Caiu do 6° andar e não morreu — LEANDRO PAUL

(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997–2007. Imagem ilustrativa.)

Quando o senhor Cossa chegou ao carro, a primeira coisa que viu foi o vidro partido. Depois olhou para o tejadilho. Ficou parado, com a chave na mão.

O Opel Kadett estava estacionado onde o deixara, junto de um prédio do Alto-Maé. Mas alguém ou alguma coisa lhe esmagara a parte de cima, amolgara a chapa e destruíra o pára-brisas.

Um pequeno grupo conversava ali perto. Cossa aproximou-se.

– O que aconteceu ao meu carro?

Uma mulher apontou para cima. Ele levantou a cabeça. Olhou para as janelas. Para as varandas. Para os últimos pisos.

– Caiu uma coisa?

A mulher hesitou.

– Uma criança.

Ginho tinha cerca de 13 anos e vivia nas ruas de Maputo. Quem passava pelo Alto-Maé podia encontrá-lo perto dos contentores, junto das barracas ou parado à porta de uma casa, à espera de que alguém lhe desse comida.

Não tinha uma hora certa para comer. Havia dias bons e outros nem por isso. Uma senhora guardava-lhe um prato com restos de comida. Alguém lhe dava pão seco. Um empregado de barraca deixava-o levar o que sobrara numa panela.

Nos outros dias, procurava. Aprendera onde deitavam fora a comida, quem costumava mandar vir mais do que conseguia comer e quais eram as portas onde ainda valia a pena bater.

Também conhecia as respostas.

– Hoje não há nada.

– Volta mais logo.

– Sai daqui.

Ginho afastava-se. Depois tentava noutro lugar. A cidade era grande, mas a fome obrigava-o a fazer sempre os mesmos caminhos.

Naquela noite, encontrou uma maneira de chegar a um terraço onde havia coisas para comer e beber. Tinha lá havido uma festa.

Do sexto andar, o bairro parecia diferente. As pessoas lá em baixo eram pequenas. Os carros passavam devagar entre as luzes. Das casas vinham vozes, música e o som das televisões. Mas Ginho não estava ali para apreciar a vista. Tinha fome. Aproveitara o acesso pelo prédio e conseguira entrar no espaço de uma residência.

Procurou comida. Depois encontrou cerveja. Havia um garrafão com resto de vinho. Comeu e bebeu. Durante algum tempo, deixou de se preocupar com a rua, com o sítio onde dormiria e com a necessidade de continuar à procura de qualquer coisa.

Mas o álcool começou a fazer efeito. E Ginho tinha treze anos. Pouco habituado a beber daquela maneira.

O terraço ficava no sexto andar. Mais tarde, ninguém conseguiria dizer exactamente o que lhe passou pela cabeça. Talvez tivesse ouvido alguém e se assustasse. Talvez procurasse uma saída. Talvez, embriagado, já não percebesse bem onde estava.

Aproximou-se do muro de protecção. Tentou transpô-lo. E caiu.

O corpo atravessou o espaço entre o sexto andar e a rua, até atingir o Opel Kadett estacionado junto do prédio. O estrondo fez as pessoas se virarem. Uma mulher gritou. Alguém saiu de uma barraca. Outra pessoa aproximou-se a correr.

Durante alguns segundos, ninguém percebeu de onde viera aquele corpo. Depois olharam para cima.

Mariana foi uma das pessoas que se aproximaram. Viu o menino caído sobre o carro. Reconheceu-o. Era Ginho. O mesmo rapaz que às vezes andava por ali à procura de comida. Agora estava imóvel, no meio da chapa amolgada e dos vidros.

– Ajudem! – gritou.

Um homem aproximou-se mais. Outro pediu que não lhe mexessem. Todos falavam ao mesmo tempo. Alguém dizia que estava morto. Outra pessoa insistia que ainda respirava.

Mariana olhava para o corpo, sem conseguir imaginar como uma criança podia cair daquela altura e continuar viva.

Os minutos passaram. Ginho não se levantava. Os presentes procuravam perceber se tinha alguma ferida, se perdera sangue, se conseguia ouvi-los.

– Menino?

Não respondeu.

– Ginho?

Cerca de dez minutos depois, mexeu-se. Um dos homens recuou. Ginho abriu os olhos, demorou um pouco a olhar à sua volta e tentou erguer o corpo.

– Não te mexas!

Mas já estava a levantar-se. As pessoas estenderam as mãos para o segurar. Ele afastou-as. Desceu do carro, pôs os pés no chão e ficou por um instante diante de todos.

Mariana esperou que caísse outra vez. Um rapaz perguntou-lhe se estava bem. Ginho não respondeu. Começou a correr. Dois homens ainda foram atrás dele, mas não o encontraram mais. O menino contornou um carro, atravessou a rua e desapareceu entre as casas.

Foi essa a história que Cossa ouviu junto do seu Opel Kadett.

– Mas onde está o rapaz?

Ninguém sabia.

– Levaram-no ao hospital?

Também não.

Ele passou a mão pela chapa do carro, sem tocar nos vidros partidos. Teria de comprar o pára-brisas. O tejadilho precisava de reparação. E havia ainda a amolgadela na parte da frente.

– Vai custar-me bastante dinheiro.

A forma como o carro estava destruído não lhe permitia acreditar que Ginho saíra dali sem ferimentos.

Quando reapareceu na zona, dias depois, houve quem pensasse estar a confundi-lo com outro rapaz. Chamaram-no. Ele virou-se. Era mesmo o Ginho. Andava normalmente. Não trazia gesso, não usava canadianas e não tinha qualquer lesão visível.

Uma mulher mandou-o aproximar-se. Queria saber onde lhe doía. Ginho encolheu os ombros. Perguntaram-lhe se fora ao hospital. Não tinha ido. Disseram-lhe que precisava de ser examinado. Ele ouviu, inquieto, olhando para os lados. Pouco depois, afastou-se.

Quem o conhecia continuou a encontrá-lo nos lugares habituais. Perto das barracas. Junto das esquinas. À procura de comida.

Durante algum tempo, passou a ser o menino que caíra do sexto andar. As pessoas chamavam outras para o ver.

– É aquele.

Olhavam-no de cima a baixo, procurando uma marca que confirmasse o caso. Ginho deixava-se observar por alguns segundos. A queda dera-lhe uma história que os outros contavam. Tinha sobrevivido à distância entre um sexto andar e o chão. Agora voltava a fazer, a pé, o caminho entre uma porta e outra.

– Tem alguma coisa para comer?

E esperava.

E as respostas eram quase sempre as mesmas:

– Hoje não há nada.

– Volta mais logo.

– Sai daqui.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 02 de Novembro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Setembro/Outubro de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *