Castigo impiedoso — LEANDRO PAUL
No bairro de Chamanculo, começaram por rir.
Quando ouviram a história pela primeira vez, ninguém levou a sério. Diziam que era exagero. Diziam que era conversa de esquina, daquelas que crescem mais depressa do que a verdade.
— Isso não pode ser — comentou um homem na barraca — É invenção.
Mas o nome repetia-se.
Ananias Nhantumbo.
Tinha pouco mais de 30 anos e trabalhava numa organização não governamental. Não era um homem particularmente respeitado, mas também não era conhecido por problemas graves. Passava despercebido.
Até aquele dia.
A história começou longe, no Norte. Em Cabo Delgado. No distrito de Montepuez.
Falava-se de uma jovem que Ananias conhecera durante uma temporada de trabalho. Uma rapariga simples, dessas que confiam mais do que deviam.
Segundo se dizia, ele prometera ajuda, prometera dinheiro, prometera coisas que nunca teve intenção de cumprir. Até mesmo casamento. De ela ir viver com ele em Maputo.
Com essas promessas, ele nunca dormiu sozinho. Nem uma única noite. Durante todo o tempo que lá esteve.
Depois desapareceu. Nem bilhete deixou. E mudou de número de celular.
Para muitos, era apenas mais um caso de irresponsabilidade.
Mas, semanas depois, Ananias começou a mudar. Uma parte do corpo começou a aumentar. Demais.
No início eram apenas queixas vagas. Dizia sentir um desconforto estranho no corpo. Um peso por dentro das calças que não sabia explicar. Uma inquietação que não o deixava dormir.
— Deve ser doença — aconselharam-lhe.
Mas ele não acreditava.
— Isto não é doença — respondia — Isto é outra coisa. Cada dia que passa aumenta mais.
A palavra não era dita logo.
Mas estava lá: Feitiço.
Foi a primeira vez que procurou um curandeiro.
Sentou-se diante dele e contou tudo. Não apenas os sintomas, mas também a história que o seguia como uma sombra. O encontro com a jovem. As promessas. O abandono.
O curandeiro ouviu em silêncio. Pediu para ele abaixar as calças.
Depois disse apenas:
— Há coisas que não ficam sem resposta.
Ananias saiu dali mais assustado do que entrou.
Nos dias seguintes, o medo cresceu.
Mesmo as cuecas já não lhe serviam como antes. Eram pequenas demais para aguentar o novo tamanho.
Deixou de ser apenas uma sensação. Era agora uma certeza. Passava horas a observar, no espelho, o próprio corpo, como se esperasse ver sinais visíveis daquilo que o atormentava por dentro.
Cada pequeno desconforto, cada aumento de tamanho, transformava-se em prova.
Cada mudança, por mínima que fosse, ganhava um significado maior.
— Estão a fazer-me mal — começou a dizer.
Voltou a outro curandeiro. E depois a outro.
Cada um tinha uma explicação diferente, mas todos apontavam para o mesmo lugar: ele próprio.
— Fizeste mal a alguém — disse um deles — E esse mal voltou para ti.
A partir daí, Ananias deixou de viver em paz.
Já não saía como antes. Evitava encontrar pessoas. Falava sozinho. Passava noites sem dormir, preso a pensamentos que não conseguia controlar.
Os amigos começaram a afastar-se.
— Ele já não está bem — diziam.
A ONG instaurou-lhe um processo disciplinar por abandono do lugar. Havia mais de um mês que não aparecia no trabalho. Nem respondia sequer aos e-mails ou mesmo às chamadas dos recursos humanos.
Mas ninguém se aproximava o suficiente para perceber que não era apenas o corpo que o preocupava.
Era a culpa.
Uma culpa que não tinha nome nas conversas, mas que aparecia nos silêncios.
A história espalhou-se pelo bairro todo. Não havia quem não conhecesse o caso de Ananias.
Cada pessoa acrescentava um detalhe novo. Uns diziam que era castigo. Outros que era imaginação. Outros ainda que era justiça.
Homens e mulheres, ao se cruzar com ele, olhavam logo para debaixo da cintura, para ver em que tamanho agora estava.
Foi quando Ananias passou a cobrir as calças com uma capulana.
Numa tarde quente, entrou em casa da mãe e sentando-se no chão, mostrou-lhe o inexplicável.
— Estão a fazer-me isto — disse, quase em sussurro.
A mãe olhou para aquilo com um misto de medo e tristeza. Ela que havia conhecido o tamanho do pai nunca havia visto nada igual.
— Quem?
Ananias não respondeu.
Porque, no fundo, sabia.
Nos dias que se seguiram, a situação agravou-se.
Já não comia bem. Já não falava com clareza. Vivia fechado num círculo de pensamentos que só ele entendia.
E, quanto mais acreditava, mais aquilo crescia dentro dele.
Não no corpo.
Mas na mente.
Até que um dia desapareceu.
Alguns dizem que foi para longe, procurar outro curandeiro. Outros dizem que voltou a Montepuez, tentar resolver o que começou. Há quem diga que simplesmente fugiu de si próprio.
Ninguém sabe ao certo.
No bairro de Chamanculo, a história ficou.
Não como uma prova de feitiço.
Mas como um aviso.
Porque todos perceberam uma coisa, ainda que ninguém a diga em voz alta: Às vezes, não é o feitiço que destrói um homem.
É o que ele sabe que fez.
E há culpas que, quando encontram silêncio, crescem.
Crescem até ocupar tudo.
Até já não deixar espaço para mais nada.
Nem para a verdade.
Nem para a paz.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 13 de Abril de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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