O Estado não tem cartão de militante — RAFAEL NAMBALE

Há uma confusão perigosa que, ao longo dos anos, se foi normalizando em Moçambique: a ideia de que o Estado pertence a um partido. Não pertence. Nunca pertenceu. E nunca poderá pertencer.
O Estado não tem cartão de militante.
O Estado não canta hinos partidários. Não participa em comícios. Não veste camisetas de campanha. O Estado existe para servir todos — inclusive aqueles que nunca votaram, que discordam, que criticam e que ousam pensar diferente.
Mas quando essa linha é apagada, o que resta não é governação — é captura.
Em muitos sectores da administração pública, o acesso a oportunidades deixou de ser uma questão de mérito, para se tornar uma questão de alinhamento. Competência passou a ser secundária. Lealdade política tornou-se moeda de troca. E assim, silenciosamente, o Estado começa a perder a sua essência.
Porque um Estado partidarizado deixa de ser um instrumento de justiça para se tornar um mecanismo de exclusão.
O jovem qualificado que não tem “padrinho político” vê portas fechadas. O funcionário público sente que precisa de provar fidelidade antes de provar capacidade. O cidadão comum percebe que há serviços que funcionam melhor para uns do que para outros.
E, pouco a pouco, instala-se uma cultura de medo, silêncio e conformismo.
Mas há algo ainda mais grave.
Quando o Estado se confunde com o partido, a crítica passa a ser vista como traição. Questionar torna-se perigoso. E o espaço democrático — que deveria ser de debate e diversidade — transforma-se num campo estreito, onde só cabe uma voz.
É assim que as democracias não caem de repente — desgastam-se por dentro.
Moçambique é maior do que qualquer partido.
É maior do que qualquer governo.
E será sempre maior do que qualquer liderança.
O Estado moçambicano pertence ao povo — todo o povo. Do Rovuma ao Maputo. Do campo à cidade. Do filiado ao independente. Do apoiante ao crítico.
E proteger essa ideia não é um luxo — é uma urgência nacional.
Separar claramente o Estado do partido não é um capricho teórico. É uma condição essencial para garantir justiça, eficiência e confiança nas instituições. É o que permite que um hospital trate todos por igual, que uma escola forme cidadãos livres e que um concurso público selecione os melhores — e não os mais próximos.
Sem essa separação, não há igualdade.
Sem igualdade, não há confiança.
E sem confiança, não há futuro.
A pergunta que fica é simples, mas exige coragem: estamos a construir um Estado para todos — ou apenas a manter um sistema para alguns?
A resposta a essa pergunta definirá o tipo de país que seremos amanhã.
Porque no fim, um Estado que serve apenas uma parte do povo deixa de ser Estado.
E passa a ser outra coisa.
E essa outra coisa nunca constrói nações — apenas prolonga dependências.
Moçambique precisa de um Estado forte.
Mas, acima de tudo, precisa de um Estado justo.
E justiça começa aqui: reconhecer, de uma vez por todas, que o Estado não tem — e não pode ter — cartão de militante.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 30 de Março de 2026, na rubrica de opinião.

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