Armadilhada às dezoito horas — LEANDRO PAUL

(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997-2007); imagem ilustrativa)

Às dezoito horas, Joice foi pedir uma explicação à casa de uma pessoa que nem sequer conhecia bem. Queria saber por que razão lhe tinham destruído a casa.

Não levou ninguém consigo. Não levava uma arma, nem mesmo uma contundente, nem que fosse apenas para se defender, nem sequer ia preparada para uma luta. Levava apenas perguntas e a esperança de conseguir, finalmente, uma resposta que fizesse sentido.

Maria estava a jantar quando ela chegou. Levantou os olhos e perguntou:

– O que vieste fazer aqui a esta hora?

Joice estranhou. Tinham combinado àquela hora. Fora a própria vizinha a convidá-la.

Joice tinha 30 anos, era casada e mãe de dois filhos. Vivia em Maputo e deslocava-se, regularmente, a Moamba para comprar carvão que depois revendia na cidade. Era um trabalho que exigia deslocações, contas e atenção. Comprar a um preço que permitisse ganhar alguma coisa. Encontrar transporte. Vender. Voltar a comprar.

Na Moamba, tinha também uma casa em construção. Ainda não estava pronta, mas já lhe pertencia na maneira como pertencem às pessoas as coisas que vão fazendo aos poucos. Cada parede levantada guardava uma parte do esforço. Cada compra de material representava dinheiro que deixara de servir para outra necessidade.

Joice já conseguia imaginar a casa acabada. Por isso, quando chegou e encontrou a casa no estado em que estava, demorou a compreender o que estava a ver.

Aproximou-se. Olhou para as paredes danificadas, para o material estragado, para o trabalho que teria de ser feito novamente. Não parecia um acidente. Alguém tinha querido deixar aquilo assim mesmo.

Perguntou aos que estavam por perto. As primeiras respostas vieram com hesitação. Depois surgiu o nome de Maria. A vizinha que ela nem sequer conhecia.

E, com o nome, veio uma explicação que a deixou ainda mais confusa. Maria ouvira dizer que Joice mantinha uma relação com o marido dela. Joice quis saber quem tinha dito aquilo. Ninguém lhe apresentou uma pessoa que soubesse de facto. Havia alguém que ouvira de outra pessoa, uma conversa que passara por ali, uma certeza que parecia crescer à medida que se afastava de quem a começara.

Para Joice, era tudo mentira. Ela nem sequer conhecia o tal marido da vizinha. Se o viu, foi de longe. Nunca trocara alguma palavra com ele. Como poderiam ser amantes?

Mas a casa estava destruída. Podia negar o rumor. Não podia negar o que tinha diante dos olhos.

Procurou Maria no mercado, onde esta vendia hortícolas, para lhe perguntar directamente. A vizinha não quis conversar naquele lugar.

– Isso não é assunto para falarmos aqui. Vai à minha casa às dezoito.

Joice aceitou. Queria esclarecer a acusação e perceber o que seria feito dos prejuízos. Talvez, falando frente a frente, conseguissem chegar à origem daquela história.

Até à hora combinada, voltou várias vezes a olhar para a casa. Fazia contas ao material perdido. Depois interrompia as contas para pensar no marido de Maria, procurando encontrar algum episódio, alguma palavra ou algum cumprimento que pudesse ter sido transformado numa relação amorosa. Nada lhe parecia justificar aquilo.

Às dezoito, apresentou-se. Maria estava diante da refeição. Por instantes, Joice sentiu que chegara à casa errada ou que se enganara na hora.

– Disseste para eu vir a esta hora.

A vizinha deixou-a começar. Joice falou da casa.  Queria saber se fora realmente Maria a destruí-la. Queria ouvir a resposta da própria boca dela, sem vizinhos pelo meio. Depois falou da acusação.

– Quem te disse que eu ando com o teu marido?

Maria levantou-se. Joice acompanhou-a com os olhos, mas continuou a explicar-se. Sentou-se mesmo sem ser convidada a isso.

