Enterraram a avó viva no quintal— LEANDRO PAUL

 (Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário “Fim de Semana”, 1997-2007; imagem ilustrativa)

Estei N. percebeu que alguma coisa estava errada quando os dois netos começaram a cavar no quintal. Não era tempo de plantar. Nem sequer não havia lixo para enterrar.

A velha ficou sentada à sombra da casa, na Macia, província de Gaza, acompanhando os movimentos dos rapazes. A terra estava seca e oferecia resistência às enxadas. Cada pancada levantava uma pequena nuvem de poeira.

Um dos netos cavava. O outro retirava a terra. Nenhum falava com ela.

Estei chamou:

– O que estão a fazer aí?

Não responderam.

A cova foi ficando maior. Mais comprida. Mais funda.

Até que a velha percebeu. Aquela cova era para uma pessoa. Ela só não sabia que era para ela mesmo.

Tudo começara algum tempo antes, quando a família passou a viver uma sucessão de desgraças. Faltava dinheiro. Havia doenças. Pequenos problemas transformavam-se em grandes discussões. O que antes parecia uma família pobre, como tantas outras, começou a parecer uma família perseguida pelo azar.

Era preciso encontrar uma explicação. E, quando a pobreza permanece tempo demais dentro de uma casa, às vezes as pessoas deixam de procurar as causas onde elas realmente estão.

Procuraram um culpado. E o nome do culpado veio da boca de um curandeiro. Queriam saber por que razão as coisas corriam tão mal. Por que havia doenças. Por que o dinheiro nunca chegava. Por que os problemas não acabavam.

A resposta do curandeiro caiu como uma sentença:

– Há uma velha na família, responsável por estas desgraças.

Quando regressaram a casa, já não olharam para a avó Estei da mesma maneira.

Cada doença passou a ser obra dela. Cada noite mal dormida era obra dela. Se faltava comida, Estei estava por detrás. Se alguém adoecia, era Estei. Se alguma coisa desaparecia, ninguém precisava de procurar muito. A velha estava ali.

E, pouco a pouco, a acusação tornou-se verdade dentro da cabeça dos seus familiares.

Estei negava.

– Eu não fiz nada.

Ninguém queria ouvir.

– Sou vossa avó.

Também isso deixou de importar.

Talvez tenha tentado lembrar-lhes de quando eram pequenos. Das vezes em que lhes dera comida. Dos dias em que os carregara ao colo. Dos momentos em que cuidara deles quando estavam doentes.

Mas há momentos em que o medo é mais poderoso do que a memória. E a família já tinha decidido que a avó era a feiticeira.

A tensão aumentou. A velha começou a perceber que já não estava segura entre os seus. As ameaças tornaram-se sérias.

O caso chegou às autoridades do bairro e depois à Polícia.

Mas surgiu um problema. Segundo a explicação, dada na altura, as autoridades não podiam intervir enquanto não houvesse delito, neste caso uma violência física. Uma acusação de feitiçaria não bastava. Era necessário que acontecesse alguma coisa, disseram  as autoridades.

E aconteceu.

Naquele dia, quando viu os netos a cavarem o quintal, Estei compreendeu finalmente até onde estavam dispostos a ir. Tentou afastar-se. Não conseguiu. Os próprios netos agarraram-na.

– O que vão fazer comigo?

Um deles respondeu:

– Tu sabes.

– Eu sou vossa avó!

Não adiantou.

Levaram-na até à cova. Estei gritou por socorro. Chamou pelos vizinhos. Talvez até tenha chamado por Deus.

Mas ninguém apareceu para impedir aquilo.

Os rapazes empurraram-na. A velha caiu dentro da cova. Ainda estava viva. A primeira pá de terra. Depois outra. E mais outra.

É difícil imaginar o que passa pela cabeça de uma pessoa quando vê cair sobre o próprio corpo  aquelas pás de terra.

Talvez Estei tenha pensado que os netos estavam apenas a assustá-la. Talvez acreditasse que, no último momento, alguém recuperaria o juízo. Afinal, eram seus netos. Sangue do seu sangue.

Mas veio outra pá. E mais outra.

A terra começou a cobrir-lhe as pernas. Depois a cintura. Estei gritava. Pedia que parassem. Jurava que não era feiticeira. Dizia que não tinha provocado doença nenhuma. Que não era responsável pela miséria da família.

Mas os netos continuavam.

A terra chegou-lhe ao peito. Respirar começou a tornar-se difícil. A velha tentou mexer-se, mas o peso do solo prendia-lhe o corpo.

Só a cabeça permanecia de fora. Talvez nesse momento tenha percebido que ninguém estava a brincar. Estavam realmente a enterrá-la. Viva.

– Meus filhos, não façam isso!

Mas as enxadas não pararam. Mais terra. Mais poeira. Mais silêncio.

Até desaparecer a voz. Depois desapareceu o rosto. E, finalmente, onde antes estava uma mulher, ficou apenas terra remexida.

Os dois netos tinham acabado de executar a sentença que eles próprios haviam pronunciado.

A avó estava morta.

Talvez esperassem que, depois da morte de Estei, alguma coisa mudasse. Que o dinheiro aparecesse. Que os doentes sarassem. Que a comida passasse a chegar. Que os problemas desaparecessem.

Mas a miséria ficou.

A casa continuou a ser a mesma. A pobreza não morreu dentro daquela cova. As dificuldades não foram enterradas com Estei. Morreu apenas uma velha.

Quando o caso se tornou conhecido, já não havia ameaça para prevenir. Já não havia avó para proteger.

A violência física que antes faltava para justificar uma intervenção das autoridades tinha finalmente acontecido, da maneira mais brutal possível. Foram, por isso, encarcerados.

Como podiam dois netos enterrar viva a própria avó? – perguntavam, no mercado, os mais incrédulos.

A resposta talvez estivesse justamente naquilo que acontecera antes.

Estei já tinha deixado de ser avó aos olhos deles. Primeiro transformaram-na em suspeita. Depois em feiticeira. Depois em responsável pelas doenças. Depois em culpada pela pobreza. Quando chegou o momento de a lançar para dentro da cova, talvez já não vissem diante deles a mulher que pertencera à família durante toda a vida. Viam a origem de todos os males. E foi assim que conseguiram matá-la, sem dó nem piedade.

Durante algum tempo, muito se falou sobre este caso na Macia. Nas casas. Nos caminhos. No mercado. Na igreja.

Uns terão condenado os netos. Outros talvez tenham murmurado que, onde há fumo, há fogo. E alguns, provavelmente, terão continuado a acreditar que Estei possuía realmente poderes escondidos.

Mas havia uma verdade que nenhuma crença podia alterar: uma mulher fora enterrada viva. Não por desconhecidos. Não por ladrões. Não por inimigos. Pelos seus próprios netos.

E talvez seja essa a parte mais terrível desta história.

Estei passou os últimos minutos da sua vida olhando para dois rostos que conhecia desde que eram crianças. Rostos que vira crescer. Rostos que faziam parte da sua própria descendência.

A família procurava alguém para responsabilizar pela sua desgraça e encontrou a pessoa mais indefesa. Depois abriu uma cova no quintal e enterrou-a.

Mas, quando tudo terminou, continuava pobre. Continuava com os mesmos problemas. Continuava com as mesmas doenças. Só já não tinha avó.

E, debaixo da terra, Estei levou consigo a única coisa que aquela família jamais conseguiria desenterrar: a possibilidade de descobrir que ela, talvez, nunca tivesse sido culpada de coisa nenhuma.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 08 de Setembro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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