Quando a competência deixa de ser critério, o país para— RAFAEL NAMBALE
A fragilidade das instituições começa onde o mérito termina — e é nesse ponto que se decide o futuro colectivo.
Não é um colapso imediato.
Não há alarmes.
Não há um momento exacto em que tudo falha.
Mas há um ponto silencioso — quase invisível — onde o país começa a parar.
Esse ponto existe quando a competência deixa de ser critério.
Durante demasiado tempo, Moçambique habituou-se a viver com um sistema dual: de um lado, o discurso que valoriza profissionalismo, mérito e igualdade de oportunidades; do outro, a prática onde o acesso depende, muitas vezes, de proximidade, influência ou alinhamento.
E é nesse desfasamento que o país abranda.
Não de forma abrupta, mas progressiva.
Não de forma visível, mas acumulativa.
Perde-se eficiência nas instituições.
Perde-se confiança nos processos.
Perde-se, sobretudo, a capacidade de escolher os melhores para liderar, executar e transformar.
E um país que não escolhe os melhores não pode esperar os melhores resultados.
A questão do mérito não é apenas uma exigência ética — é uma necessidade estrutural.
Num mundo onde as nações competem pela qualidade das suas instituições, pela eficiência dos seus serviços e pela capacidade dos seus quadros, ignorar o mérito é escolher, conscientemente, ficar para trás.
Porque quando a competência deixa de ser critério, outras lógicas ocupam o espaço.
A lógica da proximidade.
A lógica da lealdade.
A lógica do favor.
E essas lógicas não constroem sistemas — constroem dependências.
Um concurso público deixa de ser um mecanismo de selecção para se tornar um ritual formal.
Uma promoção deixa de reflectir desempenho para reflectir alinhamento.
Uma liderança deixa de inspirar confiança para gerar acomodação.
E assim, pouco a pouco, o país entra num estado de funcionamento mínimo — onde tudo acontece, mas pouco avança.
O mais preocupante é que este processo raramente gera ruptura.
Gera habituação.
As pessoas ajustam-se.
Aprendem as regras informais.
Desistem de competir com base na competência e começam a navegar com base nas relações.
E nesse momento, o sistema deixa de ser justo — e passa a ser previsível.
Mas previsível no pior sentido: não vence quem é melhor, vence quem está mais próximo.
E isso tem consequências profundas.
Desmotiva os mais capazes.
Afasta os mais íntegros.
E desencoraja uma geração inteira que começa a perceber que o esforço pode não ser suficiente.
Um país onde o esforço deixa de ser caminho é um país que perde energia.
E quando a energia social diminui, o desenvolvimento torna-se lento, desigual e frágil.
Mas há um ponto essencial que precisa de ser afirmado com clareza: o mérito não é um luxo técnico.
É um pilar de funcionamento nacional.
Garantir que posições são ocupadas por quem tem capacidade não é apenas uma questão de justiça individual — é uma decisão estratégica com impacto direto na economia, na governação e na estabilidade social.
Instituições fortes não se constroem com discursos.
Constroem-se com pessoas competentes, escolhidas por critérios claros.
E isso exige mais do que reformas formais.
Exige uma mudança cultural.
Exige que se rompa com a ideia de que “é assim que as coisas funcionam”.
Exige que se normalize a transparência.
Exige que se valorize, de forma consistente, quem entrega resultados.
Essa mudança não depende apenas de decisões políticas.
Depende também de escolhas individuais.
Do gestor que decide ser justo.
Do júri que recusa interferências.
Do cidadão que deixa de aceitar o “atalho” como norma.
São decisões pequenas, muitas vezes invisíveis —, mas que, acumuladas, têm o poder de redefinir um país.
Porque no fim, a qualidade de uma nação depende da qualidade dos critérios que utiliza.
Moçambique tem talento.
Tem capacidade.
Tem uma geração pronta para fazer mais e melhor.
O que falta, muitas vezes, não são pessoas qualificadas — são sistemas que as reconheçam.
E enquanto isso não mudar, o país continuará a mover-se — mas sem avançar.
A pergunta que este momento exige não é confortável, mas é inevitável:
queremos um país que funcione por relações — ou por competência?
A resposta não será dada em discursos.
Será dada nas decisões do dia a dia.
Nos concursos.
Nas nomeações.
Nos critérios — visíveis ou invisíveis — que moldam o funcionamento do Estado e da sociedade.
Porque é nesse ponto, quase imperceptível, que tudo começa.
Ou a avançar.
Ou a parar.
* Colunista e observador político moçambicanoEste artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 13 de Abril de 2026, na rubrica de opinião.
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