A noite em que a multidão fez justiça pelas próprias mãos— LEANDRO PAUL

(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997-2007; imagem ilustrativa)

Primeiro pediram justiça. Depois deixaram de acreditar nela.

E, quando milhares de pessoas cercaram a esquadra naquela noite, já ninguém parecia interessado em saber o que dizia a lei.

Queriam os três homens. E conseguiram-nos.

Tudo começara alguns dias antes, quando Alfredo M., de 27 anos, foi buscar a noiva, Júlia Z., de 23, à casa dos pais, nos arredores de Maputo.

Iam casar dentro de poucas semanas.

A família já falava do lobolo, as tias discutiam quem faria a comida e Júlia passava parte dos dias a escolher tecidos e a imaginar como seria a nova casa.

Alfredo tinha comprado uma motorizada em segunda mão. Não era grande coisa, mas dizia, orgulhoso:

– Primeiro vem a mota. Depois compro carro.

Júlia ria.

– Primeiro casa comigo.

Naquela noite ficaram algum tempo à porta de casa. Era uma conversa de namorados. Daquelas em que ninguém tem propriamente alguma coisa para dizer, mas nenhum dos dois quer despedir-se.

Foi quando apareceram três homens. Ninguém na família percebeu imediatamente o que estava a acontecer. Um deles encostou uma faca ao pescoço de Alfredo.

Outro agarrou Júlia.

– Não grita!

Foram obrigados a acompanhá-los. Levaram-nos para uma zona de mato, afastada das casas. Ali começou o pesadelo.

Alfredo tentou defender a noiva. Foi espancado.

Júlia gritava.

– Deixem ele! Por favor!

Um dos homens atingiu Alfredo violentamente. Depois outro. E outro. Quando caiu, já quase não se mexia.

Júlia foi violentada.

Quando percebeu que também a queriam matar, fez a única coisa que lhe ocorreu. Deixou o corpo cair. Fechou os olhos. Parou de reagir.

Um dos criminosos aproximou-se. Tocou-lhe com o pé.

– Essa também já foi.

Júlia ouviu aquelas palavras. Mas não abriu os olhos. Ouviu os passos afastarem-se. Depois as vozes. Depois nada.

Esperou. Cinco minutos? Dez? Meia hora? Nunca conseguiu dizer quanto tempo.

Quando finalmente abriu os olhos, Alfredo estava a poucos metros.

– Alfredo…

Arrastou-se até ele. Tocou-lhe no rosto.

– Alfredo…

O noivo não respondeu. Júlia percebeu então que estava sozinha. Ferida, quase sem forças, caminhou até encontrar ajuda.

Quando contou o que tinha acontecido, a notícia espalhou-se rapidamente.

Na manhã seguinte, já quase toda a zona falava do casal que fora atacado poucos dias antes do casamento.

Mas havia uma sobrevivente. E Júlia tinha visto os rostos.

A Polícia começou as buscas. O primeiro suspeito foi encontrado dois dias depois. Chamava-se Ernesto. O segundo, Benvindo. O terceiro era conhecido apenas por Xonguila. Bebiam todos na mesma barraca. Foi fácil identificá-los.

A notícia das detenções correu depressa.

– Apanharam os homens!

As pessoas apareceram diante da esquadra. Queriam vê-los. Algumas exigiam pena pesada. Outras gritavam:

– Assassinos!

Mas a Polícia conseguiu controlar a situação. Naquele momento, apesar da revolta, a população ainda esperava que a Justiça funcionasse.

Os três seriam investigados. Depois julgados. Era assim que devia ser.

Até ao dia da reconstituição. A Polícia levou os suspeitos ao local do crime.

A notícia espalhou-se e dezenas de curiosos acompanharam à distância. Depois chegaram centenas. Queriam ver os homens que, segundo se dizia, tinham destruído a vida de um casal prestes a casar.

Os investigadores fizeram perguntas.

– Onde estavam?

– Quem segurou Alfredo?

– Quem atacou Júlia?

– Como mataram o rapaz?

Ernesto respondia. Parecia tranquilo demais.

Num determinado momento, um agente perguntou:

– Foi aqui que mataram o rapaz?

Ernesto olhou para o lugar. Sorriu. E respondeu qualquer coisa em tom de brincadeira.

Não foi propriamente a frase que incendiou as pessoas. Foi o sorriso. Aquele sorriso correu mais depressa do que qualquer explicação.

– Está a rir!

– Matou uma pessoa e está a rir!

– Não está arrependido!

Quando os suspeitos regressaram à esquadra, a história já tinha crescido.

