Yango: quando a inovação avança mais rápido do que a segurança— ALFREDO MUCAVELA
O transporte por aplicativo surgiu em Moçambique como resposta a um problema bicudo e bem antigo: a escassez e a ineficiência, causada por falta de planificação estratégica do transporte urbano, causada por incompetência dos sucessivos governos.
A entrada do Yango em Maputo e Matola trouxe conveniência, rapidez e previsibilidade de preços, apesar de alguns motoristas, malandros, fazerem cobrança de preços altos fora do aplicativo. Contudo, à medida que o serviço se expande, cresce também a preocupação com a segurança dos utentes e a qualidade do modelo em vigor.
Nos últimos anos, vários órgãos de comunicação social têm reportado denúncias de assaltos, roubos e assédio alegadamente cometidos por motoristas associados à plataforma. Em Fevereiro de 2024, por exemplo, a imprensa noticiou casos de passageiras que denunciaram assalto e tentativa de violação durante viagens solicitadas via aplicativo, incluindo o relato de uma mulher grávida que afirmou ter sido atacada dentro da viatura. Em outro caso amplamente divulgado, uma passageira contou ter sido desviada para uma rua escura, onde o motorista teria usado máscara para lhe roubar dinheiro e telefone.
Embora a empresa afirme cooperar com as autoridades e disponha de mecanismos tecnológicos como GPS e botão de emergência, estes episódios expõem uma realidade desconfortável: a tecnologia não substitui fiscalização efectiva nem controlo permanente do comportamento humano. Na prática, a segurança continua excessivamente dependente da boa-fé dos motoristas e da capacidade de reacção após a ocorrência do dano.
Outro problema recorrente diz respeito ao estado das viaturas. Sendo um sistema baseado em motoristas parceiros, a frota revela uma falta de padronização preocupante. Veículos bem conservados circulam ao lado de outros visivelmente degradados, sobretudo nas categorias mais económicas, comprometendo não apenas o conforto, mas também a segurança. A ausência de inspeções técnicas regulares impostas pela plataforma agrava esta fragilidade. Por exemplo, solicitei um Yango, na quarta-feira, dia 29 de Abril, na avenida 24 de Julho. Apareceu-me um carro vulgo “xicova” muito “cansado”. A pintura da viatura estava muito velha e cadeiras gastas. Entrei no carro e sentei-me no banco de trás. O motorista pôs o carro em marcha e este abanava que nem um barco cavalgando altas ondas e emitia um barulho que sinalizava pura falta de manutenção.
A elevada disponibilidade de viaturas, frequentemente, apontada como um dos maiores trunfos do Yango, levanta igualmente uma questão de fundo: quantidade não pode substituir qualidade. A expansão acelerada, sem mecanismos robustos de fiscalização ou controlo e responsabilização, tende a gerar um serviço desigual e a fragilizar a confiança pública.
Os casos de violência não afectam apenas os passageiros. Também têm sido noticiados assaltos e assassinatos de motoristas de táxis por aplicativo, revelando que a insegurança atravessa toda a cadeia do serviço. Este contexto reforça a necessidade de uma abordagem mais séria, integrada e regulada.
O debate sobre o Yango não deve ser maniqueísta. O serviço trouxe ganhos reais à mobilidade urbana, mas a inovação não pode avançar à margem da segurança e da protecção dos cidadãos. Sem regras claras, fiscalização contínua e padrões mínimos exigidos, o risco é transformar uma solução moderna numa nova forma de informalidade digital.
A mobilidade do futuro exige mais do que aplicações eficientes. Exige responsabilidade, regulação eficaz e um compromisso inequívoco com a segurança dos utentes.
A mão fiscalizadora do Estado, que está em falta, é aqui chamada a por ordem neste projecto muito útil à sociedade, mas que caminha máquina causadora de frustração, dor e possivelmente, quem sabe! O futuro pertence a Deus.
É urgente encontrar soluções que beneficiem a todos, o público utente, os motoristas da Yango e os donos do aplicativo.
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Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 05 de Maio de 2026.
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