O perigo de nos habituarmos à morte — RAFAEL NAMBALE
Medo, silêncio e a erosão da confiança em Moçambique.
Há uma frase que se ouve cada vez mais em Moçambique.
“Deixa isso…”
Às vezes é dita num chapa. Outras vezes num mercado. Noutras, à mesa do jantar.
Surge quando alguém toca em determinados assuntos. Quando uma conversa se aproxima de temas considerados sensíveis. Quando alguém faz perguntas que muitos gostariam de ver respondidas.
“Deixa isso…”
A frase parece inocente. Mas diz muito sobre o país que estamos a construir.
Porque ela raramente significa apenas mudar de assunto.
Na maioria das vezes significa outra coisa:
“Cuidado”.
Ao longo dos últimos anos, muitos moçambicanos aprenderam a olhar primeiro para os lados antes de dizer aquilo que realmente pensam. Aprenderam a baixar a voz.
Aprenderam a escolher cuidadosamente as palavras.
Aprenderam que certos temas são discutidos apenas entre pessoas de confiança.
E talvez esta seja uma das transformações mais silenciosas e mais preocupantes da nossa sociedade.
O medo começou a tornar-se parte da cultura.
Não estamos a falar do medo de um assalto. Nem do medo de perder o emprego.
Falamos de algo mais profundo.
Falamos daquele receio que leva um cidadão a pensar duas vezes antes de expressar uma opinião.
Daquele silêncio que se instala quando uma conversa toca em assuntos incómodos.
Daquela prudência excessiva que nasce quando as perguntas parecem mais perigosas do que as respostas.
E o mais preocupante é que tudo isto acontece de forma gradual.
Sem decretos. Sem anúncios. Sem comunicados. Acontece dentro das pessoas.
Acontece quando uma morte violenta deixa perguntas sem resposta.
Acontece quando um crime que chocou o país desaparece lentamente das manchetes sem que a verdade apareça.
Acontece quando a indignação colectiva dura menos do que deveria.
Acontece quando a dúvida se torna rotina.
Moçambique é um país que aprendeu a conviver com notícias que nunca deveriam ser normais.
Morre um jornalista. O país comenta.
Morre um político. O país comenta.
Morre um activista. O país comenta.
Morre uma figura religiosa. O país comenta.
Durante alguns dias, há choque. Há debates. Há promessas. Há declarações.
Depois chega o silêncio. E a vida continua. Mas não continua igual.
Porque cada acontecimento destes deixa uma marca invisível na consciência colectiva.
Cada pergunta sem resposta enfraquece um pouco mais a confiança.
Cada dúvida alimenta mais suspeitas. Cada silêncio produz mais medo.
E o medo tem uma característica perigosa.
Ele educa. Ensina as pessoas a falar menos. Ensina as pessoas a não perguntar.
Ensina as pessoas a não se expor.
Ensina as pessoas a acreditarem que é mais seguro observar do que participar.
Pouco a pouco, a cidadania transforma-se em cautela.
A coragem transforma-se em prudência.
E a esperança transforma-se em resignação.
Talvez seja por isso que o verdadeiro problema de Moçambique não esteja apenas nas mortes que nos chocam.
Talvez esteja no facto de elas já não nos surpreenderem como antes.
Uma sociedade começa a perder uma parte da sua alma quando a violência deixa de provocar espanto.
Quando a morte deixa de interromper a normalidade.
Quando o medo deixa de ser uma excepção e passa a ser um hábito.
O problema não é apenas a existência do medo.
Toda sociedade conhece momentos de medo.
O verdadeiro problema surge quando o medo deixa de ser uma reação e passa a ser uma forma de viver.
Quando as pessoas começam a medir as palavras.
Quando aprendem a silenciar perguntas.
Quando se convencem de que é mais seguro observar do que participar.
É nesse momento que a violência alcança a sua vitória mais profunda.
Não a morte de um corpo.
Mas o silêncio de uma consciência. Moçambique merece mais do que isso.
Merece cidadãos que possam falar sem receio.
Merece instituições que inspirem confiança.
Merece uma sociedade onde a crítica não seja confundida com hostilidade e onde a divergência não seja vista como ameaça.
Porque nenhum país se torna forte quando os seus cidadãos têm medo de pensar em voz alta.
E nenhuma nação constrói um futuro digno quando o silêncio se transforma na sua língua mais falada.
Talvez ainda estejamos a tempo de impedir que isso aconteça.
Mas o primeiro passo é reconhecer uma verdade simples e incómoda: uma sociedade não começa a perder-se quando surgem as primeiras mortes.
Começa a perder-se quando deixa de se indignar perante elas.
RAFAEL NAMBALE *
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 15 de Junho de 2026, na rubrica de opinião.
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