O último baptismo do bispo — LEANDRO PAUL

O mar estava estranhamente calmo naquela manhã.

As primeiras luzes do sol pintavam de dourado a praia de Xai-Xai, enquanto um pequeno grupo de crentes caminhava em silêncio pela areia.

Uns levavam bíblias gastas pelo tempo. Outros cantavam baixinho hinos que se confundiam com o som das ondas.

À frente seguia o bispo Zandamela.

Era um homem alto, de voz firme, conhecido entre os fiéis da Igreja por realizar baptismos no mar.

Dizia que a água corrente levava consigo os pecados, as dores e as sombras da vida antiga.

Naquele dia, uma mulher de trinta e seis anos esperava pelo momento que acreditava mudar-lhe a existência.

Chamava-se Marta.

Vestia uma túnica branca emprestada pela igreja e caminhava descalça sobre a areia húmida.

O rosto revelava nervosismo, mas também uma esperança difícil de esconder.

Hoje renasces – disse-lhe o bispo, sorrindo.

Ela baixou a cabeça.

É tudo o que eu mais desejo.

Pouco depois, os dois entraram na água.

Os outros crentes permaneceram junto à praia, formando um círculo de oração.

O bispo levantou as mãos para o céu. Começou a orar.

A voz ecoava sobre o mar tranquilo. Depois pediu à Marta que fechasse os olhos.

Não tenhas medo.

Ela respirou fundo. A água já lhe chegava ao peito.

O bispo colocou uma mão sobre a cabeça da mulher.

Preparava-se para mergulhá-la quando uma onda mais forte rebentou contra ambos.

Marta perdeu o equilíbrio. Tentou agarrar-se ao bispo. Ele também escorregou.

Durante alguns segundos, desapareceram sob a água.

Os fiéis continuaram a cantar. Pensaram que fazia parte do ritual.

Mas os segundos começaram a transformar-se em minutos.

Foi então que alguém gritou.

Eles não voltam!

Hermínio, um dos crentes, atirou a túnica para a areia e correu para o mar.

Nadou com todas as forças. Encontrou primeiro a Marta. Estava quase inconsciente.

Conseguiu puxá-la até uma zona menos funda.

Voltou imediatamente para procurar o bispo.

Encontrou-o alguns metros mais longe, completamente imóvel.

Com a ajuda de outros homens, arrastou-o para a praia. Tentaram tudo.

Massagens no peito. Respiração boca-a-boca. Orações.

Chamaram pelo nome dele.

Nada.

O mar devolvera apenas um corpo com vida.

Enquanto alguns tentavam salvar o bispo, Marta ainda respirava.

Muito fracamente.

A barriga estava inchada de tanta água. Os olhos permaneciam fechados.

Uma mulher ajoelhou-se ao seu lado.

Aguenta, irmã.

Outra crente, a seu lado, disse:

Deus poupou-te!

Mas, pouco tempo depois, o corpo deixou de responder.

Ela também acabou por partir.

A praia mergulhou num silêncio pesado.

Os cânticos cessaram.

As pessoas olhavam umas para as outras sem compreender.

Como podia um lugar escolhido para simbolizar uma nova vida transformar-se, de repente, num cenário de morte?

Mais tarde, quando a notícia chegou à cidade, começaram as perguntas.

Uns diziam que tudo acontecera por causa das correntes.

Outros afirmavam que o mar estava mais bravo do que parecia.

Houve quem acusasse o diabo de ter vindo buscar a alma do bispo. Por ele andar a fazer bom trabalho evangélico em Xai-Xai.

– O demónio não gosta! – justificaram.

Houve ainda quem recordasse que aquele não era o primeiro incidente durante baptismos naquela praia.

Hermínio, o crente que resgatou os corpos, ainda abalado, não conseguia esquecer o momento em que mergulhara.

Quando cheguei até eles, já estavam sem forças. Fiz tudo o que pude mas já era tarde.

Dias depois, surgiram outras histórias.

Alguns crentes recordavam uma conversa antiga do bispo.

Numa ocasião, depois de um baptismo difícil, ele comentara em tom de desabafo:

Tenho medo que um dia o mar leve um de nós.

Ninguém dera importância. Parecia apenas uma frase dita ao acaso.

Agora ganhava um peso diferente.

A família de Marta recusava-se a aceitar que tudo tivesse sido apenas um acidente.

Para eles, havia perguntas sem resposta. Porque ninguém chamara ajuda mais cedo?

Porque continuaram o ritual quando perceberam que a água estava agitada?

As dúvidas cresceram.

Mas as respostas nunca chegaram.

Não foi realizada autópsia aos corpos.

A Medicina Legal não foi chamada para esclarecer as verdadeiras causas das mortes.

O tempo passou.

As ondas continuaram a quebrar na mesma praia.

Outros baptismos voltaram a realizar-se.

Outras pessoas entraram naquela água acreditando que dela sairiam renovadas.

Mas quem esteve ali naquela manhã nunca mais olhou para o mar da mesma maneira.

Hermínio regressou muitas vezes àquela praia.

Sempre que passava pelo mesmo lugar, parava alguns minutos em silêncio.

Não orava.

Não falava.

Apenas escutava o mar.

Porque compreendera uma verdade que nunca esqueceria.

A fé pode levar uma pessoa até à água.

Mas é a prudência que a traz de volta à margem.

E, naquela manhã em Xai-Xai, entre cânticos, orações e esperança, o mar acabou por guardar para sempre o pastor que guiava o rebanho…e a mulher que acreditava estar apenas a começar uma vida nova.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de  20 de Julho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *