Não foi enterrada, por falta de lobolo — LEANDRO PAUL
No cemitério de Lhanguene, o sol caía pesado sobre as cabeças e sobre as decisões.
O corpo de Melita estava dentro do caixão, pronto para descer à terra. As mulheres choravam em coro baixo, os homens falavam em grupos pequenos e o pastor já tinha aberto o Livro Sagrado, à espera do sinal para começar.
Mas o sinal não vinha.
Porque, naquele dia, a morte não era o maior problema.
O problema era a vida que tinha ficado por resolver.
Melita tinha morrido num acidente de viação, na estrada da Praia do Bilene. Ia no carro de Benedito, o homem com quem mantinha uma relação secreta há quase dois anos.
O carro despistou-se. O impacto foi seco. E a história que até então vivia escondida veio à superfície com a violência do acidente.
Benedito sobreviveu. Melita não.
No hospital, ainda antes de o corpo arrefecer por completo, já havia telefonemas cruzados, familiares a chegarem, perguntas a surgirem.
– Quem é ele?
– O que fazia com ela?
– Onde estava o marido?
Porque havia um marido.
Armando, o homem com quem Melita tinha construído uma vida oficial. Casa, filhos, nome, respeito. Tudo o que se mostra ao mundo quando se quer parecer inteiro.
Mas a vida raramente cabe apenas no que se mostra.
No cemitério, Benedito, o amante, estava presente.
Não se escondia.
Vestia uma camisa branca amarrotada e segurava uma toalha nas mãos, como quem não sabe onde colocar o próprio corpo.
Tinha os olhos vermelhos, não apenas de dor, mas de desgaste.
Nos últimos dias, não tinha dormido. Não tinha comido. Não tinha explicado nada a ninguém. Apenas sentia dores, no corpo e na alma.
E agora estava ali.
À vista de todos.
Foi quando o irmão de Armando avançou.
– Aqui não se enterra ninguém assim – disse, alto o suficiente para o silêncio cair sobre o cemitério.
As mulheres calaram-se.
O pastor fechou o livro.
Benedito levantou os olhos.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou, sem força.
– Quer dizer que, antes de a nossa familiar descer à terra, há coisas que têm de ser resolvidas.
A palavra que ninguém queria dizer apareceu finalmente.
Lobolo.
– A família dela não aceita este enterro enquanto não se cumprir o que é devido – continuou o homem.
– Vocês viveram como marido e mulher. Agora cumpra como homem.
Benedito ficou imóvel.
A acusação não era nova. Já tinha sido dita em casa, em voz mais baixa, mas com a mesma firmeza. Agora era pública.
Irrecusável.
– Eu… – tentou começar.
Mas não encontrou palavras.
Os murmúrios começaram.
– Ele sabia.
– Aproveitou-se.
– Agora que pague.
Do outro lado, alguns tentavam acalmar.
– Deixem enterrar a mulher.
– Depois resolvem isso.
Mas o momento já tinha passado do ponto de retorno.
Armando, o marido oficial, estava encostado a uma árvore.
Não falava.
Não gritava.
Apenas observava.
Havia no rosto dele algo mais pesado do que raiva.
Era uma mistura de humilhação e aceitação.
Como se já tivesse feito as contas dentro da própria cabeça e percebido que perdera muito antes daquele dia.
Benedito deu um passo em frente.
– Eu não vim aqui para discutir – disse, finalmente.
– Vim para me despedir.
– Então despeça-se como deve ser – respondeu alguém.
– Não como quem entra na vida dos outros pela porta de trás – disse outra voz, lá detrás.
A frase ficou no ar.
Dura.
Verdadeira para uns. Injusta para outros.
O pastor tentou intervir.
– Estamos aqui para um enterro…
– Não – cortou o irmão de Armando – Estamos aqui para fazer justiça.
Justiça.
A palavra soou estranha naquele lugar.
Porque ninguém ali sabia ao certo o que era justo.
Se era enterrar.
Se era exigir.
Se era calar.
Se era expôr.
Benedito passou a mão pelo rosto.
– Eu não tenho como pagar tudo isso agora – disse, quase em sussurro.
– Então não há enterro!
O corpo permaneceu ali.
Entre a terra e o céu.
Entre o passado e o que faltava resolver.
As horas passaram.
O sol desceu mais.
E, naquele cemitério, todos perceberam uma coisa que raramente se admite.
A morte não apaga a vida.
Apenas a expõe.
No fim, o enterro foi adiado.
O caixão voltou.
A família dispersou-se, dividida entre a dor e a exigência.
Benedito saiu em silêncio.
Armando ficou um pouco mais.
Olhou para a cova aberta, ainda vazia.
E disse, para ninguém em particular:
– Às vezes, não é a morte que complica tudo. É o que fica por enterrar antes dela.
E, naquele dia, não era apenas Melita que não tinha ido à terra.
Era toda uma história que ninguém soube fechar a tempo.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 27 de Abril de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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