Foram roubados de olhos abertos, mas não puderam fazer nada — LEANDRO PAUL
Era véspera do dia 7 de Abril. Na loja de capulanas da baixa de Maputo, o movimento daquela tarde era frenético.
Clientes entravam e saíam numa azáfama que se repetia todos os anos, por esta altura. As ventoínhas giravam lentamente no tecto e as atendentes trabalhavam com a rotina de quem já não precisa pensar no que faz. Era só: dá cá, toma lá.
O dinheiro passava de mão em mão, os tecidos eram escolhidos, dobrados, embalados e entregues.
Quem não queria ficar bonita naquele único dia do ano em que a mulher é “rainha”? Com direito a capulana, almoço e bebida no restaurante?
Tal e qual os homens nas noites de cada sexta-feira.
Nada indicava que, ali, algo estava prestes a acontecer.
Celina, uma das caixas, lembraria mais tarde que viu as mulheres entrarem.
Duas.
Bem vestidas. Calmas. Seguras.
Não chamavam atenção pelo barulho. Chamavam atenção pelo silêncio.
Atrás delas vinham dois homens, discretos, como se não fizessem parte do mesmo grupo. Mas faziam.
– Pareciam clientes normais – diria Celina.
– Nada de especial, acentuou.
As mulheres caminharam devagar pela loja, observando tudo com uma atenção que, à primeira vista, parecia apenas curiosidade.
Pararam junto aos balcões. Tocaram nos tecidos. Parecia escolherem a capulana que iriam comprar.
Mas afinal não era nada disso.
Fizeram perguntas em português misturado com outras palavras que ninguém conseguiu identificar com clareza.
O ambiente começou a mudar.
Mas ninguém percebeu exactamente quando.
Foi como se o ar ficasse mais pesado. Como se o tempo tivesse abrandado ligeiramente. Como se todos estivessem ali, presentes, mas ao mesmo tempo distantes.
Celina continuava de pé.
Os olhos abertos.
Mas, mais tarde, não saberia explicar o que aconteceu.
– Eu via… mas não reagia – disse.
As duas mulheres aproximaram-se da caixa.
Uma delas sorriu.
Mostrou uma nota. Disse qualquer coisa naquela língua estranha, inentendível.
O som parecia arrastar-se no ar, como se tivesse mais peso do que devia.
O gerente, Mussa, estava por perto.
Viu tudo.
Mas não fez nada.
– Eu queria falar – contou depois – Mas não conseguia.
Os seguranças estavam nos seus lugares. Também viram. Também não se mexeram.
Durante aqueles minutos, ninguém na loja conseguiu reagir.
Nem mesmo as outras clientes.
Todas olharam.
Mas também não reagiram.
Nem gritar.
Nem correr.
Nem perguntar.
Era como se todos estivessem acordados dentro de um corpo que não lhes obedecia.
As mulheres abriram a caixa.
Com calma.
Sem pressa.
Tiraram o dinheiro à vista de todos.
Notas e mais notas, empilhadas com uma naturalidade inquietante.
Os dois homens, ao fundo, observavam. Um deles aproximou-se, recolheu parte do dinheiro e voltou a afastar-se, como se tudo aquilo fosse um procedimento habitual.
Ninguém os impediu.
Ninguém tentou.
E, quando terminaram, simplesmente saíram.
Sem correr.
Sem olhar para trás.
A porta abriu-se e fechou-se.
E o tempo voltou.
Celina foi a primeira a mexer-se.
Depois veio o som.
– O dinheiro! – gritou alguém.
O gerente tentou falar, mas a voz saiu-lhe atrasada, como se tivesse de atravessar um espaço mais longo do que o normal.
Um dos seguranças aproximou-se da porta, já vazia.
Tinham desaparecido.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu compreender o que tinha acontecido.
Os olhos tinham visto.
Mas o corpo não tinha reagido.
A Polícia foi chamada.
As perguntas começaram.
– Quantas pessoas eram?
– Como estavam vestidas?
– O que disseram?
As respostas vinham fragmentadas.
Confusas.
– Eu estava ali – insistia Celina – Eu vi tudo.
– Então por que não fez nada? – perguntaram os polícias.
Ela não soube responder.
Nos dias seguintes, a história espalhou-se pela cidade.
Falava-se de um novo tipo de assalto. Falava-se de hipnose. Falava-se de técnicas que paralisam o corpo sem fechar os olhos.
Havia quem acreditasse.
Havia quem duvidasse.
Mas, na loja da baixa, a dos tecidos, ninguém voltou a olhar para um cliente da mesma maneira como antes.
O gerente passou a desconfiar até dos sorrisos mais simples.
Os seguranças redobraram a atenção.
E Celina, sempre que alguém se aproximava da caixa, sentia um leve aperto no peito.
Não de medo do roubo.
Mas de algo pior.
De perder, por instantes, o controlo sobre si própria.
Porque, naquela tarde, todos aprenderam uma coisa que não vinha nos manuais de segurança.
Há roubos que não começam com uma arma.
Começam com um olhar.
E quando se percebe o que aconteceu… já é tarde.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 20 de Abril de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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