O sábado de que se arrependeu — LEANDRO PAUL
(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997-2007. Imagem ilustrativa)
Elizabete baixou a cabeça antes de responder.
As ligaduras cobriam-lhe o couro cabeludo e parte do corpo. Estava sentada na cama do hospital, com os braços próximos do tronco, procurando uma posição que não lhe provocasse mais dores.
Do corredor chegavam passos, vozes e o ruído de alguma coisa a ser empurrada sobre rodas.
Quando finalmente falou, não começou pelo marido. Nem pela outra mulher. Começou por si.
– Estou arrependida.
Tinha 40 anos, quatro filhos e um sábado ao qual regressava sem querer.
Um sábado na Moamba. Um sábado em que, durante uma crise de desespero, tentara pôr fim à própria vida, imolando-se, isto é, pondo fogo no próprio corpo. Para se matar? Para magoar o marido? Não sabia.
Agora estava no Hospital Central de Maputo. Arrependida, pois queria continuar a viver.
Antes daquele dia, Elizabete já se sentia cansada. Era assim que explicava o que lhe acontecera. Um cansaço que se vinha acumulando havia tempo e que ela já não conseguia separar das preocupações da casa, das ausências do marido e das conversas sobre a outra mulher.
Segundo contava, o marido mantinha uma relação fora do casamento.

Não soubera de tudo de uma vez. Primeiro, uma suspeita. Depois, uma informação trazida por alguém.
Mais tarde, a sensação de que os outros conheciam uma parte da sua vida que ela própria ainda tentava compreender.
Nos lugares onde as pessoas se conhecem, há notícias que chegam acompanhadas de um cuidado excessivo. Baixam-se as vozes. Escolhem-se as palavras. Antes de se dizer alguma coisa, pergunta-se se a pessoa está sentada.
Elizabete fora juntando o que ouvia. Em casa, procurava sinais que confirmassem ou desmentissem. Uma demora. Uma resposta curta. Uma pergunta à qual o marido parecia não querer responder.
Não era apenas a existência de outra mulher que a perturbava. Era continuar a tratar dos dias, sem saber o lugar que ocupava na vida do homem com quem os partilhava.
A sua explicação para o sofrimento incluía também o feitiço. Acreditava que a mulher com quem o marido se relacionava lhe fazia mal, através de práticas ocultas.
No ano anterior, magoara uma perna em circunstâncias que dizia não conseguir explicar. Também passara por um período de doença que, segundo o seu relato, só melhorara depois de um tratamento tradicional.
Para Elizabete, esses episódios estavam ligados. Via neles sinais de uma perseguição. Mas eram as suas convicções, formadas no meio do medo e da aflição. Não tinha como demonstrar que a outra mulher fosse responsável pelas doenças ou pelo acidente.
Ainda assim, a crença acompanhava-a. Quando alguma coisa corria mal, encontrava nela uma explicação. E cada explicação parecia confirmar-lhe que o perigo estava próximo.
A casa, onde deveria poder descansar, tornara-se também um lugar de inquietação.
Naquela manhã de sábado, Elizabete acordou com os mesmos pensamentos.
Dois dos filhos viviam então com ela. Enquanto eles estavam em casa, os gestos habituais ainda davam alguma ordem ao tempo. Havia coisas para fazer, perguntas para responder, pequenos assuntos que exigiam atenção.
Depois saíram. A casa ficou então silenciosa.
Elizabete permaneceu com as preocupações que vinha repetindo para si, cada vez mais fechadas sobre a mesma conclusão: já não tinha valor.
Mais tarde, no hospital, seria essa uma das frases que usaria para tentar explicar a decisão. Sentira que a sua vida deixara de ter importância.
Naquele momento, não conseguiu encontrar distância entre o que sentia e o que era verdade. A dor ocupou-lhe o pensamento inteiro. Não viu uma saída.
E, sozinha, fez uma tentativa de suicídio, com fogo, que lhe causou queimaduras graves.
O arrependimento chegou ainda em casa. Quis interromper o que estava a acontecer. Procurou socorro. A partir daí, os acontecimentos perderam a ordem com que depois tentaria contá-los. Havia a dor, a urgência de ser ajudada e a consciência de que precisava de sobreviver. O resto veio através de outras pessoas, dos cuidados recebidos e do caminho até ao hospital.
O sábado que começara na Moamba acabou por levá-la a uma cama em Maputo. Ali, ninguém precisava de lhe perguntar se doía. Era possível perceber pelo cuidado com que se movia. Pela maneira como inclinava a cabeça. Pelo esforço necessário para se acomodar depois de alguns minutos na mesma posição.
As queimaduras tinham atingido várias partes do corpo, com particular gravidade na cabeça. O tratamento exigiria tempo. Elizabete começava a compreender isso através de cada dia que passava.
Na enfermaria, a vida continuava a acontecer à sua volta. Uma doente recebia visitas. Noutra cama, alguém pedia ajuda. Os profissionais de saúde aproximavam-se, faziam perguntas, tratavam feridas e passavam ao doente seguinte.
Pensava nos filhos. Nos dois que viviam com ela. Nos outros dois. Pensava no que teriam ouvido a respeito dela e em como seria voltar a encontrar-se com eles depois daquilo.
Não encontrava uma maneira simples de explicar aquele sábado. Ela própria ainda procurava compreendê-lo. O que conseguia dizer com clareza era que se arrependia. Queria melhorar. Queria sair daquela cama.
Mas ao falar do marido e da outra mulher, a mágoa permanecia. Responsabilizava-os pelo sofrimento que sentia e dizia que a tinham empurrado para aquela situação.
Era a forma como, naquele momento, interpretava a sua mágoa.
Sobretudo por não saber o que a esperava, quando voltasse a casa.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 26 de Outubro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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