Disse que era casada. Tinha filhos. Vinha à Moamba por causa do carvão. Não compreendia por que estavam a meter o seu nome naquela história.

A outra mulher entrou num aposento da casa. Joice ficou à espera. Talvez fosse buscar alguma coisa. Talvez chamasse alguém. A conversa mal começara e ela ainda esperava uma resposta.

Quando Maria regressou, trazia uma panela nas mãos. Joice não teve tempo de perceber o perigo. Viu o recipiente aproximar-se.

Depois sentiu o óleo quente. Atingiu-lhe o rosto e espalhou-se pelo corpo, queimando-lhe o peito, a barriga e as pernas.

A explicação que estivera a dar acabou num grito.

Tentou afastar-se, mas a dor vinha agarrada a ela. Levou as mãos ao corpo sem saber onde tocar. O que mais tarde conseguiria contar aconteceu depressa demais para ser compreendido naquele momento.

Vizinhos que passavam na rua e ouviram gritos correram para a ajudar. As vozes sobrepunham-se. Alguém procurava socorro. Alguém tentava perceber o que fazer. Joice perdeu os sentidos.

Quando a retiraram dali, já não podia responder às perguntas que lhe faziam.

Tinha ido falar de paredes destruídas. Agora era o seu corpo que precisava de ser salvo.

Foi socorrida, primeiro no hospital da Moamba. A gravidade das queimaduras obrigou à transferência para Maputo, para o Hospital José Macamo. Dali seguiria para o Hospital Central de Maputo.

O seu mundo passou a ser camas, ligaduras e pessoas que lhe pediam que tivesse paciência. Havia dores que não a deixavam descansar. Movimentos pequenos exigiam cuidado. O tratamento prolongava-se e a cicatrização era difícil.

Quando alguém se aproximava, Joice procurava-lhe o rosto. Esperava notícias dos filhos. Esperava saber como estavam as coisas em casa.

Mas havia também perguntas que continuavam sem resposta. Quem inventara a relação com o marido de Maria? Quem a repetira? Como chegara aquela conversa a adquirir força suficiente para destruir uma casa e levar uma mulher a preparar óleo quente para receber outra?

Joice voltava sempre ao convite. À hora marcada. À panela que aparecera enquanto ela ainda falava. Na sua cabeça, aquela sequência não tinha sido uma discussão que saíra do controlo. Acreditava que fora chamada para uma armadilha.

Familiares de Maria procuraram-na. Pediram que não a mandasse prender. Comprometeram-se a pagar os danos e as despesas de tratamento.

Joice ouviu. Estava numa cama de hospital, com o corpo ferido e os dias de trabalho interrompidos. Precisava de cuidados, de ajuda e de alguma certeza sobre o que viria a seguir.

Mas o tempo foi passando. Segundo contaria depois, não recebera dinheiro algum. Nem sequer a tinham ido visitar mais. As promessas tinham ficado do lado de fora do hospital, onde as pessoas podiam continuar a andar, trabalhar e regressar às suas casas.

Ela permanecia ali. Resolveu, então, recorrer à Polícia e levar o caso ao tribunal. Queria que alguém respondesse pelo que lhe acontecera. Continuava a negar qualquer relação com o marido da vizinha. Não aceitava que a acusação, repetida sem provas, servisse também para explicar ou diminuir a violência de que fora vítima.

Na cama do hospital, Joice lembrava-se da casa por acabar. Antes, preocupava-se com o dinheiro necessário para terminar as obras. Agora não sabia quando conseguiria voltar ao carvão.

Pensava no marido e nos filhos e no tempo que ainda teria de permanecer longe deles. Pensava nas marcas que encontraria quando as ligaduras fossem retiradas.

Depois regressava àquela tarde. Se tivesse levado alguém consigo. Se não tivesse entrado. Se tivesse desconfiado da pergunta à chegada.

Mas Maria marcara a hora. Abrira-lhe a porta. Deixara-a começar a falar. Joice não tinha encontrado razão para fugir de uma conversa.

Às dezoito horas, fora pedir uma explicação.

E ainda estava à espera dela.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 19 de Outubro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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