Falhou o ‘banho’ dado ao carro — LEANDRO PAUL
(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1977-2005; imagem ilustrativa).
Quando viu o polícia levantar a mão, Zoeira não se assustou.
Tirou o pé do acelerador e encostou o Toyota Sprinter cinzento à berma, com a tranquilidade de quem tinha os documentos em ordem e nada a esconder.
Vinha de Xai-Xai. A viagem fora longa, mas regressava satisfeito. Lá no interior, numa cerimónia tradicional, mandara “dar banho” à sua nova aquisição.
Agora, pensava ele, podia circular descansado. O carro estava protegido.
Na zona de Marracuene, o agente da PT aproximou-se da janela e baixou ligeiramente a cabeça.
– Boa tarde. Os documentos da viatura, por favor! Disse o agente, com delicadeza.
Zoeira procurou-os devagar. Não queria parecer nervoso. Aos 24 anos, já sabia que, diante da Polícia, até um movimento das mãos podia despertar perguntas.
O agente recebeu o que lhe foi entregue, olhou para a viatura e voltou a olhar para Zoeira.
–Este carro é seu?
–É sim, é meu.
–Comprou a quem?
–A um amigo.
O polícia não respondeu logo.
Observou, cuidadosamente, a matrícula. Tomou nota num bloco de apontamentos. Depois afastou-se alguns passos, levando os documentos.
Foi nessa altura que Zoeira começou a sentir um pequeno incómodo. Não era ainda medo. Era a impressão de que aquele encontro estava a demorar mais do que devia.
Tudo começara com uma oportunidade: um Toyota Sprinter cinzento, por 50 mil meticais.
Zoeira era motorista, vivia na Mafalala e conhecia o valor de uma viatura. Um carro podia representar trabalho, independência e algum respeito. Podia mudar a maneira como os vizinhos olhavam para um homem. Até mesmo as mulheres.
Jerry, o tal amigo, tinha o carro. Zoeira tinha interesse. O negócio fez-se. Havia, porém, uma diferença entre comprar uma viatura e poder andar com ela tranquilamente. Zoeira adquirira o carro sabendo que estava “quente”. Não quente de motor. Quente de problemas. O Toyota tinha sido roubado. Zoeira sabia disso. Um carro daqueles não podia custar assim tão pouco.
E um carro roubado traz consigo coisas que não se vêem quando se abre o capô. Traz uma queixa, uma matrícula procurada, alguém à espera de o recuperar.

Zoeira encontrou, então, uma maneira de enfrentar essa preocupação. Levou-o a Gaza. Ali, longe de Maputo, realizou-se a cerimónia destinada a “abençoar” a nova aquisição. Foi-lhe dado um “banho” para o proteger contra possíveis roubos e outros males.
No regresso, o motor trabalhava bem. A estrada desenrolava-se diante dele. Cada quilómetro percorrido parecia confirmar que tudo estava a correr como esperava. Tinha valido a viagem.
Até aparecer aquela mão levantada. O agente voltou acompanhado de outro polícia.
Zoeira endireitou-se no banco.
– Saia da viatura! Disse-lhe, desta vez, rispidamente
Agora, sim, sentiu medo. Abriu a porta e pousou um pé no chão. Depois o outro.
O sol ainda aquecia a chaparia do Toyota Sprinter. Atrás dele, passavam carros, pessoas seguiam os seus caminhos e a vida continuava com uma indiferença que lhe pareceu injusta.
–Já expliquei. Comprei o carro a um amigo.
–Qual amigo?
Zoeira hesitou. O agente repetiu a pergunta.
O nome de Jerry, que durante o negócio parecera suficiente, começava agora a exigir outras explicações. Onde morava? Onde fizera a entrega? Que documentos recebera? As perguntas surgiam uma atrás da outra.
Zoeira olhou para o Toyota. Era o mesmo carro com que saíra de Gaza. A mesma cor, os mesmos pneus, o mesmo volante que segurara durante toda a viagem. Mas já não parecia seu.
–Estacione ali e entregue as chaves!
Ele obedeceu. Ao retirar a chave da ignição, ficou por um instante com ela na mão. Uma coisa tão pequena.
Até poucos minutos antes, aquela chave significava liberdade para partir. Agora, passá-la ao polícia de Trânsito parecia entregar também o dinheiro gasto, a viagem feita e os planos que começara a construir.
–Senhor agente, podemos conversar.
–Estamos a conversar.
Zoeira baixou a voz. Viu que dali não sairia nada a seu favor. Ele não sabia que o polícia conhecia as circunstâncias em que o carro fora roubado.
Antes de chegar às mãos de Zoeira, o Toyota estivera nas mãos de uma jovem estudante.
Ela conduzia a viatura do pai, um chefe grande na Função Pública, e seguia acompanhada das irmãs.
Era sábado, por volta das sete da noite, nas imediações do restaurante Tirol, próximo do Hospital Central de Maputo. Talvez conversassem. Talvez pensassem apenas em chegar ao destino.
Depois apareceram os assaltantes. Armas de fogo transformaram aquele pequeno espaço familiar num lugar de medo. As irmãs tiveram de entregar o carro, gerando traumas difíceis de reparar.
Nenhuma cerimónia tradicional podia apagar aquele momento de pânico. Nem devolver às jovens a segurança com que tinham entrado na viatura.
A quadrilha desapareceu com o Toyota. Mais tarde, o carro chegou a Zoeira. Agora estava diante dos agentes, que reconheciam nele uma viatura procurada.
Enquanto Zoeira pensava no que perderia, havia uma família que finalmente poderia recuperar o que lhe tinham levado.
Sem saber nada disso, ele aproximou-se um pouco do polícia. Não queria que os outros ouvissem. Falou com cuidado, procurando transformar o problema numa questão que pudesse ser resolvida ali mesmo, à beira da estrada.
Tinha dinheiro no bolso. Três mil meticais. Restara da viagem. A quantia apareceu como uma última promessa de salvação.
Se o tratamento tradicional não estava a produzir o resultado esperado, talvez as notas conseguissem. O agente olhou para o dinheiro. Depois olhou para ele. Zoeira aguardou.
Naqueles segundos, o ruído dos carros pareceu afastar-se. Toda a sua atenção ficou presa ao rosto do homem que podia deixá-lo seguir viagem. Mas o polícia não aceitou.
E a tentativa de resolver um crime acabava de lhe acrescentar outro problema. Além da viatura roubada, havia agora uma tentativa de suborno.
A notícia circularia depois pela Mafalala. O motorista que comprara um carro “quente”. A viagem a Gaza. A cerimónia do “banho”. A detenção no regresso. E aquele dinheiro que não serviu para nada. Teria sido pouco? O agente quereria mais? Uns riram. Outros abanaram a cabeça. Não faltou quem discutisse se o tratamento fora mal feito, ou se Zoeira pedira mais do que lhe podiam garantir.
Mas, naquele momento, ele não tinha vontade de discutir coisa alguma. O Toyota ficara para trás. A Polícia preparava a devolução ao legítimo proprietário e continuava à procura de Jerry e dos restantes assaltantes.
Zoeira seguiria, entretanto, para a Cadeia Central da Machava, com um processo para responder.
Durante a viagem, já sem conduzir, talvez tenha voltado mentalmente à cerimónia em Gaza. Procurando uma palavra esquecida. Um gesto mal cumprido. Uma explicação para o fracasso.
Na estrada de Marracuene, porém, tudo tinha sido bastante simples.
O polícia levantara a mão. Ele parara.
É que, apesar do “tratamento tradicional”, a matrícula continuou perfeitamente visível, para quem quisesse ver. Até mesmo a brigada da Polícia na estrada.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 12 de Outubro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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