honrar essa dádiva.

Porque a natureza fez de Moçambique uma obra-prima.

Agora cabe aos moçambicanos decidir se queremos continuar apenas a contemplá-la… ou finalmente transformá-la numa das maiores histórias de sucesso turístico de África.

©RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 14 de Setembro de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

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