Tabu sobre cannabis sativa

Tabu na medicina: será a cannabis sativa uma fantasia de cura? – A cannabis é uma valiosa erva para o auxílio no tratamento de várias doenças de carácter mental

Vasco Felisberto Mabui tem 36 anos, desde a adolescência que consome substâncias entorpecentes, com maior enfoque para a cannabis sativa (vulgo soruma) porque sofria bullying na escola e essa terapia (drogar-se) atenuava a dor. Os anos foram passando, o vício ganhou força e ele acredita piamente que este tipo de produto alivia o stress mental.

Entende-se como bullying a prática de actos violentos, intencionais e repetidos, contra uma pessoa indefesa, que podem causar danos físicos e psicológicos às vítimas (a exemplo de Vasco Mabui). O termo surgiu a partir do inglês bully​, palavra que significa tirano, brigão ou valentão, na tradução para o português.

O jovem Mabui diz que enrola várias bolinhas de cannabis sativa por dia. “Não sei ao certo a quantidade, sou uma pessoa com uma elevada carga de stress mental e, às vezes, tenho surtos psicóticos, mas a soruma alivia tudo”, contou, defendendo que a posse e consumo deste tipo de estupefaciente para fins medicinais devem ser legalizados em Moçambique.

Pesquisas recentes sugerem que a planta da cannabis é uma valiosa erva para o auxílio no tratamento de várias doenças de carácter mental, que incluem, por exemplo, dores neuropáticas, depressão, glaucoma e distúrbios de movimento, bem como dores crónicas como câncer.

Essa planta é também um grande estimulante do apetite, especificamente para pessoas que sofrem do HIV/SIDA e algum tipo de demência.

consumidor de Cannabis sativa

Entretanto, quem não parece muito convencida com o “milagre” da soruma é a médica psiquiatra Rosel Salamão Pedro, directora do Serviço de Psiquiatria do Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade sanitária do país.

Numa entrevista ao Correio da manhã, a psiquiatra olha com reservas para o uso da cannabis sativa na terapia da saúde mental. “Não usamos este tipo de derivados, porque não há garantias de sucesso. Há vários estudos que divergem quanto ao seu uso para medicina e nós não arriscamos”, disse.

Embora admita que a soruma possa aliviar algumas dores crónicas, Rosel Pedro defende que é preciso cautelas no seu uso, pois o Sistema Nacional de Saúde (SNS) não tem nenhuma experiência neste tipo de terapia e ainda não houve nenhuma aproximação para o efeito.

Revelou que mais de 800 mil jovens foram internados nos serviços de psiquiatria do HCM em 2017, devido a surtos psicóticos (distúrbio mental), em causa o consumo excessivo de substâncias entorpecentes, com destaque para a cannabis sativa (Cm N.º 5262, págs. 1 e 2).

Para esta psiquiatra, muitos desses jovens, provavelmente, têm as mesmas “fantasias de cura” idealizadas por Vasco Felisberto Mabui, mas na prática o consumo de estupefacientes está a hipotecar o futuro de muitas gerações no país.

 

Primeiro uso da cannabis

Os registos históricos revelam que o primeiro uso medicinal da cannabis sativa foi há cerca de cinco mil anos, através de um botânico chinês que a prescrevia como cura da malária, beribéri, constipação, dores reumáticas, falta de concentração e várias outras condições.

Um outro ancião chinês descreveu a receita de um analgésico feito da mistura de resina da planta de cannabis e vinho.

Já no começo dos anos 90 do Século passado, o uso medicinal da cannabis sativa aumentou a sua popularidade no mundo, principalmente no Ocidente e, actualmente, pode ser comprada em farmácias com uma simples prescrição.

Porém, devido ao alto custo e opções limitadas, muitos pacientes preferem cultivar o seu próprio remédio.

Importa lembrar que em 1961 uma convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) determinou que as drogas pesadas fazem mal à saúde e o bem-estar da humanidade e, portanto, eram necessárias acções coordenadas e universais para reprimir o seu uso.

Contudo, a medicina moderna parece estar disposta a quebrar essa regra universal, a avaliar pelo crescente número de países que estão a legalizar o uso de estupefacientes (cannabis sativa, em particular) para fins medicinais. Em África, o vizinho Zimbabwe é que está mais próximo desse passo.

 

OMS reconhece

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS), após vários anos de estudos e recolha de provas sobre os benefícios do uso terapêutico da planta da cannabis, reconheceu o potencial medicinal da mesma e considerou que o seu consumo não apresenta qualquer perigo de dependência nem riscos para a saúde.

Um relatório preliminar do Comité Especialista em Dependência de Drogas (ECDD, sigla em inglês), divulgado em Dezembro de 2017, reviu positivamente as posições anteriores da OMS em relação a duas substâncias, nomeadamente, o opiáceo Carfentanil e o Canabidiol (CBD), um dos cerca de 100 componentes químicos da planta da cannabis sativa.

No relatório, a OMS recomenda alterações ao enquadramento destas duas substâncias nas listas que os países utilizam para regulamentar a produção, venda e consumo de drogas.

“A OMS reuniu provas científicas mais robustas sobre o uso terapêutico e os efeitos secundários da cannabis e dos seus componentes”, pode ler-se no relatório, consultado pelo Cm.

Assim, a OMS assumiu não só que o consumo é seguro, mas também que não cria risco de dependência, reconhecendo ainda que existem provas de estudos feitos em animais e em humanos que demonstram que o seu uso pode ter um alto valor terapêutico para as convulsões causadas pela epilepsia e outras condições semelhantes.

Além da epilepsia, esta organização tem ainda provas preliminares de que este tipo de planta também pode ser útil no tratamento do Alzheimer, cancro, psicoses, parkinson e outras doenças graves.

 

EDSON ARANTE

 

Este artigo foi publicado em primeira mão na versão PDF do jornal Correio da manhã, edição de 02 de Março de 2018

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