Amante caiu fatalmente do segundo andar — LEANDRO PAUL
O problema nunca começa no momento em que alguém cai. Começa muito antes.
Naquele 2. ° andar do prédio na avenida Eduardo Mondlane, em Maputo, os gritos já eram antigos.
Não vinham todos os dias, mas quando vinham, atravessavam paredes, chegavam ao rés-do-chão, entravam nas conversas dos vizinhos como uma rotina que ninguém mais estranhava.
Matavele era conhecido como homem difícil. Piorava quando vinha embriagado das barracas do Museu, ao amanhecer, após o trabalho.
Trabalhava como guarda nocturno, passava noites fora, dias em silêncio e carregava consigo um tipo de ciúme que não precisava de provas para existir.
Bastava beber e era porrada em casa, na certa.
A mulher, Helena, aprendera a viver entre o medo e a resignação.
Mas havia limites. E, como quase sempre, esses limites iam sendo ultrapassados em silêncio, muito antes de alguém perceber.
Cossa, 30 anos, não era um desconhecido.
Era um amigo da casa de há muito tempo, trazido pelo próprio Matavele.
Gostavam de ver juntos os jogos de futebol português, transmitidos por vezes pelos canais nacionais, enquanto esvaziam, uma atrás da outra, as garrafas de cervejas trazidas por Cossa, um mecânico com oficina própria e com algum dinheiro.
Não se sabe ao certo quando começou a visitar a casa do amigo, nas noites em que o dono da casa estava no trabalho. Nessas histórias, ninguém sabe. Ou ninguém quer dizer.
O que se sabe é que naquela madrugada em que tudo aconteceu, a porta estava fechada por dentro, no dia em que Matavele voltou mais cedo.
Dizem que o homem percebe tudo antes de ver. Talvez tenha sido o silêncio. Talvez tenha sido a forma como a casa parecia respirar diferente. Talvez tenha sido apenas o instinto.
Matavele entrou, embriagado como quase sempre.
Chamou pelo nome da mulher.
Não houve resposta.
Caminhou até ao quarto.
E abriu a porta.
Há momentos que não cabem em palavras.
A cama desfeita.
Os corpos expostos.
O tempo parado.
E, dentro da cabeça de Matavele algo que se partiu de forma irreversível.
Não gritou.
Não de imediato.
Ficou ali, parado, a olhar.
Como se ainda estivesse à espera de acordar de um sonho mau.
Mas não era sonho.
Era real.
E era seu.
Cossa foi o primeiro a reagir.
Saltou da cama, tentou explicar, tentou vestir-se, tentou ganhar tempo.
Mas não havia tempo.
Helena começou a chorar.
— Não é o que parece – tentou explicar.
Mas havia coisas que não precisam de explicação.
Matavele avançou.
Não com palavras.
Com o corpo.
Com a força de quem já tinha perdido o controlo.
A luta foi curta.
Confusa.
Feita de empurrões, quedas, tentativas de fuga.
Cossa ainda tentou correr. Saiu do quarto, atravessou a sala, tropeçou numa cadeira.
Matavele vinha atrás.
Sem pensar.
Sem medir.
Sem parar.
Quando chegaram à varanda, já não era uma discussão. Era sobrevivência.
Cossa tentou segurar-se à parede.
Matavele agarrou-o.
Houve um instante de suspensão.
Um segundo em que tudo podia ter sido diferente.
Mas não foi.
O corpo caiu.
Do segundo andar.
Directo para a rua.
O som fez calar o bairro.
As pessoas saíram de casa. Outras que estavam a caminho do serviço pararam para ver.
Alguém gritou.
Outro correu.
Mas, quando chegaram, já não havia nada a fazer.
Cossa estava imóvel.
Os olhos abertos.
Como se ainda estivesse a tentar perceber o que tinha acontecido.
Lá em cima, Helena chorava.
Mas já não era o mesmo choro.
Era um choro vazio.
Sem direcção.
Sem solução.
Matavele estava encostado à parede.
A respirar fundo.
Como quem regressa lentamente a si próprio.
Olhou para as mãos.
E percebeu, tarde demais, o que tinha feito.
A Polícia chegou. Fez perguntas. Recolheu versões. Algemou o suspeito.
Mas, no fundo, todos já sabiam o essencial.
Não tinha sido planeado.
Não tinha sido calculado.
Tinha sido um instante.
Um segundo.
O suficiente para acabar com uma vida.
E destruir várias outras.
Dias depois, o bairro voltou à rotina.
As pessoas continuaram a falar.
A comentar.
A julgar.
Como fazem sempre.
Mas, naquele prédio, ficou uma memória difícil de apagar.
A de um corpo a cair.
E a de uma verdade simples, mas dura.
Há quedas que não começam no segundo andar.
Começam muito antes.
Dentro de casa.
Dentro das pessoas.
E, quando finalmente acontecem, já ninguém consegue travá-las.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 27 de Abril de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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