Uma alma caridosa — STÉLVIO MARTINS

Um adágio popularizado pela internet diz o seguinte: “não se deve julgar as pessoas pelo que fazem quando de nós, querem algo em troca, mas pelo que elas fazem quando não precisam de nós”.

Após o banho do terceiro dia (vide Redactor N° 7363, pág. 6), apareceu no momento da troca uma nova figura, um novo oficial de permanência. Óculos postos, sorriso no rosto, ouvia calmamente as acusações, olhava para nós, com condescendia. Cumprimentou-nos e privou com os colegas até ao momento em que fomos recolhidos à cela.

Meia hora depois, ouvi do outro lado da cela, a sua voz: — deram pão aos arguidos?

Achei que estivesse a delirar, aquela frase que denotava preocupação e cuidado. Soava estranha naquele local em que até ao momento éramos vistos como nada mais do que animais, que mereciam o abate. Não fiz caso. Devo ter ouvido mal — pensei.

Do lado de fora a voz insistiu: — comprem pão para os arguidos!

Entreolhamo-nos na cela. Estava claro de que eu não era o único incrédulo com tais palavras.

Pão! Haveria pão naquela manhã, aquele alimento é das pequenas coisas da vida de que muitas vezes não fazemos caso, mas que está tão presente no nosso dia-a-dia e nos mais sagrados livros, que é possível, através do pão traçar o percurso de diversas civilizações.

Pão! Teríamos o gosto de comer pão. O sangue já se fazia presente nas paredes, com o pão faríamos a nossa versão deturpada da Santa Ceia, enquanto cantávamos Avelino Mondlane de memória, beberíamos chá morno, que estava num dos termos que a mãe de um companheiro havia trazido e comeríamos pão-sem-nada, tal como Cristo o fez.

O pão veio, magro, duro, e vazio, mas era pão, e se calhar naquele momento, nem era pelo pão, era pelo que ele representava: humanismo.

Sobre este dia, não tenho muito a descrever, é complicado escrever sobre coisas boas, principalmente para um ser eminentemente vazio e triste como eu sou. Contudo, não poderia deixar de falar daquele senhor, cujo rosto nunca me vou esquecer. Naquele dia, fomos a casa-de-banho sempre que precisássemos, as garrafas mantiveram-se vazias, recebemos refeições condignas, e ninguém batia na porta quando lhe apetecesse… por um momento, nos sentimos pessoas…

©STÉLVIO MARTINS *

* Um humilde silencista

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 28 de Julho de 2026, na rubrica OPINIÃO.

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