Macaneta e a crise da educação para a cidadania— RAFAEL NAMBALE
Macaneta voltou a ser notícia. Desta vez, não pela beleza da sua paisagem ou pelo potencial turístico, mas pelo que aconteceu durante o feriado de 25 de Setembro deste 2026.
Entre 30 mil e 40 mil pessoas terão afluído à praia. As equipas de salvamento realizaram cerca de 30 intervenções em situações de risco. Foram registados furtos, dois acidentes rodoviários e uma significativa acumulação de lixo, incluindo garrafas e vidros partidos no areal e nas vias de acesso. Duas pessoas morreram, mas as autoridades esclareceram que as mortes ocorreram fora do mar, contrariando os rumores de mortes em massa por afogamento que circularam nas redes sociais.
O próprio presidente do Município de Marracuene reconheceu problemas relacionados com o comportamento de alguns frequentadores e, posteriormente, pediu desculpas pelos transtornos registados, anunciando medidas mais rigorosas para melhorar a organização e a segurança.
Mas, para além dos acontecimentos concretos, Macaneta deixa uma pergunta que merece uma reflexão maior: estaremos perante comportamentos isolados ou diante de um problema mais amplo de educação para a cidadania?
Seria injusto transformar o comportamento de alguns numa condenação colectiva. Mas também seria cómodo olhar para o episódio apenas como um problema de segurança ou de organização. Há momentos em que um acontecimento nos obriga a olhar para aquilo que está por detrás dele.
E aqui entra a educação.
Educar não é apenas ensinar uma criança a ler, escrever ou preparar-se para o mercado de trabalho. É também ensiná-la a conviver, a respeitar o outro, a reconhecer limites, a cuidar do que é de todos e a compreender que liberdade também significa responsabilidade.
É neste ponto que a escola assume uma missão que talvez precisemos de discutir mais seriamente.
Que cidadãos estamos a formar nas nossas escolas?
A escola não pode ser apenas o lugar onde se transmitem conhecimentos, se fazem testes e se passam classes. É também onde se começa a aprender a viver em sociedade. Respeitar regras, lidar com a diferença, rejeitar a violência, preservar o espaço colectivo e assumir responsabilidades não são aprendizagens menores. São aprendizagens para a vida.
E não basta que a educação moral, cívica e patriótica esteja prevista nos programas. A questão é saber se esses valores estão realmente a ser vividos, ensinados e praticados no quotidiano escolar.
A responsabilidade não é apenas da escola. A família educa. A comunidade educa. Os meios de comunicação educam. As instituições também educam, muitas vezes pelo exemplo.
E aqui chegamos ao Estado.
Cabe ao Governo definir políticas educativas, criar condições para a sua implementação e garantir que a formação do cidadão não seja tratada como uma questão secundária. Mas o Estado também educa através daquilo que faz. As instituições ensinam pelo exemplo, tanto quanto os professores ensinam pela palavra.
Não podemos querer uma sociedade mais responsável sem perguntar se estamos a criar as condições para formar pessoas responsáveis.
Macaneta não é, por si só, uma fotografia de Moçambique. Mas pode ser um espelho que nos obriga a olhar para uma questão que normalmente deixamos para depois.
Porque talvez o problema não esteja apenas naquilo que alguns fizeram naquela praia. Talvez esteja também naquilo que, durante anos, temos deixado de ensinar, de exigir e, sobretudo, de praticar.
E quando olhamos para as nossas crianças e para a nossa juventude, a pergunta deixa de ser apenas sobre Macaneta.
Que sociedade estamos, afinal, a ensinar-lhes a construir?
©RAFAEL NAMBALE *
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 06 de Outubro de 2026, na rubrica denominada O país que somos.
Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Correio da manhã favor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz
Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais.
Gratos pela preferência Para ver a revista Prestígio de Setembro/Outubro de 2026 clique AQUI