A ilusão da Paz passiva: Por que a assinatura de um acordo é apenas o começo? — JOÃO RIBEIRO
A paz não é um produto acabado nem um presente estatal; é um exercício diário e uma construção ética que exige o compromisso de cada um de nós.
Assinar um acordo de paz ou marcar no calendário um dia festivo para celebrá-la não elimina, por si só, os conflitos subjacentes de uma sociedade. A assinatura de um documento solene abre uma porta, sem dúvida, mas é a acção diária, firme e consciente dos cidadãos que constrói o verdadeiro caminho.
É preciso desmistificar a ideia de que a paz seja um bem estático ou um produto acabado, pronto para ser distribuído uniformemente a cada indivíduo pelo Estado ou por organismos internacionais.
A expectativa de que acordos gerais tragam, de forma automática, uma harmonia mundial e permanente induz a um perigoso relaxamento social. Acomodar-se nessa ilusão é esquecer que a paz é, antes de tudo, o resultado de um esforço contínuo (tanto individual quanto colectivo) na rejeição e no combate a tudo aquilo que se opõe à convivência harmoniosa.
A verdadeira paz exige muito mais do que a simples intenção ou o desejo abstrato de “viver bem”. Ela cobra de cada um a capacidade prática de gerir conflitos internos e externos, bem como a maturidade para enfrentar os desafios cotidianos de forma não violenta. Embora esse esforço pessoal não garanta, de forma imediata, a transformação de toda a sociedade, ele constitui o ponto de partida indispensável: consolida a paz interior (aquela que independe das tempestades ao redor) e que, por transbordamento, pode ser partilhada com o próximo.
Nesse sentido, ecoam com profunda lucidez as palavras de Dom Dinis Sengulane ao afirmar que “a paz verdadeira deve ser cruciforme”. Trata-se de uma imagem poderosa: uma paz que possui uma dimensão vertical (a reconciliação do indivíduo consigo e com o transcender) e uma dimensão horizontal (a projecção dessa harmonia na comunidade e em tudo o que o cerca). Não por acaso, nas Bem-Aventuranças, Jesus Cristo declara felizes não os contemplativos, mas sim os pacificadores (aqueles que ativamente constroem a paz), pois estes serão chamados filhos de Deus.
Há uma diferença abissal entre ser um mero adepto da paz (alguém que passivamente espera recebê-la dos outros) e ser um pacificador. O pacificador trabalha, intervém, medeia e assume a responsabilidade pela transformação do seu entorno.
Em suma, se almejamos uma sociedade pacífica, precisamos entender que a paz não se decreta; edifica-se. Cada cidadão, as organizações da sociedade civil (com destaque para as instituições religiosas) e o Governo devem caminhar lado a lado, de mãos dadas. Somente quando a busca pela paz coletiva se tornar uma prática cotidiana e compartilhada por todos é que deixaremos de ter apenas acordos no papel para vivermos, finalmente, uma paz genuína e duradoura.
©JOÃO RIBEIRO *
* Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias
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