Morgue de Chimoio sob suspeita após família encontrar corpo mutilado
A família de Inês Francisco exige esclarecimentos sobre as circunstâncias em que o corpo da mulher, falecida no Hospital Provincial de Chimoio (HPC), foi encontrado com ferimentos e mutilações na morgue municipal, dois dias depois de ter sido depositado numa câmara frigorífica.
O caso, ocorrido em Agosto, está sob investigação do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), mas a família diz que, mais de um mês depois, ainda não recebeu explicações sobre o corte na testa, a retirada de parte da pele e a ausência de uma orelha no cadáver.
Inês Francisco morreu na manhã de 07 de Agosto, alegadamente vítima de doença, no HPC. Segundo familiares, o corpo foi transportado pouco depois para a morgue, acompanhado pelo viúvo, Fernando João Camota, e outros parentes.
O cadáver terá sido recebido por trabalhadores da morgue e colocado numa câmara frigorífica, na gaveta B-5, por volta das 10:00, segundo relatos recolhidos pelo jornal Redactor.
Na manhã de domingo, dois dias após a morte, a família regressou à morgue para levantar o corpo e dar início às cerimónias fúnebres. Foi então que os familiares dizem ter encontrado o cadáver mutilado.
Ao verificarem o corpo, afirmam ter constatado um corte na testa, com remoção de parte da pele, e a ausência de uma orelha. A situação levou à chamada do SERNIC e ao adiamento do funeral, inicialmente previsto para domingo, para segunda-feira, após diligências e perícias.
“Minha mulher morreu na manhã de sexta-feira. Depois embrulharam o corpo e levaram comigo até à morgue. Guardaram e fecharam à chave, eu a ver. Era antes das 12:00”, disse Fernando João Camota, viúvo da falecida.
Camota contestou declarações do presidente do Conselho Municipal de Chimoio, João Ferreira, segundo as quais o corpo poderia ter sido deixado no chão, junto de câmaras frigoríficas antigas, devido a falhas no acondicionamento.
“Estou a ouvir que o presidente do município diz que o corpo chegou de noite e estava no chão. Não é verdade. Aquilo foi por volta das 10:00”, declarou o viúvo, pedindo uma investigação que determine quem danificou o corpo da esposa.
Município pede desculpas

João Ferreira apresentou desculpas à família e disse que o caso deve ser esclarecido pelo SERNIC, afastando, contudo, a hipótese de tráfico de órgãos.
“Lamentavelmente aconteceu isso na casa mortuária. É preciso que o SERNIC trabalhe e apure realmente como aconteceu”, afirmou o edil, numa declaração divulgada nas plataformas digitais do Conselho Autárquico de Chimoio.
O presidente municipal referiu que os funcionários da morgue recebem os cadáveres e os depositam nas câmaras frigoríficas, admitindo a possibilidade de ter havido falhas no encaminhamento dos corpos e no funcionamento dos equipamentos.
Mas a explicação de um simples “lapso” não convence a família. Fotografias do cadáver, vistas pelo Redactor, mostram ferimentos que os familiares consideram incompatíveis com decomposição natural ou com a acção de insectos e animais. A confirmação da causa e do eventual instrumento usado dependerá, porém, de perícia médico-legal.
Cerca de três semanas depois do incidente, João Ferreira visitou a família e anunciou a expulsão de dois trabalhadores da morgue por alegados maus-tratos a cadáveres, bem como a suspensão de outros três funcionários municipais, enquanto decorrem investigações.
O edil anunciou também a contratação temporária de três filhos da família pelo Conselho Municipal de Chimoio. Domingos Fernando Camota foi afectado à cobrança de impostos prediais; Isabel Fernando Camota à cobrança de senhas nos mercados; e Elisa Fernando Camota à área de saúde e saneamento do meio.
Os três assinaram contratos de quatro meses.
A família reconhece o gesto, mas considera que não substitui a responsabilização dos envolvidos.
“Esses contratos de quatro meses não apagam a nossa dor. Nós pedimos que seja feita justiça”, afirmou Félix Bernardo, sobrinho do viúvo, que diz ter presenciado o estado do corpo juntamente com outros familiares.
A vereadora municipal da Saúde e Saneamento do Meio, questionada pelo Redactor sobre a alegada expulsão dos dois trabalhadores, remeteu esclarecimentos para o presidente do município.
“Quem fala disso é o presidente, não respondo isso”, declarou.
Hospital aponta município
A direcção do Hospital Provincial de Chimoio lamentou o sucedido, mas esclareceu que a morgue é gerida pelo município e não pelo hospital.
“Nós não queremos que isso aconteça, porque temos de ter maior respeito e zelo pelos corpos que nos são confiados pelas famílias”, disse Juvenale Chitovele, director clínico do HPC, em representação da direcção.
“O hospital apenas entrega os corpos. A gestão da morgue, incluindo horários e operações, é inteiramente do município”, acrescentou.
Contactado na segunda-feira, 14 de Setembro, e novamente na quarta-feira, o porta-voz do SERNIC em Manica, Paulo Candeeiro, não forneceu dados sobre o estágio da investigação. O responsável indicou, numa mensagem, que voltaria a ligar, mas não respondeu até ao fecho desta reportagem.
Uma fonte do Redactor afirmou que poderá ter ocorrido outro caso semelhante em Agosto, envolvendo uma criança de cerca de dois anos. A informação, segundo a qual o cadáver apresentava cortes nas bochechas e num calcanhar, não foi confirmada de forma independente.
O caso de Inês Francisco reacende dúvidas sobre as condições de segurança, fiscalização e respeito pelos mortos nas morgues públicas. Mais do que uma questão administrativa entre hospital e autarquia, trata-se de uma obrigação legal e humana: nenhuma família deveria descobrir, no momento do luto, que a dignidade do seu ente querido pode ter sido violada sob custódia institucional
©ONÓRIO ENCARNAÇÃO, Correspondente em Manica (Texto e fotos)
Este artigo intitulado foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 18 de Setembro de 2026.
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