Uns diziam que Ernesto tinha gozado com a morte de Alfredo. Outros juravam que dissera que, se fosse libertado, faria novamente. Ninguém sabia exactamente o que era verdade. Mas já não importava.

Ao cair da noite, começaram a chegar pessoas. Primeiro algumas dezenas. Depois centenas.

Vieram jovens. Vieram mulheres. Vieram homens que nem sequer conheciam Alfredo ou Júlia.

A multidão crescia.

– Queremos os assassinos!

Os polícias fecharam o portão. Mandaram as pessoas dispersar. Mas ninguém saiu. Pelo contrário. Chegavam mais.

Alguém atirou uma pedra. Depois outra. Uma janela partiu-se. A Polícia tentou conter a multidão. Era tarde. Quando o portão cedeu, centenas de pessoas entraram.

Os três homens estavam nas celas. Ouviram o barulho aproximar-se. Talvez naquele momento tenham percebido que a prisão, que até então lhes parecera o pior lugar onde poderiam estar, era afinal o único lugar que os protegia.

– Não!

Um deles começou a gritar. A multidão chegou às celas. Os polícias foram afastados. Alguém conseguiu abrir a grade. Os três foram puxados para fora.

A partir daí, deixou de haver indivíduos. Havia uma multidão. E uma multidão não tem rosto.

Um batia. Outro pontapeava. Outro gritava. Havia pessoas que tentavam aproximar-se apenas para bater nos presos.

Outras gritavam:

– Matem!

Os três foram arrastados para a rua. Alguém trouxe cordas. Amarraram-nos.

Um carro avançou lentamente, arrastando-os pela avenida. A multidão acompanhou.

A notícia espalhou-se pelos bairros próximos.

– Tiraram os assassinos da esquadra!

Mais pessoas apareceram. Quando chegaram a uma praça, já eram milhares.

Alguns começaram a perceber que aquilo tinha ido longe demais.

– Entreguem-nos à Polícia!

Ninguém escutava.

Um homem tentou impedir uma agressão. Foi empurrado.

– Agora tens pena deles?

Era essa a lógica daquela noite. Qualquer tentativa de parar a violência parecia transformar quem a fazia em defensor dos criminosos. E ninguém queria ser visto assim.

Os três homens acabaram mortos. Mortos pela velocidade do carro.  Mortos pela gasolina. Mortos pelo fogo. A população estava em êxtase.

Quando tudo terminou, a praça parecia estranhamente silenciosa. Algumas pessoas começaram a afastar-se. Já não gritavam. A raiva que as juntara desaparecia aos poucos. Ficava apenas aquilo que tinham feito.

Na manhã seguinte, Maputo acordou com duas histórias. A primeira era a de Alfredo e Júlia. Um jovem assassinado. Uma mulher violentada. Um casamento que nunca aconteceria.

A segunda era a história dos três suspeitos retirados de uma esquadra e mortos por uma multidão enfurecida.

Durante dias discutiu-se quem eram as vítimas. Para uns, só havia duas: Alfredo e Júlia. Para outros, o que acontecera depois mostrava que uma sociedade podia condenar um crime e, poucas horas depois, cometer outro.

Júlia quase não falou. Quando um familiar lhe perguntou o que sentia depois de saber que os homens estavam mortos, respondeu apenas:

– Alfredo não voltou.

Era talvez a frase mais simples de toda aquela tragédia. E também a mais difícil.

Porque nenhuma das mortes seguintes tinha devolvido o noivo. Nenhuma pancada tinha apagado o que lhe fizeram. Nenhuma vingança tinha reconstruído o casamento interrompido.

Com o passar dos meses, algumas pessoas que participaram na invasão foram chamadas para prestar declarações.

Mas como encontrar um homicida quando o homicida tinha sido uma multidão? Quem deu o golpe fatal. Quem apenas assistiu? Quem abriu a cela? Quem amarrou as cordas? Quem começou? De quem era o carro?

Ninguém sabia. Ou ninguém queria saber.

O tempo passou. A praça voltou a encher-se de vendedores e transeuntes. A esquadra continuou no mesmo lugar. E a cidade seguiu a sua vida.

Mas aquela noite deixou uma pergunta que nunca encontrou resposta.

A multidão saiu de casa para exigir justiça. Horas depois, tinha três mortos diante de si.

Em que momento deixou de procurar justiça e começou a procurar vingança? Talvez ninguém tenha percebido.

Porque há uma fronteira muito fina entre as duas.

E naquela noite, quando finalmente descobriram que a tinham atravessado, já havia mortos dos dois lados.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 28 de Setembro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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