Em vez do marido, envenenou o filho — LEANDRO PAUL
Na zona conhecida por Matlotlomane, no bairro da Mafalala, na cidade de Maputo, ninguém esquece o dia em que a casa de Ana Massango ficou em silêncio.
Não foi um silêncio comum.
Foi daqueles que fazem as vizinhas falar mais baixo e os homens evitarem parar à porta.
O menino tinha onze meses.
Chamava-se Paulo.
Era o primeiro e único filho de Ana e de Armando Abílio, um casal que, durante muito tempo, parecia apenas mais uma família a tentar sobreviver com pouco, como tantas outras.
Mas por trás daquela aparência, havia um desgaste que crescia devagar.
Armando passava muitas horas fora de casa. Dizia que trabalhava muito. Dizia que procurava melhores condições. Dizia muitas coisas. No bairro, porém, começou a correr outra versão.
Havia uma outra mulher.
Ana não precisava de confirmação.
As ausências do marido, os atrasos, o silêncio entre os dois, tudo isso falava mais alto do que qualquer palavra. O casamento começou a encolher dentro da própria casa.
E quando um casamento começa a encolher, há sempre alguém que fica sem espaço para respirar.
Ana deixou de sorrir.
Passava mais tempo calada. Olhava para o filho com uma ternura que parecia também um pedido de desculpas por alguma coisa que ninguém entendia.
— Ela já não era a mesma — comentou uma vizinha.
Num desses dias, Ana saiu de casa.
Disse que ia resolver um assunto. Não explicou qual. Caminhou até um curandeiro conhecido em Marracuene. Levava consigo uma pergunta que não dizia em voz alta.
Queria resolver o problema do marido.
Queria acabar com aquilo que lhe consumia a vida.
Voltou para casa com um pequeno embrulho.
Nada de extraordinário aos olhos de quem a visse entrar. Apenas mais um objecto entre tantos que passam de mão em mão nos bairros, sem levantar suspeitas.
Nessa tarde, a rotina parecia normal.
O sol caía devagar. As crianças brincavam no quintal. O cheiro da comida espalhava-se pelas casas vizinhas. Ana preparou a refeição como sempre fazia.
Armando ainda não tinha chegado.
O menino estava por perto.
E foi aí que o destino decidiu não pedir licença.
Ana afastou-se por instantes.
Não viu quando o pequeno Paulo se aproximou do prato. Não percebeu o gesto inocente de uma criança que apenas imita o mundo à sua volta.
Quando voltou, já era tarde.
O menino estava no chão.
Não houve gritos imediatos. Houve primeiro um instante de negação, como se o corpo recusasse aceitar o que os olhos estavam a ver.
Depois veio o desespero, ao ver a pobre a espumar pela boca.
Chamaram ajuda. Tentaram socorrer. Correram com a criança nos braços, atravessando o bairro como se a velocidade pudesse alterar o que já estava feito.
Mas há momentos em que a vida se afasta mais depressa do que qualquer socorro consegue chegar.
Quando Armando soube, não acreditou.
— Ela não faria isso — repetia.
Mas a história começou a desenhar-se com uma clareza cruel.
Ana confessou.
Disse que não era o filho o alvo.
Disse que o que tinha preparado era para o marido.
Disse que estava cansada.
Disse que não pensou.
Nenhuma dessas frases conseguiu diminuir o peso do que tinha acontecido.
No bairro, as opiniões dividiram-se.
Uns culparam a traição.
Outros culparam a pobreza.
Houve quem falasse de feitiço, de desespero, de loucura.
Mas ninguém conseguiu devolver o que se perdeu.
Depois do enterro, Ana desapareceu.
Saiu de casa sem dizer para onde ia. Deixou para trás as paredes, os vizinhos, a vida inteira. Como se fugir pudesse apagar o que a memória insiste em guardar.
Armando ficou.
Ficou com o silêncio da casa.
Ficou com os brinquedos que ninguém mais tocaria.
Ficou com perguntas que não têm resposta.
— Eu ainda queria entender — disse ele, dias depois, com a voz cansada.
Mas há coisas que não se explicam.
Na zona de Matlotlomane, o caso ficou como uma história que ninguém gosta de contar até ao fim.
Porque todos perceberam uma coisa simples e assustadora:
Às vezes, não é o ódio que destrói uma família.
É o desespero.
E o desespero, quando cresce em silêncio dentro de uma casa, pode transformar um gesto num erro irreversível.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 30 de Março de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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