A quem interessa dividir homens e mulheres?— STÉLVIO MARTINS

Raramente escrevo sobre este tema, pela sua sensibilidade. Mas não posso ignorar quando a palavra — instrumento de construção — passa a ser usada para disseminar narrativas que fragmentam.

Moçambique, marcado por fragilidades económicas, crescimento lento do Índice de Desenvolvimento Humano, desemprego elevado e um quadro legal ainda em consolidação, tornou-se terreno fértil para a actuação de Organizações Não Governamentais (ONGs) e Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Muitas cumprem missões relevantes. Outras, porém, acabam por importar agendas e discursos que pouco dialogam com a nossa realidade e, em certos casos, fomentam divisão.

A importação acrítica de conceitos é evidente. O Brasil tipificou o feminicídio em 2015 para suprir lacunas legais. Entre nós, o termo — ausente do ordenamento jurídico e do uso normativo da língua — foi rapidamente incorporado ao discurso público como se fosse indispensável. Mas a questão central é: corresponde isso à realidade moçambicana?

Dados do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) – Gabinete das Nações Unidas para as Drogas e o Crime e da Organização Mundial da (OMS) indicam que Moçambique apresenta uma taxa de homicídios entre 3,5 e 5,0 por 100.000 habitantes, abaixo da média da África Austral.

Como no resto do mundo, os homens constituem a maioria das vítimas de homicídios, representando cerca de 75% a 80% no continente africano. Estes números não negam a existência de violência contra mulheres, mas exigem rigor na sua leitura e enquadramento.

Ainda assim, certos discursos insistem em interpretar crimes individuais como manifestações de uma alegada violência sistémica masculina. Um exemplo recente foi a descrição de um crime hediondo contra uma criança de oito anos como resultado de “violência machista”.

Trata-se de um enquadramento que ultrapassa a descrição factual e introduz uma leitura ideológica: transforma um criminoso concreto num símbolo de uma suposta culpa coletiva.

Como observa Rui Lamarques, há uma deriva discursiva que começa por denunciar indivíduos e termina por suspeitar de todos os homens. O efeito é perverso: em vez de mobilizar aliados naturais na protecção de mulheres e crianças, cria-se um ambiente de desconfiança e afastamento.

Quando a responsabilidade deixa de ser individual e passa a ser atribuída a um grupo inteiro, a justiça cede lugar à divisão. E isso levanta uma questão inevitável: quem beneficia dessa fractura social?

Parte da resposta pode estar no funcionamento de certos ecossistemas institucionais. Primeiro, a lógica do financiamento internacional, que frequentemente privilegia narrativas alinhadas com debates ocidentais, incentivando a adopção de terminologias e enquadramentos que aumentem a “visibilidade” dos problemas.

Segundo, a transformação do conflito em activo: cenários polarizados geram relatórios, projectos e financiamento.

Terceiro, a erosão dos aliados naturais — homens comuns que, ao serem tratados como suspeitos à partida, deixam de ser envolvidos na solução.

Nada disso diminui a gravidade da violência real que existe e deve ser combatida com firmeza. Mas combater a violência não exige a criação de antagonismos artificiais. Exige instituições eficazes, justiça célere e uma narrativa que una comunidades.

Num país onde a sobrevivência quotidiana já impõe desafios profundos, homens e mulheres partilham as mesmas dificuldades e dependem, historicamente, da coesão social. É esse capital que não pode ser corroído por discursos que transformam cooperação em conflito.

A palavra deve servir para aproximar e construir. Quando passa a etiquetar, dividir e alimentar agendas alheias à realidade local, deixa de ser instrumento de libertação para se tornar mais uma forma de exploração.

STÉLVIO MARTINS *

* Um humilde silencista

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 04 de Agosto de 2026, na rubrica OPINIÃO.

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