Desgraçado por mil meticais — LEANDRO PAUL

Quando Sílvio acabou o biscate naquele domingo, tudo o que queria era chegar cedo a casa.

Trazia no bolso mil meticais, o pagamento de um pequeno serviço que fizera para complementar o salário. O dinheiro mal chegava para comprar farinha, óleo e peixe seco para a semana toda.

Ainda assim, caminhava satisfeito. Pela primeira vez em muito tempo, teria dinheiro suficiente para não ouvir reclamações em casa, sobretudo vindo dos sogros, em casa de quem ainda vivia.

Mal entrou no quintal, percebeu que alguma coisa estava errada. A mulher não o esperava à porta, como era habitual.

Quem lá estava era a sogra.

Sentada num banco de madeira, observava-o com um olhar duro, quase acusador.

Finalmente apareceste!

Sílvio respondeu apenas com um aceno. Pensou que seria mais uma discussão qualquer.

Ultimamente, parecia que tudo o que fazia desagradava à velha. Se chegava cedo, era porque não trabalhava o suficiente. Se chegava tarde, era porque andava com outras mulheres.

Se comprava comida, perguntavam onde escondera o resto do dinheiro.

Entrou em casa.

Não teve tempo sequer de pousar a mochila com as ferramentas.

A mulher aproximou-se.

Onde está o dinheiro?

Sílvio ficou surpreendido.

Que dinheiro?

Não mintas. Disseram-nos que recebeste muito dinheiro hoje.

Sílvio explicou que o dinheiro era para pagar dívidas e comprar comida.

Mas ninguém quis ouvir.

A sogra levantou-se.

A minha filha não vai passar fome, enquanto tu escondes dinheiro!

A discussão transformou-se em gritos.

Os vizinhos começaram a aproximar-se.

Num instante, o sogro apareceu empunhando um velho tubo de canalização.

Sílvio ainda tentou recuar.

A primeira pancada atingiu-o na cabeça.

A segunda apanhou-o no ombro.

Cambaleou.

Tentou proteger-se com os braços.

Caiu ao chão.

Foi então que a sogra se lançou sobre ele.

Com uma força que ninguém imaginava existir, numa mulher daquela idade, mordeu-o entre as pernas.

Sílvio soltou um grito que ecoou por toda a rua.

Sentiu os dentes da velha sobre os testículos.

Ela puxava com toda a força, como se quisesse arrancá-los do corpo.

A dor foi tão intensa que lhe roubou o ar.

Os homens que assistiam à cena demoraram alguns segundos a reagir.

Quando finalmente conseguiram afastá-la, Sílvio estava coberto de sangue, com a camisa rasgada e a cabeça aberta.

E uma dor infinita no meio das pernas.

Foi levado ao hospital.

Recebeu vários pontos na cabeça.

Os médicos conseguiram salvar-lhe os órgãos reprodutores, mas avisaram que escapara por muito pouco.

Enquanto recuperava, perguntavam-lhe repetidamente por que motivo a família da esposa o atacara com tamanha violência.

Silvio limitava-se a suspirar.

Tudo por causa de mil meticais

Mas a história escondia muito mais.

Meses antes, desaparecera dinheiro da casa.

A sogra convencera-se de que o genro o roubara.

Outros diziam que Sílvio recorrera a feitiços para controlar a esposa.

Havia ainda quem espalhasse o boato de que pretendia abandonar a família depois de enriquecer,  fazendo biscates aos domingos.

As suspeitas foram crescendo como brasas debaixo das cinzas.

Os mil meticais apenas serviram de rastilho.

Quando a Polícia ouviu todas as versões, concluiu que a discussão pelo dinheiro desencadeara uma explosão de ressentimentos antigos.

Sílvio recusou apresentar-se como ofendido.

– Não tenho nada contra a velha!

Disse  apenas que desejava que a família encontrasse paz.

Mas fez uma promessa.

Se voltarem a atacar-me assim, desta vez levo o caso até ao fim.

A casa ficou destruída.

As relações familiares nunca mais voltaram a ser as mesmas.

E durante muitos anos, naquela rua, sempre que alguém começava uma discussão por causa de dinheiro, havia quem abanasse a cabeça e murmurasse:

Cuidado… mil meticais já foram suficientes para quase morrer uma pessoa.

Aí os ânimos logo se acalmavam.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 27 de Julho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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