E nós, que país estamos a construir?— RAFAEL NAMBALE
Talvez o país em que vivemos diga mais sobre nós do que estamos dispostos a admitir.
Estamos habituados a procurar nos outros as razões para aquilo que não funciona à nossa volta.
Nos governantes. Nas instituições. Nos partidos. Na corrupção. Na pobreza. Na falta de oportunidades.
E muitas vezes temos razão.
Há responsabilidades que têm nome. Há decisões que têm responsáveis. Há injustiças que não podem ser escondidas atrás da palavra “nós”.
Mas há uma pergunta que continua à nossa espera.
E nós?
Não nós como espectadores do país.
Nós como pessoas que acordam todos os dias, trabalham, educam os filhos, enfrentam dificuldades, escolhem em quem acreditar, comentam as notícias, partilham mensagens, discutem, votam, calam-se ou levantam a voz.
Nós.
O país também passa por aqui. Talvez seja difícil aceitar.
É muito mais confortável apontar o dedo do que olhar para a própria mão.
Quando falamos de corrupção, pensamos nos grandes esquemas, nos milhões desviados, nos contratos obscuros. E devemos falar deles.
Mas o que fazemos quando alguém oferece dinheiro para resolver depressa aquilo que deveria seguir o seu caminho?
Quando usamos uma amizade para passar à frente de quem espera?
Quando aceitamos uma pequena vantagem e dizemos: “É assim mesmo”?
A pequena transgressão não é o grande crime.
Mas talvez exista entre as duas uma pergunta que merece ser feita: que cultura estamos a alimentar quando aprendemos a aceitar aquilo que dizemos condenar?
Com a verdade acontece algo parecido.
Queixamo-nos das mentiras que circulam, mas quantas vezes partilhamos uma informação sem verificar? Não porque tenhamos certeza de que é verdadeira.
Mas porque gostamos dela. Porque confirma aquilo que já pensamos.
Porque foi enviada por alguém em quem confiamos.
E, às vezes, porque queremos que seja verdade.
Hoje, uma mentira pode atravessar centenas de pessoas antes de alguém perguntar se era mesmo verdade.
E depois já ninguém sabe onde começou. Uma palavra também constrói.
Uma palavra também destrói.
Pode aproximar duas pessoas ou transformar um vizinho num inimigo.
E talvez tenhamos esquecido uma coisa simples: por trás de uma opinião existe uma pessoa.
Discordamos e imediatamente procuramos um nome para colocar sobre o outro.
Ignorante. Manipulado. Vendido. Inimigo. Depois já não conversamos.
Combatemos.
Talvez seja por isso que tantas discussões deixaram de procurar compreender.
Procuram vencer.
Mas quando todos querem ganhar a discussão, quem fica com o país?
Não precisamos concordar para reconhecer a humanidade de quem discorda.
Não precisamos gostar da opinião do outro para ouvi-la.
Ouvir pode ser uma das formas mais difíceis de coragem.
Porque ouvir de verdade significa aceitar, ainda que por alguns instantes, que talvez não tenhamos percebido tudo. E isso exige humildade.
Também não precisamos acreditar que uma pessoa pode resolver sozinha os grandes problemas do país.
Um cidadão não acaba com o desemprego. Não reforma a justiça.
Não elimina a corrupção. Não transforma uma economia.
Mas um país não é construído apenas nas grandes decisões.
É construído também nas pequenas.
Na maneira como tratamos quem trabalha connosco.
Na forma como educamos os nossos filhos.
Na fila que respeitamos — ou furamos. No dinheiro que recusamos — ou aceitamos.
Na informação que verificamos — ou partilhamos.
Na maneira como falamos de quem não está presente.
E naquele momento, tão simples e tão difícil, em que conseguimos dizer: “Não sei”.
Ou: “Enganei-me”.
Talvez seja aqui que a pergunta comece realmente a incomodar: E nós, que país estamos a construir?
Não apenas o país que queremos. Não apenas o país que criticamos.
Mas aquele que as nossas escolhas, todos os dias, ajudam a produzir.
Talvez o futuro não esteja tão distante como imaginamos.
Talvez esteja escondido na maneira como fazemos as coisas hoje.
Ao longo desta caminhada, fomos fazendo perguntas.
Não para encontrar respostas fáceis, mas para aprender a olhar melhor.
Talvez esta última seja a mais próxima de todas. Nós também somos o país.
Não somos todo o país. Não somos responsáveis por tudo.
Mas somos responsáveis por alguma coisa.
E talvez descobrir por aquilo que somos responsáveis seja uma das formas mais honestas de começar a mudar.
Não sabemos que país os nossos filhos irão encontrar.
Mas sabemos que, de alguma maneira, eles encontrarão também aquilo que nós deixarmos para trás.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas: Que país queremos?
Talvez seja outra. Mais próxima. Mais difícil.
Mais nossa: Que país está a nascer das nossas escolhas?
E amanhã, quando voltarmos a apontar o dedo para o país que temos…
Talvez valha a pena parar por um instante.
Olhar para nós. E depois olhar para a nossa própria mão.
Aquela que, todos os dias, também está a construir o país que teremos.
©RAFAEL NAMBALE *
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 08 de Setembro de 2026, na rubrica denominada O país que somos.
Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Correio da manhã favor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz
Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais.
Gratos pela preferência
Para ver a revista Prestígio de Setembro/Outubro de 2026 clique AQUI