Quem vai governar Moçambique? — RAFAEL NAMBALE

Há momentos na vida de um país em que uma pergunta deixa de ser suficiente.

Em Moçambique, uma delas tornou-se inevitável: quem vai governar o país?

É uma pergunta legítima. Está no centro da disputa política, das eleições, dos partidos e das expectativas de milhões de cidadãos. Mas talvez já não seja a pergunta mais importante.

Há outra, mais incómoda e, talvez por isso mesmo, mais necessária:

Que tipo de Estado estará a governar os moçambicanos?

A diferença entre as duas perguntas não é pequena.

A primeira diz respeito a quem ocupa o poder. A segunda interroga a natureza do próprio poder.

E talvez seja precisamente aqui que começa a verdadeira discussão sobre o futuro de Moçambique.

O país atravessa um momento particularmente delicado. Depois de uma crise eleitoral que aprofundou feridas antigas, de uma contestação política e social que expôs níveis preocupantes de desconfiança e de uma tensão que ainda não desapareceu, Moçambique procura uma saída.

É neste contexto que surge o Diálogo Nacional Inclusivo, apresentado como espaço para discutir reformas do Estado, governação, sistema eleitoral, justiça, descentralização e até a revisão constitucional.

Não se pode negar a importância dessa discussão.

Mas também não podemos confundir diálogo com transformação.

Um país pode dialogar muito e mudar pouco.

Pode produzir documentos, consensos e declarações — e continuar praticamente igual naquilo que realmente importa: a relação entre o cidadão e o Estado.

É aqui que mora a nossa inquietação.

Estaremos perante uma oportunidade histórica de reformar o Estado ou perante uma sofisticada tentativa de administrar uma crise que se tornou demasiado grande para ser ignorada?

A resposta não estará nas palavras, mas nas consequências.

Uma verdadeira reforma começa quando alguém aceita que o seu próprio poder precisa de ter limites.

Começa quando as instituições deixam de ser instrumentos de quem governa e passam a funcionar como instituições da República.

Quando a Administração Pública compreende que servir o Estado não significa servir um partido.

Quando a justiça pode ser respeitada mesmo por aqueles que discordam das suas decisões.

E, sobretudo, quando o cidadão deixa de sentir que o Estado lhe pertence apenas nos dias em que é chamado a votar.

Porque este é um dos problemas centrais da nossa democracia: reduzimos demasiadas vezes a política à disputa pelo poder.

Quem ganha? Quem perde? Quem governa? Quem lidera a oposição?

Mas há uma pergunta que raramente colocamos com a mesma intensidade:

O que acontece ao Estado quando alguém ganha?

É aí que a política deixa de ser apenas competição e passa a ser responsabilidade.

Mudar os ocupantes do poder sem mudar a forma de exercer o poder pode produzir apenas uma alternância de protagonistas.

E uma democracia não se consolida apenas quando muda quem governa.

Consolida-se quando muda a forma como o poder é exercido.

Por isso, os dois cenários que hoje se desenham para Moçambique — reforma ou agravamento da tensão — não são necessariamente destinos inevitáveis.

São, em grande medida, consequências de escolhas.

O primeiro exige coragem política: aceitar reformas que limitem poderes, fortaleçam instituições, melhorem a confiança eleitoral, reforcem a justiça, protejam a Administração Pública da captura partidária e criem mecanismos reais de responsabilização.

Exige também algo mais difícil: aceitar que ninguém pode ser dono permanente da verdade política.

O segundo caminho parece mais fácil.

É administrar a tensão. Adiar decisões difíceis. Produzir consensos suficientes para evitar uma ruptura, mas insuficientes para transformar as causas profundas da crise.

É esperar que o tempo faça aquilo que a política não conseguiu fazer.

Mas o tempo nem sempre cura as feridas de uma sociedade. Às vezes, apenas as torna mais profundas.

E aqui entra o cidadão.

Seria confortável atribuir toda a responsabilidade aos políticos. Mas uma democracia também é aquilo que os cidadãos aceitam, rejeitam, toleram ou exigem.

Um cidadão que participa apenas no dia das eleições entrega demasiado da sua soberania aos outros.

Uma sociedade que se habitua à impunidade acaba por normalizá-la.

E quando a confiança desaparece, até uma pequena faísca pode reacender uma crise maior.

Por isso, talvez Moçambique não precise apenas de reconciliação entre políticos.

Precise de reconciliação entre o cidadão e o Estado.

Essa reconciliação não se faz com discursos.

Faz-se quando o cidadão percebe que a polícia está ali para protegê-lo, e não para intimidá-lo. Quando sabe que a justiça não depende da sua posição política. Quando a Administração Pública não pergunta em quem votou. Quando compreende que os recursos do Estado pertencem à República, e não ao partido que governa.

E quando o voto deixa de ser entendido como uma autorização para fazer tudo e passa a ser visto como uma delegação de poder sujeita a escrutínio.

É neste ponto que a discussão sobre o futuro de Moçambique ganha outra dimensão.

Talvez este país não esteja simplesmente a decidir quem o vai governar.

Talvez esteja, finalmente, perante a oportunidade de decidir como quer ser governado.

A diferença pode parecer subtil.

Mas pode determinar o país que deixaremos às próximas gerações.

Moçambique não precisa apenas de novos políticos.

Precisa de uma nova relação com o poder.

Não precisa apenas de novas eleições.

Precisa de instituições nas quais o resultado das eleições possa ser verdadeiramente confiado.

Não precisa apenas de consensos entre elites políticas.

Precisa de recuperar a confiança de quem está fora das salas onde esses consensos são negociados.

Porque governos passam.

Partidos podem mudar.

Líderes passam.

As maiorias mudam.

Mas o Estado permanece.

E talvez seja precisamente por isso que, neste momento da nossa história, a pergunta mais importante já não seja apenas:

Quem vai governar Moçambique?

Mas esta: Que tipo de Estado queremos que governe os moçambicanos?

©RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 12 de Outubro de 2026, na rubrica denominada O país que somos.

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