Quando emigrar deixa de ser uma escolha— RAFAEL NAMBALE

Há frases que ficam connosco. Não porque sejam brilhantes, mas porque nos obrigam a olhar de novo para uma realidade que já dávamos por adquirida.

Foi o que me aconteceu ao ouvir, há dias, o filósofo Severino Ngoenha, durante uma intervenção num podcast realizado em Maputo. A certa altura, deteve-se numa expressão que ouvira num contexto de mobilidade laboral: “exportar moçambicanos”.

Disse que aquela palavra o incomodava. Enquanto o escutava, percebi que também me devia incomodar.

Exportam-se produtos. Exportam-se mercadorias. Mas quando começamos a falar de pessoas com a mesma linguagem, percebemos que certas palavras transportam uma memória que o tempo não apaga. A História não se repete da mesma forma, mas deixa vestígios na linguagem e na forma como olhamos o mundo.

Não creio que o essencial da reflexão de Severino Ngoenha estivesse na palavra.

Estava na pergunta que ela nos obriga a fazer.

O que acontece a um país quando emigrar deixa de ser uma escolha?

Vale a pena responder sem precipitação.

Migrar nunca foi um problema. Os povos sempre partiram para estudar, trabalhar, amar, conhecer outros lugares ou simplesmente recomeçar. A mobilidade faz parte da experiência humana.

O problema começa quando partir deixa de ser um projecto de vida e passa a ser uma estratégia de sobrevivência.

É aí que a conversa deixa de ser sobre quem recebe os emigrantes e passa a ser sobre quem os vê partir.

Durante anos habituámo-nos a discutir os destinos dos moçambicanos. Falamos de Portugal, da África do Sul, dos salários, da xenofobia, das dificuldades de integração. Tudo isso importa.

Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada.

Antes de sabermos como vivem os nossos emigrantes, devíamos perguntar por que razão tantos deixaram de acreditar que podem construir o futuro aqui.

Nenhum país consegue impedir os seus cidadãos de emigrar. Nem deve tentar. A liberdade inclui também o direito de partir.

Mas um país digno desse nome tem a responsabilidade de oferecer uma alternativa credível à partida.

Essa alternativa começa pela confiança.

Confiança de que o esforço será recompensado. De que o mérito encontrará espaço. De que trabalhar valerá a pena. De que o futuro não dependerá inevitavelmente de um visto ou de uma fronteira.

É dessa confiança que nasce a esperança.

Talvez por isso a maior riqueza de uma nação raramente esteja debaixo da terra. Está nas pessoas. Nos jovens que terminam os estudos cheios de projectos, nos professores que continuam a ensinar, nos agricultores que persistem, nos profissionais de saúde, nos empreendedores, nos artistas, em todos aqueles que desejam apenas uma oportunidade para construir a vida na terra onde nasceram.

Quando esse capital humano parte por falta de perspectivas, não perdemos apenas trabalhadores.

Perdemos confiança em nós próprios.

E talvez tenha sido essa a inquietação que mais retenho da intervenção de Severino Ngoenha. Não a de saber quantos moçambicanos emigraram ou emigrarão, mas a de compreender por que razão tantos imaginam o futuro sempre do outro lado da fronteira.

Essa pergunta não interpela apenas os governantes.

Interpela-nos a todos.

Porque construir um país onde valha a pena ficar é, antes de tudo, uma responsabilidade coletiva.

No fim de contas, as nações não se medem apenas pela riqueza que produzem.

Medem-se, sobretudo, pela confiança que conseguem inspirar nos seus próprios filhos.

Porque nenhum jovem deveria sentir que, para encontrar o futuro, precisa primeiro de abandonar a terra onde aprendeu a sonhar

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 05 de Agosto de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

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