Incluir não é favor – é estratégia nacional — RAFAEL NAMBALE
Países que excluem desperdiçam talento, alimentam instabilidade e comprometem o seu próprio crescimento — Moçambique não pode continuar a pagar esse preço.
Há uma ideia persistente — e profundamente limitadora — que ainda molda muitas decisões em Moçambique: a inclusão é vista como um gesto de boa vontade, um acto de generosidade, quase um favor concedido a quem está à margem.
Não é.
Nunca foi.
E continuar a tratá-la como tal tem um custo elevado — económico, social e político.
Incluir não é caridade. É estratégia.
É a diferença entre um país que cresce com todos e um país que avança deixando para trás precisamente aqueles que poderiam sustentá-lo.
Moçambique é um país de contrastes profundos.
De um lado, um potencial humano vasto, jovem, dinâmico.
Do outro, barreiras estruturais que impedem grande parte dessa energia de se transformar em produtividade real.
Milhares de jovens fora do sistema formal de emprego.
Desigualdades territoriais persistentes, onde o lugar de nascimento continua a definir oportunidades.
Mulheres com acesso limitado a recursos, apesar do seu papel central na economia informal e na coesão social.
Estes não são apenas problemas sociais.
São falhas de sistema.
E um sistema que falha em integrar a maioria dos seus cidadãos não pode funcionar plenamente.
A exclusão tem efeitos cumulativos.
Reduz a base produtiva.
Limita a arrecadação fiscal.
Aumenta a dependência.
E, inevitavelmente, fragiliza a estabilidade.
Porque onde não há inclusão, instala-se a frustração.
E onde a frustração se acumula sem resposta, surge a ruptura — silenciosa ou explícita.
Ignorar este ciclo não o elimina. Apenas o adia.
Por isso, encarar a inclusão como estratégia nacional exige uma mudança de paradigma: deixar de perguntar “quem merece ser incluído?” e começar a perguntar “o que perdemos ao não incluir?”.
E a resposta é simples: perdemos demasiado.
Perdemos inovação quando jovens qualificados não encontram espaço.
Perdemos crescimento quando regiões inteiras ficam fora da dinâmica económica.
Perdemos coesão quando grupos inteiros deixam de se sentir parte do projecto nacional.
Nenhum país se desenvolve de forma sustentável com metade da sua população à margem.
E Moçambique, com uma das populações mais jovens do mundo, carrega simultaneamente uma oportunidade histórica e um risco estrutural.
Se essa juventude for integrada — com educação relevante, acesso a financiamento, oportunidades reais — torna-se motor de crescimento.
Se for ignorada — torna-se um factor de instabilidade.
A diferença entre um cenário e outro não é abstrata.
É política.
É estratégica.
É urgente.
Mas incluir não é apenas abrir portas. É garantir condições para atravessá-las.
Isso implica repensar prioridades.
Implica investir de forma mais equilibrada entre regiões.
Implica criar pontes entre educação e mercado de trabalho.
Implica apoiar o empreendedorismo com mais do que discursos.
Implica reconhecer o papel das mulheres não como complemento, mas como eixo central do desenvolvimento.
E, acima de tudo, implica coerência.
Não se constrói inclusão com políticas isoladas.
Constrói-se com visão integrada.
Uma visão onde cada decisão — económica, educativa, institucional — é avaliada pelo seu impacto na ampliação ou redução de oportunidades.
Porque no fim, inclusão não é apenas quem entra.
É quem consegue permanecer, crescer e contribuir.
Há também um equívoco que precisa de ser desmontado: incluir não é baixar exigência.
É alargar acesso mantendo qualidade.
É garantir que o ponto de partida não determine o ponto de chegada.
É criar um sistema onde talento e esforço tenham espaço real para emergir — independentemente da origem.
E isso fortalece o país.
Economicamente, porque aumenta a produtividade.
Socialmente, porque reduz tensões.
Politicamente, porque reforça legitimidade.
Um Estado que inclui é um Estado que se fortalece. Um país que inclui é um país que se estabiliza.
E um sistema que inclui é um sistema que se torna mais justo — e mais eficiente.
Moçambique não precisa apenas de crescer. Precisa de crescer com base ampla. Precisa de transformar potencial em capacidade real.
E isso só acontece quando a inclusão deixa de ser discurso — e passa a ser prática estruturada.
A pergunta, portanto, não é se podemos incluir mais. É se podemos continuar a crescer sem incluir. E a resposta, cada vez mais evidente, é não.
Porque nenhum país constrói futuro excluindo a maioria do seu presente. E nenhum projecto nacional se sustenta quando não é, verdadeiramente, nacional.
Incluir não é favor. É estratégia. E é, talvez, a mais decisiva de todas.
RAFAEL NAMBALE *
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 20 de Abril de 2026, na rubrica de opinião.
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