O paradoxo do cepticismo: quando a negação de Deus revela uma ferida — JOÃO RIBEIRO

O que realmente leva alguém a negar a existência de Deus? Esta é uma reflexão que me ocorre com frequência.

A descrença em um Ser único e soberano — capaz de originar e sustentar a imensidão do universo — é um fenómeno complexo, alimentado por múltiplos factores.

Contudo, ao olhar mais de perto para o ceticismo contemporâneo, torna-se evidente que nem todas as razões da descrença residem na lógica pura.

​Infelizmente, muitos encontram o fundamento do seu ateísmo na própria limitação humana. Há uma dificuldade natural em compreender a vastidão de um Deus que ultrapassa a nossa capacidade cognitiva. Em resposta a isso, vê-se, amiúde, quem celebre a formulação de perguntas aparentemente imbatíveis, usando as lacunas da razão humana como uma espécie de ”prova” definitiva da inexistência divina.

​No entanto, ao observar os relatos e actitudes de muitos que se declaram descrentes, sobressai um elemento quase invisível no debate puramente intelectual: um profundo descontentamento. Não é raro ver a negação mascarar uma dor causada por uma percepção de injustiça. O argumento habitual é o de que não faz sentido um Deus soberano permitir certas adversidades no mundo. Mas essa própria acusação encerra um paradoxo fascinante — afinal, como se pode culpar e responsabilizar um Deus cuja existência se nega?

​O cinema já retratou esta tensão com mestria. Obras como Deus Não Está Morto e Uma Entrevista com Deus servem como verdadeiras escolas de reflexão sobre o tema. Este último, em particular, ilustra com precisão a jornada de um homem outrora devoto que se revolta contra o Criador ao passar por uma tragédia pessoal — incapaz de aceitar que a sua dedicação não o blindou da dor.

​Exemplos como este levam-me a crer que uma parcela significativa daqueles que dizem não acreditar em Deus está, na verdade, profundamente frustrada com Ele. Interpreta-se o sofrimento como injustiça e a ausência de uma intervenção milagrosa como prova de inexistência.

​Talvez o grande desafio da fé na sociedade atual seja a exigência de uma maturidade maior. A verdadeira fé convida-nos a crer em Deus pela Sua essência — por Quem Ele é —, e não apenas pelo que Ele faz ou pelas expectativas que gostaríamos de ver cumpridas.

©JOÃO RIBEIRO *

*   Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias

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